Quando se fala em cultura no Brasil, a conversa costuma pender para o simbólico — o samba, o sertanejo, a literatura, o carnaval. Mas os dados apresentados neste ano pelo IBGE dão outra dimensão ao assunto: o setor cultural reúne cerca de 5,9 milhões de pessoas ocupadas, o equivalente a 5,8% de todos os trabalhadores do país, e adiciona R$ 387,9 bilhões à economia — algo próximo de 3% do PIB.
Os números vêm do Sistema de Informações e Indicadores Culturais, que cobre a série de 2013 a 2024 e foi apresentado durante a retomada dos Diálogos SNIIC, promovidos pelo Ministério da Cultura. Eles mostram um setor que se manteve estável ao longo da série, com um vale evidente em 2021, no auge da pandemia, quando a participação caiu para 5,5% — e que se recuperou nos anos seguintes.
Um setor que cresce mais rápido que a média
O recorte mais amplo, o da economia criativa, ajuda a entender a dinâmica. Considerando a indústria criativa — que vai da moda, do artesanato, do audiovisual e da música ao desenvolvimento de software, jogos digitais e serviços de tecnologia —, a produção foi estimada em R$ 393,3 bilhões, o equivalente a 3,59% do PIB brasileiro.
O desempenho no mercado de trabalho chama atenção: os segmentos criativos registraram crescimento de 4% nos postos de trabalho, o dobro dos 2% observados na economia em geral no mesmo período. A remuneração média mensal ficou em torno de R$ 4,5 mil, contra cerca de R$ 3 mil no conjunto do mercado de trabalho brasileiro.
Essa média, porém, esconde desigualdades importantes. Cerca de 37% dos trabalhadores do setor estão na informalidade. E o mapa é profundamente desigual: 51,5% dos trabalhadores culturais do país se concentram no Sudeste, região que responde por 44,6% da força de trabalho nacional. O Norte apresenta o maior déficit — tem 9% da população economicamente ativa, mas apenas 6% do emprego cultural. Ou seja, o acesso à economia criativa é geograficamente desigual justamente onde as políticas redistributivas mais fariam diferença.
Há ainda um fator novo no horizonte: estudos sobre a ocupação no setor apontam que ele reúne, no mesmo mercado, ocupações intelectuais de alta exposição à inteligência artificial — jornalistas, designers, publicitários — e ofícios artesanais como alfaiates, artesãos e marceneiros. É um setor simultaneamente vulnerável e resiliente às inovações tecnológicas, dependendo de qual ponta se observa.
O dinheiro chegou na ponta
A grande mudança estrutural dos últimos anos foi a criação de uma política de financiamento contínua. A Política Nacional Aldir Blanc, instituída pela Lei 14.399/2022, difere das ações emergenciais anteriores — a Lei Aldir Blanc original e a Lei Paulo Gustavo, ambas respostas à pandemia — por prever repasses regulares da União a estados, Distrito Federal e municípios, com recursos previstos até 2027.
Em março, o Ministério da Cultura concluiu os pagamentos do segundo ciclo da PNAB, somando mais de R$ 2,5 bilhões transferidos a estados e municípios. A execução conta com um Comitê Gestor instituído em janeiro do ano passado e com a plataforma CultBR, criada para que gestores culturais de todo o país submetam seus planos de aplicação de recursos com mais transparência.
O efeito prático aparece em cidades que historicamente ficavam fora do mapa do fomento federal. Municípios pequenos vêm publicando editais próprios: chamamentos públicos para selecionar projetos locais, prêmios de reconhecimento a Pontos de Cultura, fomento a ações continuadas em áreas como artes visuais, artesanato, circo, cultura popular, dança, literatura, música, teatro e tradições e folclore. A lógica é que a diretriz seja nacional, mas a escolha dos projetos aconteça na ponta, por quem conhece a demanda da comunidade artística local.
Dois programas estruturantes complementam o desenho. O Infracultura, criado no âmbito da PNAB, é voltado à recuperação e modernização de equipamentos já existentes — teatros, museus, bibliotecas, centros culturais e espaços multiuso —, com foco em reabrir espaços fechados e resolver questões de segurança e acessibilidade. Já o Territórios da Cultura mira a criação de novos equipamentos em áreas periféricas.
O patrimônio que não se toca
Paralelamente ao fomento, há o eixo da preservação — e agosto tem uma data simbólica nessa história. Foi em 4 de agosto de 2000 que o Decreto nº 3.551 instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, criando o instrumento que reconhece como Patrimônio Cultural Brasileiro não apenas monumentos, mas práticas, saberes e celebrações.
O registro organiza os bens em quatro Livros — celebrações, lugares, formas de expressão e saberes — e produziu alguns dos reconhecimentos mais conhecidos do país. O Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, em Vitória, foi o primeiro inscrito no Livro dos Saberes, em 2002. O Ofício das Baianas de Acarajé veio em 2005, com o reconhecimento não só da receita, mas de todo o processo, do feijão moído no pilão de pedra à fritura no dendê e ao ritual de servir. O Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas seguiu o mesmo caminho. Em 2010, o país ganhou ainda o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, voltado a línguas que carregam a memória de diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
A agenda dos próximos meses
O calendário cultural do segundo semestre já está em curso. A Flip realizou em julho sua 24ª edição, com curadoria de Rita Palmeira e a poeta paulista Orides Fontela (1940-1998) como autora homenageada, reunindo 21 mesas literárias e nomes como Zadie Smith e Eva Baltasar.
Agora, agosto concentra dois eventos de peso: o Festival de Cinema de Gramado, de 12 a 22, em sua 54ª edição, e o Festival de Inverno de Bonito, de 26 a 30, com entrada gratuita em todas as atividades e programação que une música, artes visuais, dança, teatro, artesanato e cinema. Em setembro, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo ocupa o calendário de 4 a 13.
O que está em jogo
O setor chega ao fim de 2026 com uma equação em aberto. De um lado, tem pela primeira vez uma política de financiamento permanente, com recursos garantidos por lei até 2027, e dados oficiais que finalmente permitem medir seu peso econômico. De outro, convive com informalidade alta, concentração regional acentuada e uma transformação tecnológica que atinge de forma desigual as ocupações que o compõem.
Como acontece a cada ciclo eleitoral, a continuidade das políticas culturais volta a depender do resultado das urnas em outubro. A diferença, desta vez, é que o setor tem números para mostrar o que está defendendo.
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