Uma data que a gastronomia brasileira vai guardar para sempre. Na última segunda-feira, durante uma cerimônia emocionante no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, o Guia Michelin 2026 fez um anúncio que ninguém na América Latina havia conseguido antes: o Brasil agora tem restaurantes com três estrelas — a cotação máxima da mais famosa premiação gastronômica do mundo.
Os eleitos foram o Tuju e o Evvai, ambos em São Paulo. Juntos, eles entram para um grupo de apenas 156 restaurantes no mundo inteiro que ostentam esse título.
O que há de tão especial em cada um?
O Tuju, dos chefs Ivan Ralston e Katherina Cordás, é uma experiência imersiva nos biomas brasileiros. O restaurante funciona em três andares repletos de jardins verticais, e os comensais percorrem os ambientes ao longo do jantar. Cada menu-degustação — que custa R$ 1.500 — é guiado pelas estações e pelo ciclo de chuvas, com ingredientes do estado de São Paulo em destaque. Ivan se formou nas cozinhas do espanhol Mugaritz e do japonês RyuGin antes de criar sua própria linguagem, profundamente enraizada no Brasil.
Já o Evvai, do chef Luiz Filipe Souza, constrói uma ponte entre Brasil e Itália. O menu-degustação Oriundi (R$ 1.250) parte da herança da imigração italiana e vai ganhando sotaque brasileiro ao longo do percurso — com pratos que surpreendem pelo uso de contrastes de temperatura e ingredientes como pupunha, lula e vieira. Uma curiosidade encantadora: cada etapa do menu vem acompanhada de ilustrações feitas pelo próprio chef, revelando as histórias por trás de cada criação.
Por que isso é tão histórico?
Durante décadas, o topo do Michelin foi dominado pela Europa, especialmente França, Espanha e Japão. A ausência de restaurantes latino-americanos nas três estrelas sempre foi vista como reflexo de um sistema com lentes europeias. Ao reconhecer os chefs Ivan Ralston e Luiz Filipe Souza, o guia parece, ainda que tardiamente, ajustar seu foco.
No palco, Katherina Cordás resumiu o sentimento do momento com precisão: "Esse reconhecimento mostra que o Brasil deve, e pode, chegar onde e como quiser."
O Guia Michelin foi criado em 1889 pelos irmãos Edouard e André Michelin — sim, os mesmos da fabricante de pneus. O projeto surgiu para informar motoristas onde abastecer, consertar o carro, comer e se hospedar. Era distribuído de graça. Só no início dos anos 1920 passou a ser vendido, e anos depois criou o sistema de inspetores anônimos que avaliam os restaurantes até hoje.
Ou seja: uma empresa de pneus criou o prêmio máximo da gastronomia mundial. E agora, pela primeira vez em 137 anos de história, dois restaurantes brasileiros chegaram ao topo.
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