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Diário de Notícias

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Brasil avança em tecnologia hipersoníca — motor que passa de 5 vezes a velocidade do som

O Brasil avançou em uma das áreas mais complexas da engenharia aeroespacial com novas etapas do programa de propulsão hipersoníca 14-X, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Avançados (IEAv), organização vinculada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Força Aérea Brasileira. O projeto busca dominar tecnologias para veículos capazes de voar acima de Mach 5 — mais de cinco vezes a velocidade do som — utilizando um sistema de propulsão conhecido como scramjet.


O avanço mais recente ocorreu com a revisão preliminar do projeto do R.A.T.O. 14-X, realizada nos dias 2 e 3 de junho de 2026. O veículo, cujo nome deriva da expressão inglesa Rocket Assisted Take-Off, será responsável por acelerar futuros demonstradores do programa até as condições necessárias para os ensaios em voo. A etapa envolveu o IEAv e a empresa brasileira Mac Jee, parceira no desenvolvimento do equipamento.


A tecnologia hipersoníca é definida pela capacidade de atingir velocidades iguais ou superiores a Mach 5. No programa brasileiro, algumas etapas experimentais estão projetadas para operar entre Mach 6 e Mach 7, a altitudes de aproximadamente 30 a 40 quilômetros. Versões posteriores do demonstrador poderão buscar condições próximas de Mach 10 durante voos controlados na estratosfera.


O principal elemento tecnológico do 14-X é o motor scramjet, sigla em inglês para Supersonic Combustion Ramjet. Diferentemente de motores convencionais, o sistema utiliza o próprio ar atmosférico como fonte de oxigênio durante parte do voo. O ar entra no veículo em velocidade supersônica, é comprimido pela geometria da estrutura e participa da combustão com o hidrogênio usado como combustível.


Uma característica importante é que o scramjet não funciona a partir do repouso. Antes de ser ativado, o conjunto precisa ser levado a uma velocidade muito elevada por um foguete ou veículo acelerador. Por isso, o programa inclui equipamentos responsáveis por colocar os demonstradores nas condições adequadas de altitude e velocidade antes do início dos testes de propulsão aspirada.


O projeto PropHiper foi dividido em quatro grandes etapas. A primeira, chamada 14-X S, foi criada para demonstrar a combustão supersônica durante um voo balístico. A segunda, 14-X SP, deverá comprovar a produção efetiva de empuxo por meio da propulsão hipersoníca aspirada. As fases seguintes, 14-X W e 14-X WP, envolvem sistemas de orientação, navegação e controle, materiais avançados e, finalmente, um voo autônomo com o motor em operação.


O Brasil já realizou um ensaio importante em dezembro de 2021, durante a Operação Cruzeiro, no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Na ocasião, o demonstrador 14-X S foi levado por um veículo suborbital e alcançou velocidade próxima de Mach 6. O experimento permitiu avaliar o comportamento do sistema e as condições necessárias para a combustão supersônica em voo.


Apesar dos avanços, o programa ainda está em fase experimental. Isso significa que o país não possui, neste momento, uma aeronave hipersoníca operacional nem um motor pronto para uso comercial ou militar em larga escala. O objetivo é dominar progressivamente o conhecimento necessário para projetar, fabricar, lançar, controlar e testar sistemas dessa categoria com tecnologia nacional.


O IEAv conduz as pesquisas por meio da área de Aerotermodinâmica e Hipersoníca, com participação de profissionais e estruturas do DCTA e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Empresas nacionais também vêm sendo incorporadas ao programa, formando uma cadeia de desenvolvimento que reúne instituições militares, pesquisadores, universidades e a indústria aeroespacial.


Além das possíveis aplicações na área de defesa, a propulsão hipersoníca pode contribuir para o acesso ao espaço, o lançamento de cargas e satélites, a produção de materiais resistentes a temperaturas extremas e o desenvolvimento de sistemas avançados de navegação e controle. O conhecimento adquirido também pode gerar soluções para diferentes áreas da engenharia nacional.


Com a evolução do 14-X e a preparação de novos demonstradores, o Brasil tenta reduzir sua dependência tecnológica e ingressar no grupo restrito de países que pesquisam sistemas hipersonéticos. A próxima fase será decisiva para mostrar se os componentes desenvolvidos em laboratórios e ensaios preliminares poderão operar de maneira integrada, controlada e segura durante voos experimentais.

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