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Diário de Notícias

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Por que Shakira faz tanto sucesso no Brasil? Empresários, artistas e fãs explicam fenômeno

Shakira tinha 19 anos quando subiu, pela primeira vez, em um palco no Brasil. Foi no dia 30 de novembro de 1996. Naquele sábado, ela se apresentou no Teatro Amazonas, em Manaus, para um público estimado de 684 pessoas. Era o primeiro show brasileiro da turnê Pies Descalzos ("Pés Descalços", no original), título de seu primeiro álbum internacional. Em um ano e oito meses, a cantora colombiana percorreu 18 países. Só no Brasil, fez 40 shows em 27 cidades: de Bagé (RS) a Salvador (BA), de Recife (PE) a Uberlândia (MG), de Barretos (SP) a Goiânia (GO).

Quase 30 anos depois daquela discreta apresentação em Manaus, Shakira já fez, segundo fontes extraoficiais, 48 shows no Brasil - não há um levantamento oficial no site da cantora. O show deste sábado, 22, dentro do projeto Todo Mundo no Rio, será o de número 49. A expectativa da prefeitura do Rio e da produtora Bonus Track é de que o megashow gratuito atraia um público de 2 milhões de espectadores. Em 2024, Madonna reuniu cerca de 1,6 milhão de pessoas nas areias da Praia de Copacabana e, um ano depois, Lady Gaga chegou à casa de 2,1 milhão de pessoas.

Um dos responsáveis pelo sucesso de Shakira no Brasil é o empresário Luiz Calainho. Em 1995, o então diretor de marketing da Sony Music ouviu falar de uma cantora colombiana que tinha vendido 60 mil álbuns em sua terra natal. Segundo ele, vender 60 mil cópias na Colômbia era o mesmo que vender um milhão de cópias no Brasil. Ou seja, uma proeza extraordinária. Na mesma hora, ele e o presidente da gravadora, Roberto Augusto, pegaram um avião para assistir a um showcase de Shakira. Voltaram encantados com o que viram e, principalmente, ouviram.

No dia seguinte, Calainho e sua equipe montaram uma estratégia de marketing, orçada em 3 milhões de dólares, para Shakira estourar no Brasil. A missão, recorda, não era fácil. Afinal, Shakira cantava em espanhol. Além da turnê, que incluía shows a preços populares em cidades de grande e médio porte, ela concedia entrevistas a jornais e revistas, autografava CDs em lojas e shoppings, e visitava programas de rádio e TV. Foi tantas vezes ao Domingo Legal, do SBT, que ficou amiga do apresentador Gugu Liberato. Dava tanto ibope que chegava a cantar cinco músicas do CD.

"Tive o privilégio de presentear a Shakira com alguns discos de ouro e platina. O nível de felicidade era tanto que, ao receber o disco quádruplo de platina pelas vendas de um milhão de cópias, ela chegou a chorar", recorda Calainho. "A Shakira é, sem dúvida, um símbolo do empoderamento feminino. É uma mulher segura de si, que sabe muito bem o que quer. A mensagem dela é bastante clara: é possível fazer acontecer. No início da carreira, ela já dizia isso. E não vale só para artistas e músicos. Vale para qualquer pessoa. Você só precisa saber o que quer e onde quer chegar".

Quem também assistiu de perto à ascensão de Shakira ao posto de diva latino-americana foi Marcello Mansur, o DJ Memê. Ao todo, ele remixou quatro músicas da cantora: Estoy Aquí, Un Poco de Amor e Pies Descalzos, Sueños Blancos, do álbum Pies Descalzos (1996), e Ojos Asi, do álbum Donde Están Los Ladrones? (1998). Seus remixes fizeram tanto sucesso que, certa vez, Shakira contou que, quando ela se apresentava em programas de rádio ou TV, os produtores preferiam tocar a versão do DJ Memê para Estoy Aquí à gravação original da música.

"Shakira gosta do Brasil e o Brasil gosta de Shakira. Tem artista que não está nem aí. A Dua Lipa, por exemplo. Comeu feijoada, bebeu caipirinha e ganhou 'CPF'. Na semana seguinte, fez tudo igual na Argentina. Fomos o primeiro país do mundo a fazer a Shakira se sentir uma estrela", analisa Memê. "Além disso, ela não é 100% latina. Seu pai é libanês. Sua educação musical é recheada de influências asiáticas e africanas. Quando dança Ojos Asi, nem a J-Lo consegue acompanhar. É craque até na dança do ventre enquanto as outras não passam de cópias da Celia Cruz".

