Estudantes de 104 cursos da Universidade de São Paulo (USP) continuam em greve, segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE), que apoia o movimento. O número representa cerca de 60% dos 180 cursos da instituição, com adesão em todas as 43 unidades, na capital e no interior. Uma mesa de negociação entre estudantes e a reitoria está prevista para esta terça-feira, 28.
Entre as reivindicações dos estudantes estão melhorias nos restaurantes universitários, os bandejões, aumento do valor do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE) para um salário mínimo e ampliação das políticas de permanência estudantil.
A paralisação, iniciada em 14 de abril em apoio a trabalhadores excluídos de uma gratificação concedida a docentes, ganhou novas pautas e ampliou sua abrangência. Na sexta-feira, os servidores encerraram a paralisação depois de verem seus principais pedidos serem atendidos pela reitoria.
A greve dos estudantes esbarra em um ponto sensível. A Pró-Reitoria de Graduação (PRG) não vai autorizar alterações no calendário acadêmico, mesmo com a paralisação. Na prática, aulas, provas e prazos devem seguir normalmente.
A decisão provocou reação entre estudantes, que classificam a medida como uma "tentativa de retaliação". Em nota, o DCE afirma que a portaria "busca desmobilizar o movimento estudantil". Uma das principais reivindicações dos estudantes em greve é a garantia de que não haverá retaliação.
Esse impasse cria situações incomuns. Na Faculdade de Direito, os bloqueios às salas de aulas feitos pelos grevistas levam os professores a disponibilizar seus escritórios de trabalho para que os alunos façam provas.
Já a vereadora Janaína Paschoal (PP) sugeriu, em e-mail enviado a alunos, que um seminário acadêmico previsto para esta segunda-feira, 27, fosse apresentado em seu gabinete na Câmara Municipal.
As aulas da pós-graduação, atividades de extensão universitária, bancas de defesa de trabalhos de conclusão, consultas à biblioteca e eventos previamente marcados não serão afetados pela greve.
Espaços estudantis em discussão
Outro foco de tensão é a regulamentação dos espaços ocupados por entidades estudantis, como centros acadêmicos, áreas de convivência e locais com serviços como lanchonetes e copiadoras.
Uma minuta tramitava em órgãos internos da universidade, mas foi revogada pela reitoria na sexta-feira após o crescimento da greve. "A Reitoria reforça que não há nenhuma intenção da retirada dos espaços estudantis na Universidade", informou em comunicado.
Um grupo de trabalho com participação estudantil será criado para discutir o tema, de acordo com a reitoria.
"O movimento estudantil tem levantado a necessidade de debater democraticamente o uso dos espaços estudantis. Ainda não é suficiente o que a reitoria apresenta aos estudantes", diz Maria Clara Araújo, do DCE e do centro acadêmico de Letras.
Má qualidade dos 'bandejões'
As condições dos restaurantes universitários também estão no centro das críticas. Estudantes relatam problemas de qualidade, incluindo denúncias recentes de comida estragada e presença de larvas na Faculdade de Direito.
A Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) afirma que inspeção da Vigilância Sanitária não encontrou irregularidades no local e que "uma equipe especializada realiza diariamente controle de qualidade das refeições". Desde o início de 2026, foram realizadas cinco visitas de autoridades sanitárias nos restaurantes da USP, diz o órgão.
O movimento estudantil pede a "desterceirização" dos restaurantes universitários - atualmente, dez dos 11 administrados pela PRIP são operados por empresas terceirizadas.
Outro eixo da mobilização é o aumento do valor do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), principal política de assistência socioeconômica da USP. Hoje, o benefício varia entre cerca de R$ 300 (com moradia) e R$ 850 mensais, além de gratuidade nos restaurantes.
Os estudantes defendem que o valor passe a equivaler a um salário mínimo paulista (R$ 1.804) e pedem a ampliação do programa, que atende atualmente 15.869 alunos.
A universidade afirma que o PAPFE é uma política consolidada e que os investimentos seguem em expansão. Para 2026, está previsto um orçamento de cerca de R$ 461 milhões, alta de 8,25% em relação ao ano anterior.
A greve teve como estopim a criação de um bônus para docentes, a Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace). Após pressão, os trabalhadores conquistaram isonomia.
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