A gastronomia brasileira vive seu momento mais glorioso. Na edição 2026 do Guia Michelin Rio de Janeiro & São Paulo, revelada em abril no Copacabana Palace, dois restaurantes paulistanos alcançaram algo que nenhum estabelecimento da América Latina jamais havia conseguido: a distinção máxima de três estrelas Michelin, que significa "cozinha excepcional, que vale uma viagem especial".
Os eleitos foram o Tuju, do chef Ivan Ralston, e o Evvai, do chef Luiz Filipe Souza — ambos em São Paulo.
O curioso é como os dois chegaram ao topo por caminhos completamente diferentes. O Tuju é quase uma experiência científica e arquitetônica. O prédio foi desenhado pelo arquiteto Angelo Bucci para guiar o cliente por diferentes "estações": a jornada começa num pátio interno sob uma frondosa jabuticabeira, passa por um bar e uma adega de dois andares com mais de mil rótulos, e termina num salão com cozinha aberta e iluminação teatral. O chef Ivan Ralston transforma ingredientes tipicamente brasileiros em experiências sensoriais completas, com menus degustação que mudam conforme a estação do ano.
Já o Evvai segue um caminho afetivo e cultural. O chef Luiz Filipe Souza criou o conceito "Oriundi", termo usado para descendentes de italianos fora da Itália. A cozinha usa a tradição italiana como ponto de partida, mas foge do óbvio ao misturar técnicas modernas com ingredientes brasileiros de forma lúdica. Um dos pratos mais emblemáticos é a "Bomba de Vieiras", um bomboloni (sonho italiano) salgado que combina lardo e tomate fermentado. No menu comemorativo de cinco anos, pratos como o "Bife Acebolado" reinterpretado como massa recheada em caldo brincam com a memória afetiva do comensal.
O impacto dessa conquista vai muito além de dois restaurantes. No mundo inteiro, menos de 160 estabelecimentos carregam o selo máximo de três estrelas — um grupo seleto que inclui lendas como os restaurantes de Paul Bocuse, Alain Ducasse e Joël Robuchon. Agora, São Paulo está oficialmente nesse mapa.
O D.O.M., do chef Alex Atala, manteve suas duas estrelas — distinção que carrega desde a primeira edição do Guia Michelin no Brasil, em 2015, sendo o único a sustentar essa marca por toda a trajetória do guia no país. Lasai e Oro, no Rio de Janeiro, também seguem com duas estrelas.
A conquista reflete um movimento mais amplo de valorização da culinária brasileira no cenário global. Ingredientes locais tratados com técnica de altíssimo nível, chefs cada vez mais autorais e uma identidade gastronômica que mistura raízes indígenas, africanas, europeias e asiáticas — tudo isso está colocando o Brasil definitivamente na rota da alta gastronomia mundial.
E para quem quer experimentar na prática, vale saber que o Brasil Sabor 2026, o maior festival gastronômico do país, está acontecendo agora mesmo, até o dia 31 de maio, com mais de 400 restaurantes participantes em mais de 40 cidades de 19 estados. Uma oportunidade de celebrar essa fase dourada da mesa brasileira sem precisar de reserva com meses de antecedência.
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