Uma moderação do sentimento de aversão ao risco no exterior ao longo da tarde abriu espaço para uma redução dos ganhos da moeda americana frente ao real. Após tocar R$ 5,34, com máxima a R$ 5,3441 e avanço acima de 3%, o dólar à vista encerrou em alta de 1,92%, a R$ 5,2652. Apesar de longe dos picos do dia, é o maior nível de fechamento desde 26 de janeiro, quando terminou a R$ 5,2797.
A sessão foi marcada por um movimento clássico de liquidação de ativos de risco, diante das crescentes incertezas sobre a magnitude e a duração da guerra no Oriente Médio, após o acirramento do confronto que opõe Estados Unidos e Israel ao Irã - e respinga em outros países da região. Termômetro do comportamento do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, o Índice DXY rondava os 99,000 pontos no fim da tarde, após máxima de 96,683 pontos.
O dólar à vista sobe 2,56% em relação ao real nos dois primeiros pregões de março. A desvalorização acumulada em 2026, que superava 6% no fim de fevereiro, é agora de 4,08%. O real, que vinha liderando os ganhos entre divisas emergentes no ano antes da eclosão da guerra, teve perdas inferiores a de pares como os pesos mexicano e chileno. Rand sul-africano e florim húngaro amargaram as piores perdas, acima de 2,5%.
O economista Marcelo Fonseca, do Grupo CVPAR, avalia que houve uma "intensificação da busca por proteção hoje [terça-feira, 3]", com a perda de força da leitura de que EUA e Israel, dada sua supremacia militar, poderiam levar o Irã rapidamente à mesa de negociações.
"O dólar se fortaleceu de forma ampla e o petróleo avançou, refletindo a revisão das estimativas quanto à duração do conflito", afirma Fonseca, ressaltando a reação do Irã, que realizou ataques a alvos militares e civis em outros países da região ligados aos EUA.
As cotações do petróleo, que no momento de maior estresse, subiram mais de 9%, com o contrato do Brent tocando US$ 85, terminaram o pregão em alta inferior a 5%. Fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que Donald Trump estuda medidas para conter a escalada dos preços da commodity, insuflados pelo fechamento pelos iranianos do Estreito de Ormuz, por onde é escoada cerca de 20% da produção global. No fim da tarde, Trump disse que, se necessário, a Marinha americana escoltará embarcações pelo estreito.
Para Fonseca, a probabilidade de um "conflito mais arrastado" tende a preservar no curto prazo a atratividade do dólar como porto seguro. Ele lembra que a alta do petróleo eleva o risco inflacionário e pode reduzir o espaço para cortes de juros nos países desenvolvidos.
"Para o Brasil, o efeito é ambíguo. Temos termos de troca melhores via petróleo, mas maior pressão cambial e aumento do prêmio de risco", afirma o economista do Grupo CPVAR, que, por ora, mantém projeção de cortes de 300 pontos-base na taxa Selic neste ano.
O Citi informou em nota que mudou seu posicionamento em relação ao real de overweight (acima da média) para neutro em razão das perdas de divisas emergentes pelas "crescentes tensões geopolíticas". O banco aponta que, neste primeiro trimestre, houve um aumento substancial das posições "compradas" em real, com base em "um carry atrativo e dinâmicas favoráveis dos termos de troca". Isso deixou a moeda brasileira "mais vulnerável ao recente movimento de aversão ao risco".
O Bradesco afirmou, em relatório, que os efeitos da alta do petróleo sobre a taxa de câmbio "dependem do equilíbrio de apetite ao risco e do fluxo de capitais". O banco pondera, contudo, que a balança comercial e a conta corrente brasileira se beneficiam da valorização da commodity. "O componente do modelo relacionado aos vetores internos pode fazer com que o real performe melhor do que as demais moedas emergentes em um cenário de manutenção prolongada do risco geopolítico", afirma o Bradesco.
Em meio à escalada da taxa de câmbio, houve uma surpresa com anúncio pelo Banco Central de dois leilões de linha com valor de R$ 2 bilhões por volta das 13h44. A data de liquidação da venda seria 5 de março e a da recompra, no próximo dia 9. Pouco mais de 1 minuto depois, o BC cancelou as operações. A justificativa foi que houve um erro na publicação dos leilões, que estavam em ambiente de teste.
Operadores consultados pela Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, afirmaram que não houve impacto visível na formação da taxa de câmbio. A avaliação é a de que, por ora, o mercado à vista segue bem irrigado e sem disfuncionalidades, o que torna a possibilidade de intervenção do BC remota.
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