Elomar Figueira Mello não é deste tempo. Nem a sua música tem o mesmo sentido de tempo das criações atuais. Violonista, compositor, cantor e escritor, o baiano de Vitória da Conquista, na Bahia, aos 88 anos, assistirá, nesta quarta e quinta-feira, 22 e 23, à sua ópera Auto da Catingueira no palco do Cultura Artística, adaptada e apresentada pelo grupo de câmara barroco holandês Apollo Ensemble. João Omar, um dos filhos de Elomar, estará ao violão.
Composta no final da década de 1960 e gravada em LP duplo em 1983, a ópera 'sertânica', como Elomar a classifica, mescla a cultura popular do Nordeste com a linguagem lírica. Narrada pelo Cego Cantador, tem como protagonista a bela Dassanta - ou a própria caatinga -, disputada por dois violeiros, Chico das Chagas e o Cantador do Norte. "São os valores do sertão, a realidade sertaneja, sem abordagem da pólis, das cidades", explica Elomar ao Estadão.
Nessas apresentações no Cultura Artística, Auto da Catingueira terá direção e cenografia de André Heller-Lopes, direção musical do maestro ucraniano David Rabinovich, líder do Apollo Ensemble, e arranjo de Henrique Gomide.
Com fama de recluso, Elomar conversou com a reportagem por telefone, com o pedido de que a conversa focasse no Auto e em sua criação artística. Morador de Vitória da Conquista, ele se divide entre a cidade e a região rural, na sua conhecida Casa dos Carneiros, onde cria carneiros, cabras e gado miúdo, em uma propriedade que está há gerações em sua família. Diz evitar entrevistas, sobretudo para "gente jovem". "Minha música é mais para a 'veiança'", diz.
"Moro e demoro no sertão", ele costuma dizer, expandindo o sentido para além da geografia. Um mundo de vaqueiros encourados, tropeiros e rapazes que sabem "arrear e montar em um cavalo", como ele diz na entrevista, lamentando o fato de, segundo ele, não existirem mais. "O sertão esbagaçou", afirma.
Ainda no palco, Elomar apresenta, desde o ano passado, o show Uma Cantoria Para Vital, homenagem a Vital Farias (1943-2025), seu parceiro no projeto mais popular que já fez, o Cantoria - série de três álbuns lançados pela gravadora Kuarup. Os dois primeiros, além de Elomar e Farias, também traziam Xangai e Geraldo Azevedo. Na época, Elomar e Farias foram apelidados de Beatles pela produção, em contraste com Xangai e Azevedo, os Rolling Stones. "Só conheço uma canção dos Beatles, Eleanor Rigby, que é bonita demais", diz.
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