0

Diário de Notícias

DN.

Há 37 anos, Bush invadiu o Panamá e capturou o ditador Noriega para julgá-lo em solo americano

Continue lendo o artigo abaixo...

A invasão da Venezuela por forças americanas para capturar o presidente Nicolás Maduro, neste sábado, 3, não tem precedentes na América do Sul, mas uma ação americana semelhante já ocorreu em um país muito próximo do território venezuelano, na América Central. Em 20 de dezembro de 1989, durante a administração de George H. W. Bush, os EUA realizaram uma operação para capturar o ditador do Panamá, Manuel Antonio Noriega.

Durante a operação Just Cause (Justa Causa), Noriega foi levado para os Estados Unidos, julgado e condenado pela Justiça americana. Ele foi condenado a 40 anos por um júri federal de Tampa, em Miami, pelos crimes de extorsão, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

O general Noriega, que atuava como comandante em chefe das Forças Armadas da República do Panamá e também comandava o país, foi acusado pelos Estados Unidos de tráfico de drogas. A operação de captura mobilizou 26 mil soldados das unidades de elite, dos comandos da marinha, do exército e da 82ª Divisão Aerotransportada para a invasão.

As Forças de Defesa Panamenhas somavam apenas 12 mil soldados e o país dispunha de uma minúscula força aérea. As bases militares dos EUA nas margens do Canal do Panamá, mantidas após o Tratado Torrijos-Carter, legalizavam a presença militar no território para a defesa conjunta por ambas as nações na via navegável. As guarnições contavam com um exército de 12 mil que não participaram na Operação Justa Causa.

Dois dias antes do ataque, um soldado norte-americano foi morto quando passou num posto de controle em frente ao Quartel Central da Guarda Nacional, o que foi considerado como o desencadeador do conflito.

Bombas, destruição e mortes

A invasão começou na madrugada de 20 de dezembro de 1989 com bombardeios de muitas instalações militares e políticas. O objetivo do ataque era anular qualquer resposta por parte do exército panamenho. Os bombardeios destruíram vários aeroportos e bases militares do país.

Apesar das armas de alta tecnologia utilizadas pelos Estados Unidos, houve muitas mortes de civis por conta de ataques a edifícios não militares. A entrada dos soldados americanos no bairro de Chorrillo, onde havia muitos adeptos de Noriega, foi particularmente sangrenta. Para impedir a fuga de Noriega, foi afundado seu barco e explodido seu jatinho, deixando quatro mortos e nove feridos.

As operações militares continuaram por várias semanas, principalmente contra unidades militares do Exército panamenho. Noriega manteve-se em fuga por vários dias, sofrendo uma caçada massiva. Os EUA ofereciam uma recompensa de US$ 1 milhão por sua captura.

Noriega chegou a buscar refúgio na missão diplomática do Vaticano na cidade do Panamá, mas acabou se rendendo aos militares americanos em 3 de janeiro de 1990.

Guilherme Endara, que teria sido vencedor na eleição presidencial realizada naquele ano, foi empossado como presidente do Panamá em uma base militar dos Estados Unidos.

Historiadores afirmam que não houve qualquer declaração de guerra contra o Panamá e a ação foi condenada pela Assembleia Geral da ONU e pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

Há divergência sobre o número de mortos nos ataques. Dados oficiais do Pentágono apontaram 516 panamenhos mortos durante a invasão, mas a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos na América Central estimou entre 2,5 mil a 3 mil óbitos, e a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos no Panamá avaliou que 3,5 mil pessoas morreram. A ONU estima 500 mortes na invasão. Os Estados Unidos perderam 23 soldados e registrou 325 militares feridos.

Motivos semelhantes

O presidente Bush listou quatro razões para a invasão do Panamá, muito semelhantes às alegações de Donald Trump para atacar a Venezuela. A primeira seria proteger a vida dos 35 mil cidadãos americanos que viviam no Panamá - até 1977, os EUA controlavam o Canal do Panamá. O segundo argumento foi a defesa da democracia e dos direitos humanos no país centro-americano.

A terceira razão foi o combate ao tráfico de drogas - o Panamá teria se tornando rota de passagem da droga para os Estados Unidos. Por fim, a proteção dos interesses americanos decorrentes dos Tratados Torrijos-Carter. Pelo tratado assinado na gestão de Jimmy Carter, os EUA teriam direito a intervir militarmente para proteger o canal.

Ex-colaborador da CIA

Os historiadores apontam que, antes de se tornar inimigo dos Estados Unidos, Noriega foi chefe da inteligência militar panamenha e colaborava com a CIA, a central de inteligência americana.

Em 2007, quando concluiu o cumprimento da pena, o ex-ditador foi extraditado para a França onde, em 2010, foi condenado a sete anos por lavagem de dinheiro. Um ano depois, foi extraditado para o Panamá, onde ficou preso por crimes cometidos durante sua ditadura. Noriega morreu em maio de 2017, em um hospital da Cidade do Panamá, onde estava internado após cirurgia para remover um tumor cerebral.

0 Comentários

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu Comentário

Você deve estar logado para comentar.