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Persépolis: sobre o que fala e onde assistir a animação iraniana com pegada feminista

Tudo começou com uma graphic novel sobre uma menina rebelde desde a sua infância no Irã. Ela acompanhou a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi e a ascensão do regime islâmico em 1979 até se exilar na Europa. Contesta, especialmente, as regras do regime que recaem sobre as mulheres. Essa é a história da HQ Persépolis, publicada na França em 2000.

Os quadrinhos venderam centenas de milhares de exemplares e evoluíram para uma animação com o mesmo nome, lançada em 2007 e indicada ao Oscar. Ambas são obras de Marjane Sartrapi, escritora, quadrinista e cineasta franco-iraniana. Ela faleceu nesta quinta-feira, 4, de "tristeza" após a morte de seu marido.

A HQ foi eleita um dos melhores livros do século 21 pelo New York Times. No Brasil, a editora Companhia das Letras publicou a graphic novel, que define como uma obra "que revolucionou a percepção dos quadrinhos autobiográficos e se tornou um clássico contemporâneo".

A animação não fica atrás: é considerada uma das mais influentes dos anos 2000, Porém, Persépolis perdeu o Oscar de 2008 para Ratatouille, da Pixar. Apesar da derrota, Satrapi conseguiu um feito: foi a primeira mulher indicada como diretora por um filme de animação.

A animação não ganhou em Hollywood, mas venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes, na França, no mesmo ano. A premiação ganhou um significado político após o governo iraniano protestar formalmente contra a sua escolha, já que Marjane faz duras críticas ao regime de seu país. Porém, a organização do festival defendeu a obra.

A história da HQ e da animação conta a trajetória de sua criadora. Membro de uma família liberal, que incluiu alguns militantes políticos mortos na prisão na época do Xá, Marjane foi mandada aos 14 anos para estudar na Áustria. Quando voltou ao seu país, teve de encarar a repressão fundamentalista até que decidiu morar definitivamente na França a partir de 1994.

O visual do filme, em preto e branco, com traços simples e expressivos da graphic novel, é adequado ao tom confessional usado pela narradora para contar sua vida, que se mistura com a história recente de seu país, escreveu Neusa Barbosa, no Estadão. Este recurso cria uma cumplicidade com o público, já que a protagonista revela suas emoções íntimas em cada situação enfrentada.

Sem que essa seja sua intenção principal, o filme tem uma pegada feminista. Ao contestar afirmações de professores conservadores ou tentar fugir ao rígido figurino da Revolução, que impôs a obrigatoriedade do xador (grande manto que cobre o corpo da cabeça aos pés, geralmente sem mangas e sem fechamento frontal), Marjane torna-se alvo dos fiscais da ortodoxia xiita. Eles têm poderes para mandar adolescentes à delegacia por esse tipo de comportamento.

Mesmo lidando com temas densos, o filme consegue ser divertido em vários momentos. Sartrapi explicou que queria mostrar uma visão mais ampla sobre o Irã. Ao usar o nome da antiga capital do Império Persa (Persépolis) no título de sua obra, remete a uma civilização milenar, sofisticada e diversa, que contrasta com a visão reduzida do país, geralmente associada apenas à Revolução Islâmica ou ao fundamentalismo religioso.

Onde assistir

No Brasil, Persépolis não está disponível atualmente nos principais serviços de assinatura, como Netflix e Amazon Prime Video. A única opção é pelo serviço de streaming Mubi, conforme listado pelo site JustWatch.

Em alguns países, o filme aparece disponível em serviços vinculados à Amazon e Apple TV, mas as ofertas não estão liberadas para o catálogo brasileiro.

A animação frequentemente entra e sai dos catálogos de streaming por questões de licenciamento, o que explica sua disponibilidade limitada.

Obra atual

Muitos dos temas centrais da obra continuam presentes quase 50 anos após a Revolução Islâmica. Em 2022 Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, foi presa por supostamente usar o véu islâmico incorretamente. Ela morreu enquanto estava detida pela polícia, e seus familiares alegaram que ela sofreu um golpe na cabeça, algo negado à época pelas autoridades.

No ano seguinte, a ativista pelos direitos humanos Narges Mohammadi, não recebeu presencialmente em Oslo, na Noruega, o Prêmio Nobel da Paz que lhe foi outorgado por desafiar a teocracia do Irã, após ser condenada a 30 anos de prisão pelo regime. Ela segue presa com problemas de saúde.

No início deste ano, o país assistiu aos maiores protestos desde a morte de Amini em 2022 até que, no final de fevereiro, os Estados Unidos entrou em guerra contra o Irã e matou o líder Ali Kahmenei. O conflito entre as duas nações se estende até hoje.

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