A reorganização das cadeias produtivas globais já começou a impactar diretamente a indústria brasileira de dispositivos médicos, segundo o Relatório Setorial 2026 da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO). O setor encerrou 2025 com déficit comercial de US$ 9,9 bilhões, com as importações ultrapassando US$ 11 bilhões no período. A pressão internacional sobre a indústria brasileira aumentou após a pandemia, em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e ao movimento global de fortalecimento de cadeias consideradas estratégicas para saúde e tecnologia, diz o documento.
O relatório observa também que a corrida por semicondutores e tecnologias ligadas à saúde passou a reorganizar fluxos globais de produção e comércio exterior, ampliando a concorrência em mercados emergentes como o Brasil. A dependência brasileira continua concentrada principalmente em segmentos de maior complexidade tecnológica, como diagnóstico avançado, monitoramento hospitalar e infraestrutura médica de alta tecnologia.
"A reorganização das cadeias globais já impacta diretamente a indústria brasileira e deve ampliar a pressão competitiva nos próximos anos", afirma Márcio Bósio, diretor institucional da ABIMO. De acordo com a entidade, o envelhecimento populacional, a expansão da demanda hospitalar e o avanço da incorporação tecnológica devem continuar impulsionando o crescimento estrutural do setor no Brasil.
"Hoje, dispositivos médicos fazem parte de uma disputa global que envolve tecnologia, produção industrial e soberania sanitária", completa Bósio. A reorganização das cadeias globais está diretamente relacionada, entre outros fatores, à guerra tarifária entre Estados Unidos e China. "Com o aumento das tarifas sobre produtos chineses no mercado americano, fabricantes chineses passaram a buscar novas rotas comerciais e mercados alternativos, e o Brasil foi um dos países fortemente impactados por esse movimento", explica o executivo.
A ABIMO pontua que parte da pressão competitiva enfrentada pela indústria brasileira também está relacionada à questão tributária. Segundo a entidade, hoje o mercado brasileiro é altamente orientado por preço, e a falta de isonomia nas condições de concorrência acaba favorecendo produtos importados em diversos segmentos. Além disso, muitos hospitais têm ampliado a importação direta de equipamentos, especialmente os de maior porte, o que intensifica ainda mais esse cenário. O desafio para o Brasil passa pela construção de uma política consistente de fortalecimento da indústria nacional.
Isso envolve instrumentos de fomento, como linhas de crédito adequadas para investimentos, além do uso estratégico do poder de compra do Estado para valorizar a estrutura produtiva, tecnológica e de assistência técnica existente no país. Esse modelo contribui para ampliar o acesso à tecnologia, reduzir o tempo de inatividade dos equipamentos e fortalecer a competitividade da indústria local.
Também, afirma o relatório da ABIMO, é necessário avançar em mecanismos de equilíbrio comercial. Nos casos em que o Brasil possui produção nacional e identifica a entrada de produtos importados a preços inferiores ao custo de fabricação brasileiro, é importante avaliar medidas como ajustes tarifários ou até mesmo possíveis práticas de dumping. Já nos segmentos em que não existe produção nacional, não há sentido em adotar medidas de proteção, uma vez que o País ainda depende dessas tecnologias importadas.
"Diante desse cenário, o desafio é organizar um conjunto coordenado de ações que combine fomento à produção nacional, incentivo à inovação e mecanismos que promovam maior equilíbrio competitivo para a indústria brasileira de dispositivos médicos", disse o diretor da Abimo.
0 Comentário(s)