O diretor de Política Econômica e de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, Paulo Picchetti, disse nesta quinta-feira, 25, que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do primeiro trimestre surpreendeu tanto pela intensidade, quanto pela composição, com expansão mais intensa em componentes mais cíclicos.
"A gente teve agora uma aceleração nos componentes mais cíclicos, mais sensíveis aí à política monetária, notadamente, consumo das famílias e investimento", destacou Picchetti, durante entrevista coletiva sobre o Relatório de Política Monetária (RPM) do 2º trimestre, divulgado nesta manhã.
Apesar da aceleração, os investimentos continuam em nível baixo para padrões históricos e insuficiente para sustentar o PIB, segundo o diretor. Ao mesmo tempo, os números já disponíveis do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) apontam para um segundo trimestre também positivo. Por tudo isso, a projeção do BC para o PIB de 2026 cresceu de 1,6% para 2%.
O diretor ressaltou que, pelo lado da demanda, a alta na expectativa para o consumo das famílias já reflete a redução do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês e outras medidas do governo, que têm afetado a renda das famílias. O BC incluiu estímulos de do governo como um risco altista para o IPCA.
No mercado de trabalho, o diretor ressaltou que a taxa de desemprego tem renovado mínimas históricas. A desaceleração na criação de empregos, ele disse, parece refletir uma restrição da oferta de trabalhadores, e não uma perda de fôlego pelo lado da demanda.
Picchetti disse que haveria menos tempo para a entrevista coletiva desta quinta-feira. Tanto ele, quanto o presidente do BC, Gabriel Galípolo, viajam ainda esta tarde para Basileia, na Suíça, onde participam da 96ª reunião anual geral e das reuniões bimestrais do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), o banco central dos bancos centrais.
Mercado mostra percepção de piora do fiscal
Na entrevista, Paulo Picchetti, afirmou que, apesar de algumas medidas anunciadas pelo governo, a percepção do mercado sobre o fiscal tem piorado.
"A gente vê, aos olhos do mercado, de acordo com as últimas respostas do QPC Questionário pré-Copom, uma piora na percepção quanto ao cenário Fiscal".
O diretor ressaltou que, na prática, a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) segue ascendente.
'após 3 cortes da Selic, redução ainda não aparece nas taxas de crédito'
Paulo Picchetti, disse ainda que os três cortes de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic, realizados este ano, ainda não têm se refletido nas taxas de crédito.
"É bom lembrar que estamos olhando para números que ainda não captam isso os cortes integralmente na ponta, porque esses dados são de abril, quando a gente, na verdade, ainda tinha só o efeito de um dos cortes e ainda lembrando que tem um tempo de transmissão das variações da taxa básica para as taxas de empréstimo na ponta", disse o diretor do BC.
A dinâmica do mercado de crédito tem refletido um aumento simultâneo nas concessões de crédito e nos pagamentos, embora mais intenso nos pagamentos, disse o diretor. O fluxo financeiro - diferença entre as duas variáveis -, que já vinha negativo, tem se tornado ainda mais negativo, afirmou Picchetti.
'Choque de oferta no IPCA cheio e núcleos'
Paulo Picchetti afirmou ainda que é possível observar claramente os efeitos de um choque de oferta na inflação brasileira. No entanto, a alta de preços também continua respondendo a um excesso de demanda.
"Vemos a caracterização bem clara de um choque de oferta, na medida em que os núcleos estão subindo bem menos do que o índice cheio", disse Picchetti. "Porém, os próprios núcleos também estão em elevação, mostrando que tem um componente de demanda na dinâmica dos preços."
O diretor destacou que as surpresas recentes do IPCA refletem, em grande medida, uma "devolução" na dinâmica dos preços de alimentos. O grupo ficou comportado em 2025, mas tem subido agora, pressionando a inflação. Da mesma forma, os bens industriais têm avançado após um período de taxas comportadas.
Ao mesmo tempo, a inflação de serviços - mais correlacionada com a atividade econômica e, portanto, com a política monetária - continua elevada e incompatível com a convergência do IPCA para a meta, ele disse. O principal problema, nesse caso, é que a alta dos preços desse grupo supera a produtividade do País.
'Queda acentuada de projeções'
Picchetti ressaltou que as projeções da autoridade monetária indicam uma queda acentuada da inflação na passagem do último trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028.
"Isso é bem importante à luz do que tentamos comunicar de diferentes formas e vamos reforçar aqui ao longo das nossas conversas hoje", disse o diretor em referência à comunicação da reunião de junho do Comitê de Política Monetária (Copom).
Ao comentar as projeções da autarquia, o diretor voltou a mencionar a incerteza em torno das estimativas para a inflação, já abordada na comunicação do Copom, e enfatizou que a dispersão e assimetria estão elevadas. Picchetti disse que pediu ao time que faça um modelo para começar a quantificar essas assimetrias e incorporá-la aos modelos de projeção da autoridade monetária.
O diretor também destacou o aumento da estimativa para o IPCA no fim de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, de 3,3% no RPM anterior para 3,7% no atual. O diretor afirmou que houve uma piora dos condicionantes da inflação.
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