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Diário de Notícias

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Brasil entra pela primeira vez na história no clube dos países com desenvolvimento humano "muito alto" e quem mais puxou isso foi a educação

Uma notícia que deveria estar em todas as conversas do país, mas que passou quase despercebida em meio ao noticiário político: o Brasil acaba de cruzar, pela primeira vez na história, a linha que separa os países com desenvolvimento humano "alto" dos países com desenvolvimento humano "muito alto".

O dado foi divulgado ontem (26) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) do Brasil chegou a 0,805 em 2024, superando a barreira dos 0,800 que define a categoria máxima. Para contextualizar: quando a ONU começou a medir esse índice no Brasil, há 30 anos, o país estava na faixa de IDHM baixo — abaixo de 0,555. Era outro mundo.

No ranking global, o avanço também impressiona. O Brasil subiu cinco posições, passando da 87ª para a 82ª colocação entre os 193 países avaliados. A expectativa de vida avançou para 77,4 anos em média nacional.

Mas o dado mais curioso — e que tem tudo a ver com mercado e consumo — é entender o que puxou essa subida. Não foi a renda. Não foi a saúde. Foi a educação. O indicador educacional saltou de 0,679 em 2012 para 0,798 em 2024 — o maior crescimento entre os três pilares do índice.

E aqui entra uma história que conecta política pública e economia de um jeito que raramente se vê tão claramente. A coordenadora do PNUD Brasil, Betina Barbosa, apontou diretamente para o programa Bolsa Família como um dos motores desse salto. Segundo ela, o programa retirou uma quantidade enorme de crianças do trabalho infantil e criou a obrigatoriedade de frequência escolar. Os efeitos começaram a aparecer cerca de dez anos depois da criação do programa, em 2003, quando a primeira geração de beneficiários completou ciclos satisfatórios de ensino fundamental e médio.

O resultado é que famílias negras e de baixa renda tiveram avanços significativos nos indicadores educacionais, reduzindo desigualdades que pareciam estruturais e imóveis. Regiões metropolitanas do Nordeste — como Natal, Recife e Salvador — passaram a registrar IDH classificado como "muito alto", algo impensável duas décadas atrás.

E por que isso importa para o mercado e o consumo? Porque educação é o indicador que mais se correlaciona com mudanças duradouras no padrão de consumo. Uma população mais escolarizada toma decisões de compra diferentes, acessa crédito de forma mais consciente, empreende mais, consome mais serviços e produtos de maior valor agregado. É o tipo de transformação que não aparece na prateleira do supermercado de um dia para o outro, mas que redefine o perfil do consumidor brasileiro nas próximas décadas.

Aliás, os dados mais recentes do varejo já captam alguns sinais dessa mudança. Segundo um estudo da McKinsey cruzado com dados da Scanntech, o consumidor brasileiro está mais criterioso: mesmo com mais renda disponível, o volume de unidades vendidas caiu 1,8% entre janeiro e outubro de 2025. As pessoas não estão comprando menos por falta de dinheiro — estão comprando de forma mais intencional, comparando preços, revisitando escolhas e buscando valor real.

Ao mesmo tempo, categorias ligadas a saúde e bem-estar explodiram: creatina cresceu 89% em volume, whey protein avançou 124%, iogurte proteico subiu 16%, e cervejas de baixa caloria cresceram 40%. O brasileiro está gastando, sim — mas gastando diferente.

É o retrato de um país que, silenciosamente, está mudando de patamar. Não da noite para o dia, não sem contradições enormes e desigualdades que ainda persistem — mas mudando. E agora, com o selo da ONU para comprovar.

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