O Brasil entra no mês de abril sob um sinal de alerta climático importante. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima realizou, em 24 de março, sua segunda reunião técnica do ano para atualizar as projeções climáticas e avaliar os riscos de incêndios florestais nos biomas brasileiros em 2026. O encontro virtual reuniu mais de 80 técnicos e representantes de órgãos federais, estaduais e municipais, além da sociedade civil e de instituições de pesquisa, e o cenário que emergiu é de atenção redobrada para os próximos meses.
Os dados apresentados por especialistas do Inpe, Inmet, Cemaden, ANA e da Lasa/UFRJ apontam que algumas regiões do país já enfrentam seca severa especialmente nas faixas entre o Pará e o Mato Grosso, no Pantanal e na região do Matopiba. Para o período de abril a junho, a previsão é de chuvas acima da média apenas na Amazônia, enquanto as demais regiões do Brasil devem registrar precipitações abaixo do normal. Ou seja: o Brasil entra na estação seca em condição de fragilidade hídrica em boa parte do seu território.
O fator que mais preocupa os especialistas, porém, é o que pode vir no segundo semestre: a possível intensificação do fenômeno El Niño. De acordo com as projeções, o fenômeno deve se consolidar a partir de julho, prolongar a estação seca e intensificar o risco de fogo, especialmente entre outubro e novembro período historicamente mais crítico no Pantanal, no Cerrado e no leste da Amazônia. O El Niño eleva temperaturas, reduz a umidade e provoca irregularidade nas chuvas, criando condições ideais para a propagação de incêndios, sejam eles acidentais, criminosos ou impulsionados por práticas ilegais de desmatamento.
Diante desse cenário, o governo federal antecipou ações. Em fevereiro, a ministra Marina Silva assinou a Portaria GM/MMA nº 1.623/2026, que declarou emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis do país. Para o Pantanal, a emergência vale de abril a dezembro de 2026. Em Mato Grosso do Sul, além do bioma pantaneiro, a medida abrange as regiões Centro-Norte e Sudoeste de abril a novembro, e a região Leste do estado de março a novembro. A portaria facilita a mobilização antecipada de equipes, a contratação emergencial de brigadistas e o uso de aeronaves antes que os picos de seca se instalem.
A estrutura de resposta montada para 2026 é a maior da história recente. O governo mobilizou 246 brigadas florestais federais 131 do Ibama e 115 do ICMBio e aprovou a Estratégia Nacional de Brigadas Voluntárias, que amplia a participação da sociedade civil na prevenção e combate ao fogo. O Fundo Amazônia, por sua vez, já aprovou R$ 405 milhões para apoiar os Corpos de Bombeiros dos nove estados da Amazônia Legal, dos quais R$ 370 milhões já foram contratados.
Os resultados das políticas implantadas nos últimos anos são concretos. Em 2025, o Brasil registrou queda de 39% na área queimada em comparação à média dos oito anos anteriores, e uma redução de 35% nas áreas sob alerta de desmatamento na Amazônia entre agosto de 2025 e janeiro de 2026. A degradação florestal na Amazônia também recuou 93% no mesmo período, segundo o sistema Deter do Inpe. Entre 2022 e 2025, o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 32% no Cerrado.
Apesar dos avanços, a ciência é clara: a floresta amazônica está se tornando progressivamente mais vulnerável ao fogo por conta das mudanças climáticas. A floresta tropical, naturalmente resistente às chamas por causa de sua umidade, está sofrendo um estresse hídrico crescente. Incêndios que antes só ocorriam em áreas já desmatadas começam a atingir florestas primárias, o que representa um fenômeno preocupante e uma tendência global. Segundo dados do World Resources Institute, os incêndios florestais foram responsáveis por quase metade de toda a perda de florestas primárias no mundo em 2024. O Brasil está correndo contra o relógio e o governo sabe disso. A temporada crítica começa agora.
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