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Diário de Notícias

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Cartão de Crédito a 436% ao Ano, Inflação Sobe e 81 Milhões de Brasileiros Inadimplentes: O Retrato do Consumidor em Março de 2026

O mês de março de 2026 termina hoje revelando um quadro preocupante para o consumidor brasileiro. Três indicadores divulgados nos últimos dias constroem juntos um diagnóstico claro: o crédito está caro, a inflação está subindo e o endividamento das famílias bate recordes.

Inflação na terceira alta seguida

O Boletim Focus divulgado ontem (30) pelo Banco Central registrou a terceira elevação consecutiva na previsão do IPCA para 2026. A estimativa passou de 4,17% para 4,31% ao ano o nível mais alto projetado para o índice no atual ciclo. A alta reflete, em parte, as tensões geopolíticas em torno da guerra no Oriente Médio, que pressionam o petróleo e os custos de transporte. Ainda que a previsão se mantenha dentro do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional que é de 4,5%, a tendência de alta preocupa analistas. Em paralelo, o IGP-M de março fechou com alta de 0,52%, revertendo a queda de fevereiro, puxado principalmente pelo atacado, com aceleração em alimentação e transportes, e pelo custo da construção civil. A Selic deve fechar 2026 em 12,5% ao ano, segundo as projeções do mercado.

Cartão de crédito a 436% ao ano

Os dados do Banco Central divulgados esta semana mostram que os juros do rotativo do cartão de crédito chegaram a 436% ao ano em média entre as instituições financeiras. Em algumas delas, a taxa ultrapassa 1.000% ao ano. Aproximadamente 40 milhões de brasileiros estavam expostos ao crédito rotativo em janeiro a linha ativada quando o consumidor não paga o valor integral da fatura com inadimplência de 63,5% nessa modalidade. O crédito rotativo é o mais caro do sistema financeiro nacional e funciona como uma armadilha para quem paga apenas o mínimo da fatura: uma dívida pequena pode dobrar de valor em poucos meses.

Desde 2026, uma nova regra federal estabelece que o total cobrado no rotativo somando principal, juros e encargos não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida. Além disso, o aumento de limite do cartão deixou de ser automático: qualquer elevação agora exige autorização expressa do titular. As faturas passam a trazer mais transparência, com o Custo Efetivo Total (CET) e opções de portabilidade de dívida para outras instituições sem cobrança adicional. A medida é considerada um avanço, mas especialistas alertam que ela não resolve o problema estrutural: o custo do crédito no Brasil continua entre os mais altos do mundo.

81 milhões de inadimplentes o pior nível desde 2011

Março de 2026 é o mês dedicado ao consumidor e o retrato é sombrio. Segundo a Serasa, o Brasil encerrou o mês com 81,2 milhões de brasileiros com dívidas em atraso, e o índice de inadimplência chegou a 4,2%, o maior nível desde 2011. O endividamento das famílias atingiu 49,7% da renda acumulada em 12 meses, e o comprometimento da renda com pagamento de dívidas está em 29,3%. Ou seja, quase um terço de tudo que o brasileiro ganha vai para pagar boletos antes de qualquer outra despesa.

Os fatores que explicam esse cenário são conhecidos: juros altos que encarecem o crédito, custo de vida elevado, herança das dívidas contraídas durante a pandemia e o maior acesso ao cartão de crédito por parte de populações historicamente desbancarizadas muitas vezes sem educação financeira suficiente para navegar nesse ambiente.

O que esperar dos próximos meses

A próxima reunião do Copom, prevista para abril, será um termômetro importante. Analistas seguem atentos a qualquer sinalização sobre o rumo dos juros. Por enquanto, a combinação de Selic elevada, inflação em alta e consumidor endividado aponta para um segundo trimestre de 2026 ainda bastante desafiador para o bolso do brasileiro.

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