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Diário de Notícias

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Irã troca mensagens, mas rejeita negociação por fim da guerra com EUA e Israel, diz embaixador

O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, disse nesta terça-feira, 31, que seu governo troca mensagens, por meio de intermediários, com os Estados Unidos e Israel, mas deve se limitar a isso. Ele indicou que Teerã não quer se engajar agora em negociações para dar fim à guerra no Oriente Médio.

Segundo o embaixador, os Estados Unidos "usaram a ferramenta de diálogo como enganação". O diplomata disse que Teerã não quer entrar em novo ciclo de "guerra/cessar-fogo/ negociação", em que essas três fases se repetem indefinidamente. Ele também reclamou que, por duas vezes, os países rivais bombardearam a mesa de negociação.

O Irã tem protestado por ter sido atacado, em 28 de fevereiro, enquanto participava de tratativas diplomáticas e políticas sobre seu programa nuclear e o programa de mísseis balísticos.

Segundo o principal diplomata do regime islâmico no Brasil, as autoridades civis e militares iranianas entendem que possuem apoio público e que o povo iraniano rejeita a abertura de negociações.

Abdollah Nekounam Ghadiri não citou evidências, como pesquisas de opinião, mas afirmou que o assassinato de lideranças do Irã, como o aiatolá Ali Khamenei, então líder supremo, levaram à cobrança popular por respostas e punição.

"Recebemos algumas sugestões dos nossos amigos paquistaneses em prol do diálogo, e as nossas respostas para os outros lados e outras partes foram passadas por meio dos nossos amigos paquistaneses", disse o embaixador. "Essa troca de mensagens vai continuar, mas a opinião publica do Irã é contra a negociação com a outra parte. Eles pedem que as autoridades governamentais e militares não entrem nessas negociações."

O embaixador não quis responder se descartava a participação iraniana em uma proposta de conversa no Paquistão. Ele também não explicitou quais são as demandas do Irã, mas admitiu que o governo paquistanês tem feito a ponte com os EUA e facilitado o diálogo. Por meio de Islamabad, o Irã recebeu uma proposta de 15 pontos para chegar a um cessar-fogo, com exigências americanas. O documento foi rejeitado publicamente pelo regime iraniano, que impôs cinco condições.

"Diferentemente das ilusões do presidente dos EUA de que ele negocia com algumas pessoas nenhuma autoridade americana conversou com autoridade iraniana. Algumas mensagens foram enviadas e respondemos", afirmou Ghadiri, segundo quem não se discute a participação agora.

O governo do Irã vem sendo pressionado a se engajar em negociações diplomáticas, mediadas por Turquia e Paquistão. O governo paquistanês se disse pronto para sediar uma primeira rodada de conversas. Delegações de chanceleres da Arábia Saudita, do Egito e da Turquia se reuniram na capital paquistanesa. O chanceler do Irã, Abbas Araghchi, conversou por telefone com o chanceler turco, Hakan Fidan.

Bloqueio de Ormuz

A principal demanda americana e esforço diplomático de Washington, no momento, é pela liberação total do tráfego no Estreito de Ormuz, a fim de normalizar cadeias de suprimento energético, sobretudo a disparada no preço do barril de petróleo.

O presidente Donald Trump pressiona aliados, sem sucesso, a se mobilizarem militarmente para escoltar navios e liberar a navegação. Ele se irritou com o Reino Unido e a França, entre outros.

O embaixador negou que o estreito de Ormuz esteja completamente bloqueado, mas defendeu que o Irã exerça uma "gestão estratégica" e reconheceu que o regime permite somente a passagem de navios sob bandeira de nações amigas.

Ele rejeitou qualquer possibilidade de conceder a passagem de embarcações destinadas aos EUA ou a Israel. O diplomata afirmou que, diferentemente de países que se fragilizaram com as restrições de entrada e saída em Ormuz, o Irã pode "resistir por um período mais longo".

"O estreito de Ormuz não está fechado, está sob nossa gestão estratégica. Todos permitiram a passagem de forma gratuita por anos. Precisa-se de um novo formato administrativo pra o estreito. Ele permanece aberto para nações amigas, tanto que no atual período de guerra as nações amigas conseguem passar os seus navios. Não vamos permitir quaisquer navios ou cargueiros que tem como destinatários os EUA e o regime sionista. Serão bloqueados. Isso mostra a gestão inteligente de nossa parte nesse estreito tão estratégico", afirmou o embaixador.

Os Estados Unidos têm dito que os próximos dias serão decisivos. O embaixador afirmou que a "autodefesa legítima" iraniana não tem limites e que responderá a cada ato americano ou israelense. Ele citou a possibilidade de uma invasão terrestre, e afirmou que os militares estão "prontos e esperando".

Fertilizantes

O embaixador disse que o Irã permanece com capacidade de fornecer ureia ao Brasil, desde que conversou com o principal exportador do fertilizante para empresas do agronegócio nacional.

O diplomata ressaltou que os compradores brasileiros devem fazer negócios diretamente com os transportadores iranianos. O preço da ureia já acumula alta de 70% em 2026.

O Irã teve uma participação limitada, de 0,4%, no total importado pelo Brasil, no ano passado, em fertilizantes químicos e adubos. O País é dependente da Rússia (26%), da China (18%) e do Canadá (10%).

Mas os fertilizantes são relevantes na pauta bilateral, respondendo por 79% de tudo que o Brasil importa do Irã. Segundo ele, cerca da metade da ureia usada no País vem do Irã.

O aumento nos preços, o veto a exportações por parte da Rússia, aliados à dependência brasileira de importações para suprir 85% da demanda interna, preocupam o governo brasileiro.

Conforme o diplomata, o Irã foi consegue manter a exportação por meio de navios cargueiros próprios. Segundo ele, algumas cargas já foram despachadas ao País.

"Até o presente momento e no cenário atual os produtos adquiridos para o Brasil não terão nenhum problema de serem exportados", assegurou.

Ele disse que, no futuro, após a guerra, as empresas brasileiras terão menos problemas para comprar a ureia de origem iraniana e realizar transações bancárias sem restrições de pagamentos, porque seu governo vai exigir o fim das sanções.

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