*Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência infantil, violência sexual e estupro de vulnerável. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 100 ou 190 e denuncie.
A irmã adulta de uma das crianças vítima de estupro coletivo em 21 de abril em São Paulo foi responsável por denunciar o caso à Polícia Civil. Ela não mora mais com a família, nem na comunidade de União de Vila Nova, bairro na Subprefeitura de São Miguel Paulista, na zona leste da capital.
Ela descobriu o episódio ao identificar o irmão nos vídeos do abuso que circulam nas redes sociais. E procurou as autoridades no dia 24.
Um adulto, de 21 anos, foi preso neste sábado, 2, e três adolescentes, de 14 a 16, foram apreendidos na sexta-feira, 1º, pelo estupro coletivo de vulneráveis. Um adolescente ainda está foragido, mas a polícia negocia com sua família para que ele se entregue.
Familiares foram pressionados para não denunciar
Delegada responsável pelo caso, Janaína da Silva Dziadowczyk afirma que a família foi pressionada pela comunidade para não denunciar. "Eles queriam resolver entre eles e não queriam que a polícia tomasse conhecimento."
As informações foram divulgadas em coletiva de imprensa neste domingo, 3, no 63º Distrito Policial, da Vila Jacuí, próximo a onde ocorreu o crime.
"Quando a irmã viu o vídeo, identificou o irmão e registrou o boletim de ocorrência. Mas ela não tinha detalhes, não sabia o local. A família estava com medo. Todos saíram de lá. Teve gente que saiu com a roupa do corpo e deixou o imóvel sem nada lá. Foi uma dificuldade localizar essas vítimas."
A denúncia foi feita pela irmã do menino de 10 anos, cuja mãe é dependente química e não há outro responsável por sua guarda.
A vítima foi encaminhada ao Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes, da Prefeitura, com dois irmãos menores de idade, após o Conselho Tutelar verificar que não havia condições de continuarem com a mãe.
O outro menino, de 7 anos, está com a mãe em uma Vila Reencontro, moradia temporária da Prefeitura para pessoas em situação de vulnerabilidade.
As vítimas estão sendo acompanhadas pelo Conselho Tutelar de São Miguel Paulista, por assistentes sociais e profissionais de saúde e pelo Projeto Bem-Me-Quer, programa de acolhimento do governo estadual a vítimas de violência sexual.
"As crianças estão, na medida do possível, bem. Eles não entendem muito bem o que aconteceu", diz a delegada.
Envolvidos admitiram crime; adulto chega em SP nesta segunda
"Os adolescentes admitiram o crime. Todos contaram como aconteceu. E, o maior lá na Bahia, segundo informações, teria admitido também", afirma Janaína.
O Estadão não conseguiu contato com a defesa do preso, nem dos adolescentes apreendidos.
Alessandro, de 21 anos, foi preso em Brejões, no interior da Bahia. Ele será transferido para São Paulo nesta segunda-feira, 4. A polícia espera realizar o depoimento dele ainda nesta semana, para depois indiciá-lo. A Justiça autorizou a prisão temporária dele por 30 dias.
Além de estupro coletivo de vulneráveis, ele também deve ser indiciado por corrupção de menores (os quatro adolescentes infratores) e divulgação de imagem de menores (as duas vítimas).
Violência e gravação teriam partido de adulto
Segundo o relato dos adolescentes apreendidos à polícia, Alessandro teria sido responsável por iniciar as agressões e a gravação do ato.
Eles gravaram o estupro de vulneráveis e Alessandro compartilhou os vídeos no WhatsApp com conhecidos. As imagens foram encaminhadas entre membros da comunidade que se indignaram com o episódio.
Em um dos vídeos, de 63 segundos, as crianças choram, gritam e falam ao menos nove vezes "para" e cinco vezes "eu não quero". Enquanto isso, os violadores riem, insistem no ato e agridem as vítimas.
"Um dos adolescentes falou que inicialmente era uma brincadeira que acabou escalando. Mas a iniciativa de gravar os vídeos foi do maior. Foi ele que começou as brincadeiras, segundo eles. E ele começou a gravar no celular dele. E, depois, pediu para outro menor gravar"|, diz Janaína.
Crianças foram chamadas para empinar pipa
As vítimas haviam sido chamadas pelo grupo para empinar pipa com eles. "Eram pessoas conhecidas das vítimas. Eles eram vizinhos. Conviviam. As crianças tinham confiança neles", afirma a delegada.
Antes de empinar pipa, entraram na casa de um dos jovens apreendidos. Segundo os relatos à polícia, o menino de 10 anos teria fugido de casa e estaria sujo. O adulto e os adolescentes começaram a provocá-lo sobre isso e a falar para que ele fosse tomar banho, quando a agressão começou.
O que ainda falta para concluir caso
A polícia não encontrou indícios de que o estupro tenha sido planejado, nem que o grupo atue como uma quadrilha. Também não identificou outros casos de abusos sexuais na comunidade.
Apesar disso, ainda aguarda o depoimento de Alessandro e quer realizar perícias em seu celular antes de concluir a investigação. Depoimentos de novas testemunhas podem ocorrer a partir disto.
Depois, haverá o indiciamento e o caso será encaminhado ao Ministério Público, órgão responsável por denunciar ou não o caso para Justiça.
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