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Diário de Notícias

DN.

Membro do Conselho do BCE vê pressão sobre o Fed como risco de alta da inflação global

O presidente do Bundesbank e membro do Conselho do Banco Central Europeu (BCE), Joachim Nagel, alertou que a crescente pressão política sobre bancos centrais, especialmente sobre o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), pode elevar a inflação global. Segundo ele, os dirigentes europeus estão observando os desdobramentos sobre o BC dos Estados Unidos e que, caso a pressão política tenha sucesso, poderá servir de modelo para outros países.

De acordo com Nagel, "quanto mais independente for um banco central, menor será a inflação", destacando que a independência é condição essencial para a estabilidade de preços. Ele afirmou ainda que o aumento da competição geopolítica entre países pode intensificar a pressão para que autoridades monetárias priorizem objetivos fiscais em detrimento do combate à inflação. Se isso ocorrer, advertiu, "os níveis de inflação poderão aumentar em todo o mundo".

Nagel ressaltou que, embora a independência do Eurosistema esteja consagrada no direito primário da União Europeia, é necessário cautela. "Permaneceremos sempre vigilantes em relação à nossa própria independência", disse.

Ao tratar do ambiente macroeconômico, o dirigente afirmou que choques geopolíticos adversos elevam a volatilidade da inflação, como ocorreu após a invasão da Ucrânia pela Rússia, quando houve disparada dos preços de energia e interrupções nas cadeias de suprimento, resultando na maior onda inflacionária desde os anos 1970.

Ele observou que o BCE revisou sua estratégia para lidar com dinâmicas mais voláteis, prevendo medidas "contundentes ou persistentes" diante de desvios relevantes da meta. Nagel acrescentou que vê como "crucial continuarmos a reduzir o tamanho de nosso balanço patrimonial", a fim de ampliar a margem de manobra para agir em cenários inesperados.

Predominância de stablecoins em dólar ameaça soberania do euro

O presidente do Bundesbank alertou que a predominância de stablecoins denominadas em dólar representa um potencial risco para a área do euro. Segundo ele, atualmente as stablecoins atreladas à moeda europeia "não chegam sequer a 1%", enquanto a grande maioria é denominada na divisa norte-americana.

Na avaliação de Nagel, se essa composição de mercado persistir, uma eventual substituição de moedas domésticas por stablecoins seria, na prática, equivalente a um processo de dolarização da economia. Nesse cenário, a eficácia da política monetária nacional poderia ser "severamente prejudicada", além de haver risco de enfraquecimento da soberania europeia.

O dirigente reconheceu que as stablecoins têm crescido de forma relevante e já somam mais de US$ 300 bilhões em valor de mercado. Ele também apontou vantagens, como a possibilidade de transações programáveis e maior eficiência em pagamentos transfronteiriços.

Ainda assim, Nagel defendeu que a área do euro se antecipe a possíveis riscos. Entre as medidas em avaliação está a introdução de uma moeda digital de banco central (CBDC, em inglês) no atacado, que permitiria a realização de transações programáveis em dinheiro do banco central. O Eurosistema também estuda apoiar instrumentos baseados em tecnologia de registro distribuído (DLT), como depósitos tokenizados e stablecoins denominadas em euros, como forma de preservar a eficácia da política monetária em um ambiente geopolítico mais incerto.

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