O médico e escritor Drauzio Varella esbanjou carisma na manhã desta sexta-feira, 24, na mesa que dividiu com a alemã Carmen Stephan na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty. Ele e a escritora têm em comum obras que descrevem experiências de quase morte com doenças tropicais - ele com febre amarela e ela com malária, ambas contraídas no início dos anos 2000 em viagens pela Amazônia brasileira.
Com mediação de Laura Capelhuchnik, a conversa teve início com os escritores contando como nasceram seus livros. Carmen, autora de Malária (Tinta da China Brasil) teve o ímpeto de escrever seu livro após ler, no jornal, uma reportagem sobre O Médico Doente, obra de Drauzio publicada pela Companhia das Letras em 2007 - história que ela também contou em detalhes em entrevista ao Estadão antes da Flip.
O livro da alemã radicada no Brasil é narrado pela mosquito anófeles que lhe transmitiu a malária. Na conversa, Drauzio elogiou a criatividade de Carmen e brincou que seu livro seria "muito melhor" se tivesse tido a mesma ideia. Para ela, porém, a narradora-mosquita foi a única forma que encontrou de acessar suas memórias dos dias em que passou internada.
Drauzio disse que também teve dúvidas sobre a escrita de O Médico Doente, pois achava que a história seria muita "autopiedade" e não geraria interesse em leitores. No fim, inspirado por Oliver Sacks, decidiu escrever o livro. "A vontade de escrever a história foi mais forte", disse.
Questionado sobre a vacinação no Brasil, em especial relacionado à febre amarela, o médico explicou que a doença foi erradicada das grandes cidades, mas que casos como o dele (de pessoas que viajam e retornam já contaminados) ainda são comuns. "A vida é um eterno processo de seleção natural", disse Drauzio, reforçando que mesmo um animal tão pequeno como o mosquito ainda pode ser mais poderoso que o homem.
"A vida não tem sentido. A natureza é impiedosa", disse também. Na época, tinha certeza de que morreria, de que era o fim "de sua festa" na Terra, como descreveu ao contar a história de um amigo. O mesmo ocorreu com Carmen durante sua experiência com a malária. As experiências de quase morte os reuniram na mesa que simbolizou a união de duas histórias que pareciam destinadas a se unirem desde o princípio.
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026
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