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Diário de Notícias

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Big Techs já cortaram 90 mil empregos em 2026 por avanço da IA

Um paradoxo marca o setor de tecnologia em 2026: as maiores empresas do mundo registram lucros recordes e, ao mesmo tempo, promovem ondas de demissão em massa. Segundo dados da plataforma Layoffs.fyi, mais de 92 mil profissionais de tecnologia perderam seus empregos apenas nos primeiros meses do ano. O Vale do Silício, berço da inovação global, já acumula 135 mil dispensas em 2026. O motivo central é um só: a corrida pela inteligência artificial.

Lucro recorde, menos gente

O caso mais emblemático é o da Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp. A empresa faturou US$ 56,31 bilhões no primeiro trimestre de 2026, um salto de 33% que representa seu ritmo de crescimento mais acelerado desde 2021. O lucro líquido no período foi de US$ 26,8 bilhões. Mesmo assim, a companhia iniciou em maio o corte de cerca de 8 mil postos de trabalho — quase 10% de todo o seu quadro global. A justificativa, segundo memorando interno divulgado pela Bloomberg, é o redirecionamento de capital para infraestrutura de IA, com gastos projetados entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões só neste ano. Desde 2022, a Meta já eliminou mais de 33 mil empregos.

A Microsoft seguiu caminho semelhante. Pela primeira vez em seus 51 anos de história, a empresa ofereceu programas de demissão voluntária, tornando elegíveis até 7% dos funcionários nos Estados Unidos — o que pode representar cerca de 8.750 pessoas. A companhia planeja gastar aproximadamente US$ 80 bilhões neste ano fiscal para expandir data centers e serviços de IA, o que exige um corte severo de custos em outras áreas.

A Amazon eliminou 30 mil postos em duas rodadas de demissão. Em outubro do ano passado foram 14 mil cortes; em janeiro de 2026, outros 16 mil. O próprio presidente global da companhia, Andy Jassy, escreveu em uma publicação interna que os ganhos de eficiência proporcionados pela tecnologia permitiriam à empresa reduzir seu quadro.

A Block, empresa de tecnologia financeira, reduziu 40% de sua equipe no início do ano, demitindo mais de 4 mil pessoas. A justificativa apresentada foi que uma equipe menor poderia "fazer mais e fazer melhor" com o uso de ferramentas de IA. Até a Nike entrou na onda, realizando duas rodadas de cortes em 2026 que somaram mais de 2,1 mil demissões focadas em tecnologia e centros de distribuição.

O novo perfil da demissão

Dados do Wall Street Journal mostram que as demissões no setor de tecnologia cresceram 40% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025, mesmo num cenário em que o mercado de trabalho como um todo registrou leve queda nos desligamentos. Isso mostra que a onda de cortes não é generalizada — é cirúrgica e concentrada no setor tech.

Uma mudança importante nesse ciclo é o perfil do trabalhador atingido. Se antes a automação substituía trabalho manual e repetitivo, agora o profissional cognitivo de alta qualificação — engenheiros, analistas de dados, programadores, produtores de conteúdo — passou a ser o novo símbolo dessa etapa de reestruturação. Na Meta, os cortes atingiram principalmente equipes de engenharia e produto. Cerca de 7 mil funcionários que não perderam o emprego foram realocados para trabalhar diretamente com IA, e 6 mil vagas que a empresa planejava preencher simplesmente deixaram de existir.

O mercado financeiro aplaude

Especialistas apontam uma dinâmica perversa por trás desse movimento. O mercado financeiro tem premiado as empresas que anunciam cortes e punido aquelas que ampliam gastos com pessoal. As ações da Meta, Microsoft e Amazon subiram após os anúncios de demissões, reforçando a lógica de que, para os investidores, eficiência operacional via IA vale mais do que a manutenção de empregos. A Meta entra no segundo semestre de 2026 como uma empresa mais enxuta e com mais capacidade computacional, o que agrada analistas de mercado.

Impacto no Brasil

O fenômeno já reverbera entre os trabalhadores brasileiros. Segundo a pesquisa Workmonitor 2026, 60% dos profissionais no Brasil têm medo de perder o emprego para a inteligência artificial, especialmente em áreas financeiras, administrativas e operacionais. O levantamento mostra ainda que 25% dos trabalhadores já utilizam ferramentas de IA na rotina profissional.

Apesar do receio, há forte interesse em qualificação: 87% dos brasileiros afirmam querer aprender a trabalhar com inteligência artificial. No entanto, o acesso ao treinamento é desigual. Entre profissionais da geração Z, metade recebe capacitação em IA dentro das empresas. Entre os baby boomers, o percentual cai para 20%. Há também diferença de gênero: 71% dos trabalhadores qualificados em IA são homens, enquanto as mulheres representam apenas 29%.

O que vem pela frente

Ethan Mollick, professor da Universidade da Pensilvânia e pesquisador de inteligência artificial, resumiu o cenário em declaração ao jornal The Guardian: a IA já está transformando atividades específicas, especialmente aquelas baseadas em informação, linguagem, código e produção de conteúdo, mas ainda não se sabe com precisão como essas mudanças se distribuirão entre setores, cargos e níveis de qualificação.

Parte dos especialistas avalia que empresas podem estar usando a IA como justificativa para cortes que, na verdade, estão mais relacionados à desaceleração do mercado e à pressão por redução de custos. Mas o consenso é de que, independentemente das motivações de curto prazo, a reorganização provocada pela inteligência artificial no mercado de trabalho global é estrutural — e está apenas começando.

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