Uma notícia que cruzou tecnologia, economia e política na semana passada e segue repercutindo forte: o governo federal lançou o programa Move Aplicativos, uma linha de crédito de até R$ 30 bilhões para que motoristas de Uber, 99, InDriver e outros apps — além de taxistas — financiem a compra de carros novos com condições especiais. É o maior pacote já destinado a essa categoria no país.
A medida foi assinada pelo presidente Lula em um evento em São Paulo e funciona assim: motoristas de aplicativo que tenham cadastro ativo há pelo menos 12 meses e tenham realizado no mínimo 100 corridas no período podem solicitar o financiamento por uma plataforma digital do governo. A própria empresa de aplicativo confirma os dados do motorista automaticamente. Taxistas com situação cadastral e fiscal regular também são elegíveis. O carro novo pode custar até R$ 150 mil e precisa ser de uma montadora habilitada no programa, com um detalhe importante: obrigatoriamente precisa ser um veículo sustentável — flex, híbrido flex, elétrico ou movido exclusivamente a etanol.
O que torna isso uma notícia de tecnologia, e não só de economia, é o modelo de funcionamento. Toda a operação será feita digitalmente: o motorista autoriza o compartilhamento de seus dados, a plataforma do aplicativo valida o histórico de corridas, e a análise de crédito acontece de forma automática. Nada de fila em banco, nada de pilha de documentos. É o governo usando a infraestrutura digital que os próprios apps já construíram para operar um programa público massivo.
Outro ponto curioso: o programa prevê condições diferenciadas para mulheres motoristas, com juros potencialmente mais baixos e prazos mais longos. E para ampliar o acesso ao crédito de uma categoria que historicamente tem dificuldade com bancos — afinal, a renda média desses profissionais gira em torno de R$ 2.500 por mês, segundo o IBGE — o governo incluiu motoristas de app e taxistas no FGI-PEAC, um fundo do BNDES que cobre até 80% do risco de crédito da operação. Na prática, é o governo dizendo aos bancos: "pode emprestar que a gente garante boa parte".
A expectativa é que pelo menos 200 mil carros novos sejam comercializados pelo programa. E há um efeito em cadeia: isso movimenta montadoras (que precisam habilitar veículos sustentáveis no programa), a indústria de autopeças, seguradoras e toda a rede que gira ao redor do mercado automotivo.
O contexto político também pesa. O programa foi lançado depois que o governo não conseguiu aprovar no Congresso a regulamentação dos trabalhadores de aplicativo — uma pauta delicada que envolve vínculo empregatício, direitos trabalhistas e a resistência das próprias plataformas. Sem conseguir regular a relação de trabalho, o governo optou por oferecer crédito e benefícios diretos a essa base de quase 1,9 milhão de motoristas, categoria que pesquisas apontam como mais próxima do bolsonarismo.
E tem mais: junto com o Move Aplicativos, o governo publicou outra medida provisória simplificando regras para mototaxistas e motoboys, eliminando exigências burocráticas como a obrigatoriedade de autorização dos órgãos de trânsito estaduais. Também foi anunciado que acidentes com motoristas de aplicativo passarão a ser classificados como acidentes de trabalho pelo SUS, o que abre caminho para que esses profissionais busquem direitos na Justiça.
Em resumo: quase 2 milhões de brasileiros que vivem dentro de um aplicativo no celular acabaram de ganhar o maior pacote de crédito já feito para uma categoria profissional no país. E o mais curioso é que toda a engrenagem funciona dentro da mesma tecnologia que já usam todos os dias para aceitar corridas.
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