Com petróleo em torno ou acima de US$ 100 por barril, as preocupações sobre a inflação global - e o correspondente efeito sobre a trajetória dos juros globais, a começar pelos dos EUA - permanecem sobre a mesa nesta semana que antecede a deliberação do Copom sobre a Selic, em 18 de março. Assim, mais uma vez, a princípio, o dia foi de cautela e de retração no apetite por risco, em reversão da tendência que se estabeleceu em meados de janeiro e foi interrompida pelo ataque ao Irã, iniciado em 28 de fevereiro por Estados Unidos e Israel.
Contudo, em direção ao fechamento da B3, novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram recebidas com euforia no mercado global, que tirou o petróleo do positivo e o fez mergulhar em direção a uma queda de 9% nos contratos futuros do WTI, em Nova York. Em entrevista à rede CBS, Trump afirmou que o conflito com o Irã está perto de ser concluído. Em Nova York, os três índices de ações firmaram alta com os comentários, buscando máxima do dia para o Nasdaq. No fechamento, Dow Jones +0,50%, S&P 500 +0,83%, Nasdaq +1,38%.
Mais cedo, na mínima desta segunda-feira, o Ibovespa tinha resvalado para os 177.636,63 pontos, em piso que correspondeu ao menor nível intradia desde 23 de janeiro, então na casa dos 175,5 mil pontos durante aquela sessão. Considerando a mínima da sessão de hoje, a retração do Ibovespa em relação à máxima história intradia de 192,6 mil pontos, de 25 de fevereiro, chegou a 15 mil pontos. Hoje, o índice da B3 lutou e parecia que já conseguiria encerrar a sessão em leve alta, na casa de 179,5 mil pontos, tendo chegado a 180.174,13 pontos, até que as declarações de Trump fizeram ligar o turbo no apetite dos investidores, na reta final.
Dessa forma, após os comentários de Trump, o Ibovespa foi buscar máxima do dia bem perto dos 182 mil pontos, aos 181.952,23 pontos. Reforçado em direção ao fechamento, o giro foi a R$ 37,6 bilhões nesta segunda-feira. No mês, o Ibovespa ainda recua 4,17%, limitando o ganho acumulado no ano a 12,28% - na última sessão de fevereiro, que antecedeu o ataque ao Irã, o avanço estava em 17,17% em 2026. No fechamento de hoje, mostrava alta de 0,86%, aos 180.915,36 pontos, na sessão.
"Você tinha uma narrativa muito forte de que haveria uma sobreoferta grande de petróleo neste ano", diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. "Se imaginava que fosse ser negociado abaixo dos US$ 60 durante um bom período."
"Na abertura do mercado, a gente viu o petróleo extremamente agressivo, subindo quase 20%", aponta Pedro Moreira, sócio da ONE Investimentos, acrescentando que o "spike" - alta acentuada - decorreu da interpretação, pelos participantes do mercado, de que a escolha do filho de Ali Khamenei, morto no ataque do fim de fevereiro, para substituí-lo como Líder Supremo do Irã reforça a narrativa de resiliência ou mesmo de endurecimento do regime após o início do conflito, o que pode resultar em nova concentração de poder no país.
"O mercado voltava a projetar um conflito com duração mais longa, começando a visualizar a questão da oferta global do petróleo. E a gente já via alguns países se movimentando para começar a usar reservas estratégicas", diz Moreira.
Também para Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil, a nomeação de Mojtaba Khamenei como sucessor do pai foi interpretada como continuidade da "linha-dura do regime", sem um viés de afrouxamento que conduzisse as partes à mesa de negociação, e a princípio sem perspectiva de resolução rápida na transição de liderança: diferentemente do que se viu no início do ano na Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro por forças especiais dos EUA.
"Ao longo do dia os preços do petróleo tiveram moderação, a princípio logo após notícias de que o G7 discute liberar reservas estratégicas para compensar eventuais interrupções de oferta e também de que a Arábia Saudita estaria ofertando petróleo no mercado à vista", acrescenta Praça, referindo-se a desdobramentos que levaram as cotações da commodity a se afastar dos maiores níveis desde 2022, mesmo antes dos comentários de Trump no período da tarde.
Nas máximas da sessão, os barris do WTI e do Brent chegaram aos US$ 119, maior nível desde junho de 2022, depois de países árabes do Golfo terem reduzido a produção devido ao fechamento do Estreito de Ormuz por ameaças iranianas. Em Nova York, o contrato do WTI para abril fechou em alta de 4,3% (US$ 3,87), a US$ 94,77 por barril. E, em Londres, o Brent para maio subiu 6,8% (US$ 6,27), a US$ 98,96.
Nesse contexto de forte pressão sobre um insumo ainda essencial à economia global, dentre as principais ações de primeira linha na B3 apenas as de Petrobras conseguiam escapar do campo negativo na sessão, mais cedo, com a ON em alta moderada a 2,12% e a PN, de 2,49%, no fechamento.
Tal desaceleração nos papéis da estatal, contudo, foi mais do que compensada pela virada em outros carros-chefes da B3, como Vale (ON +0,51%) e em parte dos bancos, com destaque para Itaú (PN +0,54%) no fechamento. Na ponta ganhadora do índice, Azzas (+5,38%), Eneva (+4,98%) e CPFL (+3,73%). No lado oposto, MRV (-7,85%), Pão de Açúcar (-5,21%) e C&A (-3,81%).
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