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'Domingo no Parque' inspira musical que aborda política e feminicídio na ditadura

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Em 1998, o então ator Alexandre Reinecke, hoje com 56 anos, atendeu o telefone de sua casa, em São Paulo. "Alô, Alexandre, aqui é Gil", falou a voz do outro lado da linha. Ele não acreditou, pensou que fosse trote de algum amigo debochado e o interlocutor repetiu três vezes que era o cantor e compositor Gilberto Gil até o ouvinte perceber a gafe.

Desde 1995, Reinecke trabalhava em uma dramaturgia inspirada na canção Domingo no Parque, lançada pelo baiano em 1967 no 3º Festival da Música Popular da TV Record, aquela que trata de um triângulo amoroso formado pelo rei da brincadeira, José, o rei da confusão, João, e a musa dos dois, Juliana.

Para a ideia seguir adiante, era necessário o aval do criador. "Rodolfo Stroeter, que é músico e trabalhava com Gil, fez o contato, mandei o texto pelo correio para a sua casa, mas nunca pensei que ele mesmo me ligaria", lembra. "Só me restou pedir desculpas."

Reinecke deixou de lado a carreira de ator e, nos últimos 25 anos, se consolidou como um dos mais profícuos diretores brasileiros. Comandou astros e estrelas, como Beatriz Segall (1926-2018), Dan Stulbach e Reynaldo Gianecchini, e movimentou bilheterias com as comédias Toc Toc, Sua Excelência, O Candidato e Os 39 Degraus, além do recente drama Um Dia Muito Especial, que volta no dia 10 ao Teatro Bradesco, em São Paulo. O sonho de levar Domingo do Parque ao palco se arrastou por três décadas, volta e meia ele reescrevia o texto e renovou outras duas vezes a autorização enviada por Gil.

No sábado, 3 de janeiro, Domingo no Parque se torna realidade no Teatro Claro, no Shopping Vila Olímpia, na capital paulista, em uma versão que reúne 21 atores e atrizes, 90% deles pretos. Alan Rocha, Rebeca Jamir, Guilherme Silva, Badu Morais e Adriana Lessa lideram o elenco. Os instrumentistas Bruno Di Lullo (baixo), Daniel Conceição (bateria e percussão), Gabe Fabbri (arranjos e regência) e Mano Jotta (violão, guitarra e cavaquinho) executam a trilha sonora sob a direção musical de Bem Gil, filho do compositor.

A trama de 'Domingo no Parque'

Uma trama ambientada em Salvador no começo da década de 70, auge da ditadura militar, cruza os três personagens da letra. O feirante José (interpretado por Rocha) e o operário da construção civil João (papel de Silva) cresceram no mesmo bairro e, depois de anos, se reencontram em uma roda de capoeira. José convida João para um show da namorada, Juliana (representada por Rebeca), sem saber que eles tiveram um romance no passado.

Os dois romperam porque Juci (vivida por Badu) engravidou, e João, mesmo não apaixonado, decidiu se casar com a moça. Hoje, Juliana é uma militante envolvida luta contra o autoritarismo, o que contrasta com a alienação de José e o caráter explosivo de João. Em um domingo, o operário enxerga no parque a cantora com o feirante. Ela carrega uma rosa e um sorvete na mão e está anunciada a tragédia.

"É o projeto da minha vida e acontece na hora certa porque trata de diversidade, religiosidade e feminicídio", explica o encenador, que, depois de 59 peças, pela primeira vez assina um musical. "Na questão política, enquanto Juliana é socialista, José só pensa em ganhar dinheiro na sua barraca e, para João, tanto faz viver na democracia ou ditadura."

A atriz Adriana Lessa, de 55 anos, interpreta Mãe Preta, a avó e responsável pela criação de José, que traz à tona temas como a religiosidade afrobrasileira e a importância da afetividade na educação do neto. "Mãe Preta é a detentora de uma sabedoria típica da Bahia, ligada aos orixás e à natureza e uma lutadora contra a intolerância religiosa", define a intérprete.

Se para Reinecke encenar um musical é novidade, Bem Gil, de 40 anos, também enfrenta o desafio de estrear no teatro e, desde julho, se juntou ao projeto como consequência da intimidade com a obra do pai. Quando recebeu o texto, as canções já tinham sido selecionadas, mas, logo percebeu que, com o andamento dos ensaios, várias coisas mudariam.

Músicas do espetáculo

Entre as 20 composições que ficaram, 10 são de Gil, como Roda, Preciso Aprender a Só Ser, Cálice, Pessoa Nefasta, Pega a Voga, Cabeludo e, claro, Domingo no Parque.

Canção do Subdesenvolvido, de Carlos Lyra (1933-2023), Retrato em Branco e Preto, de Tom Jobim (1927-1994) e Chico Buarque, e Chiclete com Banana, sucesso de Jackson do Pandeiro (1919-1982) regravado por Gil, são outros exemplos.

"O repertório variou de acordo com as sugestões do elenco, dos assistentes, da equipe inteira e achei positivo porque ampliou a narrativa imaginada por Reinecke", diz Bem Gil, que ainda criou melodias para três letras do diretor. "Gota d'Água, do Chico, caiu porque concluímos que já era tema de outro musical bastante conhecido."

Bem Gil conta que seu pai, claro, tem consciência da produção, mas acompanha tudo à distância e nada comenta ou pede informações sobre o processo de trabalho. "Ele já está envolvido com tantos assuntos, são shows, viagens, eventos, mas acredito que, quando vir imagens ou vídeos, ficará curioso para assistir ao espetáculo", palpita o diretor musical.

Sobre uma canção tão narrativa quanto Domingo no Parque ter levado quase seis décadas para ser transposta a uma outra linguagem, Bem Gil não se surpreende e considera até normal. "É uma obra tão emblemática, que fala por si e parece completa, então não desperta a ação de outros artistas até chegar alguém e resolver adaptá-la, como fez Reinecke", completa.

SERVIÇO

O que: Domingo no Parque

Onde: Teatro Claro, no Shopping Vila Olímpia (Rua Olimpíadas, 360, Vila Olímpia)

Quando: Estreia: 3/1 - Quinta e sexta, 20h; sábado, 17h e 20h30; domingo, 18h - Até 8/2.

Quanto: R$ 50 a R$ 250

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