'Shakira está no mesmo patamar de Mercedes Sosa'

Foi no camarim de um programa de auditório que Shakira esbarrou em Chico César. O encontro, relata o cantor paraibano, foi rápido. "Seja bem-vinda!", saudou ele. "Muito obrigada!", sorriu ela. Quando participou do Programa Livre, do SBT, em 1997, Shakira, a pedido de um dos garotos da plateia, soltou o vozeirão no refrão de Mama África. No show de abertura da turnê Las Mujeres Ya No Lloran ("As Mulheres Já Não Choram"), no Estádio Nilton Santos, o Engenhão, no Rio de Janeiro, no dia 11 de fevereiro de 2025, ela voltou a cantar a música de Chico César.

"Em 1997, quando ela cantarolou Mama África no programa do Serginho Groisman, parecia algo visionário. É como se ela estivesse se vendo lá na frente", observa. "Em 2025, ela voltou a cantar essa música em um show no Rio. Aquela garota de 30 anos atrás virou mulher, mãe, estrela. O jeito dela de cantar e dançar é diferente de tudo o que existe por aí - de Madonna a Mariah Carey. Manteve a conexão com suas matrizes árabes. Amo a música da Shakira. É muito pessoal. Não encontro sua marca em nenhuma outra. Shakira está no mesmo patamar de Mercedes Sosa".

Quando os filhos de Shakira eram pequenos, ela entoava Mama África para eles dormirem - hoje, Milan e Sasha têm 13 e 11 anos, respectivamente. Os dois são filhos da cantora com Gerard Piqué. O casal se separou em 2022, depois de 11 anos de casamento. Ao que parece, o ex-jogador teria trocado Shakira, de 49 anos, por Clara Chía Martí, de 27. Na letra de Shakira: Bzrp Music Sessions, Vol. 53 (2023), ela canta a separação: "Uma loba como eu não é para novatos", "Me tornei grande demais para você" e "Você trocou uma Ferrari por uma Twingo", dizem alguns versos da canção.

'A maior artista latina de todos os tempos'

A exemplo de Calainho e DJ Memê, Shakira trabalhou com outros brasileiros: o guitarrista gaúcho Grecco Buratto, que tocou na turnê The Sun Comes Out World Tour (2010-2011), e o estilista catarinense Dario Mittmann, que desenhou figurinos para Las Mujeres Ya No Lloran (2025-2026). Por ocasião da turnê The Sun Comes Out World Tour, Shakira tocou quatro vezes no Brasil: Porto Alegre (15/3/2011), São Paulo (19/3), Brasília (24/3) e Rio (30/9). Desses, Buratto elege o show do Rock in Rio IV como o seu preferido. Shakira foi um dos headliners do festival.

"Foi um momento marcante. Tanto em realização pessoal quanto em reconhecimento profissional. Primeiro, tocar no Rock in Rio era um sonho de moleque. Quando assisti ao festival pela TV, sonhava que, um dia, estaria ali. Segundo, não me esqueço, até hoje, do momento em que Shakira chamou Ivete Sangalo ao palco e, juntas, cantaram País Tropical. Era um mar de gente pulando e cantando", relata Buratto que, ao longo da carreira, tocou com nomes como Gwen Stefani, Enrique Iglesias e Roberto Carlos. Desde 2024, ele faz parte da banda de Lionel Richie.

Algo parecido aconteceu com Dario Mittmann. Em 2024, ele foi escolhido, entre outros profissionais latinos, para desenvolver uma campanha publicitária para Shakira. A cantora gostou tanto do resultado que convidou o estilista para desenhar alguns figurinos para a turnê Las Mujeres Ya No Lloran. O trabalho dele pode ser conferido na parte final do show, quando o palco se transforma, nas palavras dele, numa "rave licantropa". Ao fazer o convite, Shakira fez também algumas recomendações: o figurino tinha que ter força, presença e feminilidade.

"Shakira é, sem dúvida, a maior artista latina de todos os tempos. Isso se reflete na forma como o trabalho dela atravessa gerações", elogia o estilista que já trabalhou também com Anitta, Luísa Sonza e Ludmilla. "Existe uma identificação natural com a energia dela - Shakira é ritmo, é corpo, é intensidade. Mas, o que sustenta esse sucesso todo é a mensagem. Hoje, a mensagem mais forte é sobre potência feminina. Shakira representa uma mulher que se reinventa, que assume o protagonismo e transforma vulnerabilidade em força", enaltece o estilista.

