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'Cansei de Ser Nerd' traz Fernando Caruso em comédia de ficção científica: 'Tem tudo o que amo'

Fernando Caruso já fez rir em palcos, séries e programas de TV. Mas foi preciso esperar pelo cinema para chegar ao seu primeiro papel como protagonista - e ele não veio sozinho. Veio com culto alienígena, reunião de ex-faculdade, amor não resolvido e uma boa dose de paranoia. Cansei de Ser Nerd, nos cinemas desde quinta-feira, 28, é um filme que recusa caber em uma prateleira só.

"É o meu primeiro protagonista no cinema e esse marco é somado a ser o primeiro protagonista fazendo um filme que conflui com tudo que eu amo", diz ele, ao Estadão. "É como se fosse um bolo com cobertura de bolo".

Na trama, ele interpreta Aírton, um nerd que foi injustamente acusado, ainda na faculdade, pelo suposto assassinato de uma colega - chegando a ficar preso por dez dias. Vinte anos depois, ainda carregando o peso desse trauma, ele convence o melhor amigo, Ulisses (Pedro Benevides), a enfrentar a festa de reencontro da turma. No cardápio da noite: desmascarar os verdadeiros culpados, reencontrar o amor da vida, encarar o valentão de sempre e, se der tempo, sair vivo.

Um protagonista que acredita no absurdo

Para dar vida a um personagem paranoico, traumatizado e ao mesmo tempo cheio de afeto sem escorregar na caricatura, Caruso apostou em uma máxima da comédia: acreditar de verdade no que está dizendo, por mais absurdo que seja.

"A comédia é muito calcada em verdade. Não importa o tamanho da loucura do que você esteja dizendo, você tem que estar acreditando naquilo", explica o ator. Ter ao redor um elenco que "garantia as piadas em todas as cenas" também ajudou - com a segurança dos colegas, Caruso pôde se concentrar na âncora dramática do filme: o homem que quer, desesperadamente, que o mundo reconheça sua inocência.

Essa busca por validação externa é, aliás, o que move Aírton e também o que o atrapalha. "Ele passa uma boa parte do filme querendo que os outros reconheçam que ele é inocente, querendo mudar o entorno. E ele não está muito bem resolvido", analisa o ator. A contraparte, Juliana (Bia Guedes), chegou à festa em outro estágio: resolvida, em paz consigo mesma. "Tem uma coisa de você buscar melhorar a si mesmo ao invés de querer corrigir os outros. Eu vejo um pouco isso dentro da mensagem do filme."

Uma salada de gêneros

O diretor Gualter Pupo, premiado diretor de arte que estreia na direção de longas, admite sem rodeios que a mistura foi uma aposta. Comédia romântica, ficção científica, terror, musical, cultura geek: tudo no mesmo filme, filmado em quinze diárias noturnas, em grande parte dentro da própria casa do diretor.

Mas Caruso enxerga na multiplicidade uma vantagem prática, inclusive orçamentária. "Se você vai fazer só ficção científica, precisa de ficção científica o tempo todo. Se vai fazer só terror, precisa manter o clima de terror e monstros o tempo todo. Tendo esse buffet, você vai ter momentos conduzidos pelo fio do drama, da amizade, do romance, e pode ter momentos de ficção científica, momentos de terror. Fica até mais fácil de abarcar tudo", analisa.

O resultado, segundo ele, é um filme que desorientado o espectador no bom sentido. "Você já realmente se perdeu se está com medo, se está rindo, se está querendo acompanhar o romance, se está querendo ver os brothers se livrando daquela situação", explica.

Pupo credita parte desse equilíbrio à sua formação visual e ao acervo infinito de referências que carrega. Durante as filmagens, era comum ele chamar o elenco antes de um take e indicar: isso aqui é igual a tal filme. "Eu não tinha visto tal filme, eu catava ali no YouTube e entendia qual era o esquema que ele queria recriar", conta Caruso. "O Walter tem um cardápio muito vasto".

Entre as influências declaradas pelos dois, Scooby-Doo (a mais evidente), Indiana Jones, Star Wars, Arquivo X, O Exorcista, Pulp Fiction, Superbad, O Grande Lebowski, a trilogia Cornetto de Edgar Wright, Spike Jonze, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Evil Dead e até o surrealismo de Alejandro Jodorowsky. Algumas referências, garante Caruso, estão escondidas no filme esperando por alguém que as note. "Estou esperando ainda", brinca.

Um nerd que finalmente fala

Por trás de toda a loucura, Cansei de Ser Nerd tem uma proposta afetiva clara. "É uma homenagem para essas pessoas que a gente considera nerds", diz Pupo. "Como se fosse um filme que falasse tudo que um nerd talvez não tenha tido oportunidade de dizer na sua existência".

Aírton não é covarde: ele vai à festa, enfrenta os inimigos, tenta provar o que precisa provar. O que lhe falta é paz interior, e é isso que o filme, aos poucos, coloca em xeque. "Esse foi o grande trunfo desse personagem", avalia o diretor.

Para quem chegar ao cinema sem saber exatamente o que esperar, essa pode ser a melhor notícia de todas. "A galera se surpreende de ver essa mistura de gêneros num filme que é classificado como comédia, mas tem o ficção científica, o romance, o suspense, o terror, o drama", antecipa Caruso. "Vai sair do cinema falando: caramba, eu não imaginava que ia ser isso que eu ia assistir."

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