Carlos Adão, aposentado conhecido por pintar seu nome em diversas ruas da grande São Paulo nas últimas décadas, morreu aos 73 anos de idade neste sábado, 8. Apesar de rechaçar a alcunha de pichador ou grafiteiro, ficou marcado pelas artes feitas em paredes e muros visíveis ao público, muitas vezes sem autorização.
A informação foi confirmada pelo vereador Carlinhos do Leme (MDB), presidente da Câmara de Taboão da Serra, cidade onde o artista viveu seus últimos anos.
Em nota, destacou que Carlos Adão foi "uma figura que marcou a história da cidade" e teve o nome "espalhado por muros, ruas, estradas e tantos outros lugares, tornando-se uma marca que atravessou gerações e muita gente reconhecia imediatamente por onde passava."
Carlos Alberto Adão nasceu em 18 de outubro de 1954 no bairro do Butantã, em São Paulo. Teria começado com o hábito de pintar seu nome por volta de 1992 - por vezes, acompanhado de complementos como "Carlos Adão é amor" ou "Carlos Adão é penetrante".
"Na verdade, o Carlos Adão que escrevo não sou eu, mas uma marca. Quando digo que Carlos Adão é filosofia, não estou falando de mim mesmo. Falo da marca. E as pessoas tendem a associar várias outras coisas boas a essa marca. Isso é arte pura, é revolução", defendia, em entrevista ao Estadão, em outubro de 2010.
Em 2006, conheceu o grafiteiro Mundano, e outros artistas de rua, que mudaram sua percepção. "Eles gostavam do meu trabalho, me procuraram e me incentivaram a fazer desenhos também, além das frases", relatava.
Carlos Adão alegava ter feito mais de 100 mil intervenções com seu nome em centenas de cidades brasileiras. "Eu sou igual a matador de aluguel, que conta os assassinatos fazendo marquinha no cabo da arma. Não perco a conta de jeito nenhum", brincava em conversa com o Estadão, em dezembro.
Sua favorita era uma na travessa de pedestres entre a avenida Nove de Julho e a rua Pamplona, no bairro do Jardins. "É uma cena muito urbana, que é a cara da cidade. É uma sintonia de vida diferente, que só tem aqui", dizia.
Sua primeira exposição, "Carlos Adão É Arte" ocorreu entre outubro e novembro de 2010, no espaço Kabul, na Consolação, do qual Mundano era curador.
Ele defendia que o aposentado tinha como grande trunfo a curiosidade das pessoas, pois "sempre escolheu locais mais visíveis, nas esquinas, na altura dos olhos de quem passa."
Em entrevista à Folha de S.Paulo à época, Mundano opinava: "Apesar de tomar o espaço urbano de forma ilegal e buscar 'ibope', ambas características relacionadas à pichação e ao grafite, a intervenção dele não se enquadra em nenhuma delas."
Carlos Adão explicava a intenção de sua arte: "Quis criar uma televisão primitiva. Pensei no sujeito dentro do ônibus indo trabalhar e vendo meu nome em cada quarteirão, formando uma sequência."
Grafiteiro ou pichador?
Em entrevista a Danilo Gentili no The Noite, em 2015, o artista respondeu à pergunta: "Você é grafiteiro ou pichador?": "Eu fico 'no meio'. O pichador e o grafiteiro têm uma batida diferente da minha. Ficam presos, no instante, ali. Eu não, eu faço o preto, e depois faço o verde. Duas batidas no mesmo lugar, não posso errar."
Carlos Adão apareceu também em diversas outras produções audiovisuais, como o programa A Liga, da Band, em reportagem de 2014, e no documentário Os 3 Atos de Carlos Adão (2018), de Diego Navarro e Francisco Franco.
Artista tentou entrar para a política
O artista chegou a disputar cargos em algumas eleições. Em 2006, por exemplo, candidatou-se a deputado federal pelo PT do B. Com o número 7010, chegou a pichar em pontos da cidade "Carlos Adão: A seleção de 70 foi 10". Concorreu pela última vez no pleito de 2022.
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