A Copa do Mundo de 2026 está a pouco mais de dois meses de distância, mas o que deveria ser um cenário de euforia turística global começa a dar sinais de alerta. Choques geopolíticos, endurecimento das políticas de imigração dos Estados Unidos e o aumento de custos para vistos estão ameaçando reduzir significativamente o público internacional do maior torneio de futebol da história.
O que está em jogo:
A FIFA e a Organização Mundial do Comércio previram que o evento — que pela primeira vez reúne 48 seleções disputando jogos nos EUA, Canadá e México — atrairia 6,5 milhões de torcedores e geraria um impacto econômico de impressionantes US$ 30,5 bilhões só nos Estados Unidos. Mas o cenário atual coloca essas projeções em cheque.
As barreiras criadas pelo governo Trump:
A administração Trump tornou a entrada nos EUA mais difícil e cara para visitantes estrangeiros, em um momento em que o país precisa justamente receber o mundo. Entre as medidas que preocupam o setor de turismo estão:
— Uma proibição ampla de viagens que impediria torcedores de seleções classificadas como Irã, Haiti e República Democrática do Congo de assistir aos jogos em solo americano — mesmo tendo suas equipes partidas programadas no país.
— O custo do visto ESTA (autorização eletrônica para turistas europeus) dobrou, passando de US$ 21 para US$ 40. A Europa tem 16 seleções no torneio.
— O preço base dos vistos de turismo comuns subiu de US$ 160 para US$ 185. E uma nova "taxa de integridade de visto" de US$ 250 — ainda não cobrada — elevaria o custo total para cidadãos de países como México e Brasil para até US$ 435 por pessoa.
— Relatórios indicam que as reservas de hotéis em Nova York para as datas da Copa estão 2% abaixo do mesmo período do ano anterior, quando não havia nenhum grande evento programado — sinal preocupante.
O impacto para o Brasil:
A seleção brasileira estreia no dia 13 de junho contra o Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Os outros dois jogos da fase de grupos acontecem na Filadélfia, contra o Haiti, e em Miami, contra a Escócia. Para o torcedor brasileiro viajar e acompanhar os três jogos da fase de grupos, o custo de visto pode chegar a US$ 435 por pessoa — quase R$ 2.500 na cotação atual — antes mesmo de pagar passagem, hotel e ingresso.
O que pode compensar:
Especialistas do setor acreditam que, mesmo com queda no público internacional, o turismo doméstico americano pode absorver parte da demanda. Reservas em cidades próximas às sedes já mostram alta de até 30% em relação ao ano anterior, sugerindo que americanos estão aproveitando o evento para viajar internamente. Analistas do setor hoteleiro também relativizam: "Não acho que será um desastre completo de forma alguma", disse um especialista consultado pela imprensa americana.
O grande paradoxo:
Um país que sediará o maior evento esportivo do planeta está, ao mesmo tempo, erguendo barreiras para que o mundo venha até ele. Para o turismo global, 2026 deveria ser o ano de ouro — e ainda pode ser, mas com menos visitantes do que se esperava, mais gastos para quem conseguir entrar, e um cenário geopolítico que nenhuma operadora de turismo colocou no planejamento.
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