Matilha de fãs

No Brasil, Shakira não tem fã-clube; tem alcateia. É assim que os admiradores se autointitulam. O título faz referência a um dos seus apelidos mais famosos: o de Loba, uma alusão à música She Wolf (2009). E a matilha, a julgar pelo Censo 2022, não para de crescer. Há, no Brasil, 393 pessoas que se chamam Shakira. A maioria na casa dos 20 anos. "Ela marcou tanto a minha geração que centenas de pessoas escolheram o nome dela para batizar seus filhos", afirma Levi Tavares, um dos administradores do Shakira Brasil. Só no Instagram, o fã-clube tem 1,2 milhão de seguidores.

Fã da cantora desde os sete anos, quando ouviu uma fita cassete de Pies Descalzos (1995), Levi admite que, entre outros hobbies, aprendeu a falar espanhol e a ler Gabriel García Márquez (se Shakira é de Barranquilla, Gabo é de Aracataca) por influência de sua ídola. Para ele, Shakira é uma artista completa: canta, dança, toca, compõe, produz... Não bastasse, ainda tem um projeto social, o Fundación Pies Descalzos, na Colômbia. Criado em 1997, a instituição já construiu 19 escolas, capacitou 12 mil professores e beneficiou 224 mil estudantes, entre crianças e adolescentes.

"A mensagem da Shakira é poderosa: nunca desistir dos seus sonhos. Não por acaso, aquela menina que escrevia poesias no caderno cresceu e virou uma das maiores artistas pop do planeta", garante Levi, que já assistiu a cinco shows da cantora no Brasil: três em São Paulo, um no Rio e outro em Porto Alegre. "Todo mundo conhece uma música da Shakira. Até quem não gosta muito dela. Além disso, sua voz é marcante. Todo mundo reconhece quando é a Shakira que está cantando. Brinco dizendo que sou Testemunha de Shakira. Tudo o que ela faz eu divulgo."

Se Levi tinha sete anos quando ouviu a fita cassete de Pies Descalzos pela primeira vez, Diogo Barros tinha 15 quando deu de cara com Shakira na abertura da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. "Aquele dia mudou a minha vida", resume o rapaz que, um ano depois, fundou o fã-clube Shakira Pies Descalzos Brasil. Quinze anos depois, o fã-clube contabiliza 129 mil membros no Instagram, 56 mil no X e 700 no WhatsApp. Em 2025, Diogo foi um dos selecionados para caminhar ao lado da cantora até a subida dela no palco do Estádio do MorumBIS, em São Paulo.

"Foi através da música dela que superei momentos difíceis e me senti motivado a seguir em frente. Ser fã dela vai muito além de gostar de suas músicas. Ela me inspira. Me ajuda a ser uma pessoa melhor. Tenho enorme gratidão por tudo o que ela representa na minha vida. O que ela tem a dizer para os fãs? Sigam em frente e lutem por seus sonhos", afirma Diogo que, além do show em São Paulo, assistiu a outras duas apresentações da cantora no Brasil e, em 2025, foi recepcioná-la no saguão de desembarque do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, no Rio de Janeiro.

Muito provavelmente, nenhum outro membro da alcateia assistiu a tanto show da Shakira quanto Mauricio de Souza. Pelas contas dele, são 15 apresentações, nove só da turnê Las Mujeres Ya No Lloran World Tour. No Rock in Rio IV, o fã-clube fundado por Maurício, o Portal Shakira, foi convidado para subir ao Palco Mundo e dançar Waka Waka (This Time for Africa) com a cantora. "Foi uma das maiores emoções da minha vida. E não estamos falando só de música. Estamos falando de pertencimento", afirma o rapaz.

Desde a sua fundação, o Portal Shakira já totaliza 1,5 milhão de seguidores no Facebook, 207 mil no X, 74 mil no TikTok e 5 mil no WhatsApp. "Ela é 100% autêntica. Tudo nela é verdadeiro: o talento, a entrega, a coragem. Se tem uma palavra que resume Shakira, essa palavra é: coragem. Coragem de ser quem você é. Coragem de acreditar nos seus sonhos. Shakira é a prova viva de que você pode ser muitas coisas ao mesmo tempo: mãe, artista, empresária... Isso, sem abrir mão de sua essência. Shakira não inspira fãs. Ela forma pessoas mais fortes".

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