Durante décadas, um dos maiores temores dos cientistas ambientais era o chamado "ponto de não retorno" da Amazônia: o momento em que a floresta, destruída demais pelo desmatamento, pelo fogo e pela seca, deixaria de se regenerar e se transformaria progressivamente numa savana — um ambiente seco, com gramíneas e arbustos no lugar das árvores imensas. Essa teoria, defendida por pesquisadores desde os anos 1990, acaba de ser derrubada por um estudo de longo prazo divulgado esta semana.
A pesquisa foi realizada em Querência, no Mato Grosso, uma das regiões mais devastadas da Amazônia nas últimas décadas, pressionada tanto pelo desmatamento quanto pela expansão agrícola. O estudo começou em 2004, com uma área de 150 hectares dividida em três blocos de 50 hectares cada. Dois desses blocos foram deliberadamente submetidos a queimadas — um a cada três anos, outro todo ano até 2010. O terceiro bloco não foi atingido pelo fogo. E então os pesquisadores simplesmente esperaram, observaram e registraram tudo ao longo de 22 anos.
O resultado surpreendeu até os próprios cientistas. Onde havia gramínea tomando conta do espaço aberto pelo fogo, a floresta voltou. As mesmas espécies florestais retomaram os espaços afetados. A cobertura de gramíneas, que chegou a dominar as bordas da área queimada, caiu para apenas 10% do total. O ambiente, nas palavras do pesquisador Leandro Maracahipes, da Universidade de Yale, voltou a parecer genuinamente florestal.
Mas há um porém importante — e ele é revelador. A floresta que voltou não é exatamente a mesma que existia antes. A perda de espécies nas áreas mais atingidas chegou a 46,2%. E as árvores que cresceram no lugar das originais têm casca fina e madeira menos densa, o que as torna muito mais vulneráveis a novos incêndios e a secas extremas. A floresta se recuperou, mas voltou mais frágil, como um organismo que sobreviveu a uma doença grave mas ainda não está totalmente curado.
O dado que dá ainda mais contexto à descoberta vem dos números recentes: o primeiro trimestre de 2026 fechou com queda de 17% no desmatamento da Amazônia em relação ao mesmo período do ano anterior — o equivalente a 7 mil campos de futebol a menos derrubados. A tendência de queda vem se mantendo desde agosto de 2025.
A conclusão do estudo é ao mesmo tempo animadora e um alerta: a Amazônia tem uma resiliência extraordinária e maior do que se imaginava. Mas essa resiliência tem limites — e quanto mais vezes a floresta for perturbada, mais vulnerável ela ficará na tentativa de se reconstruir.
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