0

Diário de Notícias

DN.

Caso Master: entenda tudo o que está acontecendo e as novas revelações que movimentam Brasília

Caso Master: entenda tudo o que está acontecendo e as novas revelações que movimentam Brasília

Se você ouviu falar do "Caso Master" nos últimos dias e ficou perdido, você não está sozinho. A história começou como um problema de mercado financeiro e virou, em menos de um ano, o maior enredo político de Brasília. O ponto de partida é o Banco Master, uma instituição de médio porte que cresceu de forma vertiginosa entre 2019 e 2024 vendendo CDBs com juros muito acima da média — chegando a 130% do CDI — para investidores atraídos pela proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O patrimônio do banco saltou de cerca de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões nesse período. Segundo a investigação da Polícia Federal, porém, boa parte do lastro dessas operações era formada por carteiras de crédito superavaliadas ou simplesmente inexistentes — tese que a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono da instituição, nega.

A virada aconteceu em 2025. O BRB, banco público controlado pelo Governo do Distrito Federal, tentou comprar o Master, e a operação chegou a ser aprovada pelo Cade e pela Câmara Legislativa do DF. Em 3 de setembro daquele ano, o Banco Central vetou o negócio. Sem o socorro, o Master ficou sem saída: em 18 de novembro de 2025, o BC decretou a liquidação extrajudicial da instituição, um dia depois de Vorcaro ser preso pela PF no aeroporto de Guarulhos. O rombo deixado no FGC é o maior da história do fundo — cerca de R$ 52 bilhões, considerando também o Will Bank e o Banco Pleno, ligados ao mesmo grupo. Desde então, a chamada Operação Compliance Zero já teve pelo menos nove fases, prendeu o pai, o primo e o cunhado de Vorcaro, um ex-diretor de fiscalização do Banco Central e o ex-presidente do BRB, e bloqueou bens que somam mais de R$ 27 bilhões. Todos negam irregularidades, e ninguém foi condenado.

O caso deixou de ser financeiro quando começou a alcançar o mundo político. Ao longo de 2026, operações da PF atingiram nomes de diferentes partidos — entre eles os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Jaques Wagner (PT-BA), além do ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) —, sempre na condição de investigados, sem denúncia formal ou condenação. Todos apresentaram versões próprias: Ciro Nogueira pediu publicamente que tudo seja apurado; Flávio Bolsonaro sustenta que o dinheiro repassado por Vorcaro a um filme sobre seu pai foi patrocínio privado e que nada foi transferido diretamente a ele; Cláudio Castro nega irregularidades. Nenhuma CPI ou CPMI específica sobre o Banco Master chegou a ser instalada no Congresso — quatro pedidos seguem parados nas mesas da Câmara e do Senado.

O capítulo mais recente, e o mais delicado, envolve o próprio Supremo Tribunal Federal. Em 1º de setembro, o ministro André Mendonça, relator do caso desde que Dias Toffoli se declarou impedido, retirou o sigilo de um relatório da PF de 218 páginas extraído do celular apreendido com Vorcaro. A maior parte do documento trata da relação do banqueiro com o ministro Alexandre de Moraes, incluindo um contrato de R$ 131 milhões firmado pelo Master com o escritório de advocacia da mulher do ministro. Moraes nega irregularidade: seu entorno afirma que o escritório consultou previamente sobre impedimentos e que o ministro jamais julgou qualquer causa envolvendo o banco. É importante registrar que a própria PF classifica o relatório como não conclusivo, e que a Procuradoria-Geral da República pediu a anulação do documento e da decisão de Mendonça, sob o argumento de que investigar um ministro do STF exige autorização do plenário, e não de um relator isolado.

De lá para cá, o embate escalou. No dia 2 de setembro, veio a público um encontro de cerca de duas horas entre o próprio Mendonça e Vorcaro, ocorrido em março de 2025 — o ministro confirmou a reunião, disse que ela aconteceu uma única vez, que se limitou a ouvir o banqueiro e que decidiu contra os interesses dele. No dia 3, Moraes apontou "fortes indícios" de crimes cometidos por Mendonça e enviou a documentação ao presidente do STF, Edson Fachin, sustentando que houve usurpação de atribuição investigativa e direcionamento político da apuração. Fachin adiou a discussão para a segunda metade de setembro e abriu prazo de cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, a PGR e a direção da PF se manifestem.

O que fica, hoje, é um caso ainda em aberto e em plena disputa. Está confirmado que o banco quebrou, que o rombo é bilionário, que há uma dezena de pessoas presas e que o STF vive uma crise sem precedentes entre dois de seus integrantes. O que segue sob investigação — e sem qualquer decisão judicial definitiva — é praticamente todo o resto: se houve corrupção de servidores públicos, se parlamentares receberam vantagens indevidas e se algum ministro do Supremo agiu em favor do banco. Vale lembrar ainda o contexto: o Brasil está a pouco mais de um mês das eleições gerais, e boa parte do material que circulou nas últimas semanas chegou à imprensa por vazamentos, o que tem levado diferentes atores a questionar tanto o conteúdo quanto o momento das revelações.

0 Comentário(s)

Faça login para comentar.