Questões estruturais ainda afetam a emancipação econômica das mulheres, como acesso ao crédito, sobrecarga do trabalho de cuidado não remunerado (como a manutenção da vida diária, criar filhos, assistir familiares idosos) e barreiras impostas na carreira. Os pontos foram abordados no estudo "Elas pagam a conta", elaborado pela ONG Think Olga e pela consultoria Think Eva, e que está sendo apresentado hoje no 7º Fin4She Summit, evento anual do qual o Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) é parceiro de mídia.
"Estamos há mais de 11 anos estudando as questões de gênero. Por mais que as mulheres tenham conquistado avanços recentes, o acesso ao dinheiro ainda é uma questão que não avançou para elas tanto quanto outras questões", explica Maíra Liguori, cofundadora da Think Olga e da Think Eva.
Liguori explica que o estudo foi realizado a partir de pesquisas públicas, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levantamentos da B3 e de bancos. "Existem muitos dados disponíveis. Ou seja, produzir dados quantitativos novos não foi necessário. Colocamos os dados sob uma lupa, para entender causas e consequências", afirma.
O estudo, que combina uma imersão em mais de cem pesquisas acadêmicas, dados oficiais, entrevistas com sete especialistas e a escuta ativa de uma comunidade digital com mais de 400 mulheres, evidencia que o que elas produzem de riqueza não está ficando com elas.
"Há barreiras presentes em todos os âmbitos, desde o gap salarial, segregação ocupacional, onde as mulheres ocupam empregos em áreas que são menos remuneradas, como as de cuidado, enfermagem ou pedagogia, onde a maioria são de mulheres. Elas não conseguem participar de mercados onde têm mais dinheiro circulando. Isso é segregação ocupacional", diz Liguori.
Sobre a carreira profissional, as entrevistadas apontam que hoje ainda é presente o argumento de que mulheres possuem menos ambição no trabalho, algo que o estudo desmistifica. "Na realidade, a recusa a promoções ou cargos de liderança costuma ser consequência de jornadas duplas ou triplas que são exaustivas. As mulheres trabalham, em média, 58,1 horas semanais (somando trabalho remunerado e não remunerado), contra 50,3 horas dos homens", explica o estudo elaborado pela Think Eva.
O estudo também apresenta um conceito chamado "Pix invisível", mostrando que enquanto os homens culturalmente assumem ou dividem as despesas fixas maiores (como aluguel e escola), os pequenos custos diários com o cuidado de filhos e parentes ficam sob a responsabilidade quase exclusiva das mulheres. "E isso raramente entra na planilha de gastos", argumenta Liguori.
A ausência do poder público é outro ponto abordado no levantamento. "No Brasil, metade das mães é 'mãe solo'. No Brasil, muitas mulheres criam e cuidam dos seus filhos sozinhas. Muitas são obrigadas a viver de auxílio, porque não conseguem voltar para o mercado de trabalho. É uma questão de política pública", destaca Nana Lima, também cofundadora das organizações.
Na política, Liguori destaca que já realizou um estudo que mostrou que candidatas a cargos públicos com pautas voltadas para as políticas de cuidado tiveram de mudar seus pleitos para temas que, essencialmente, beneficiam os partidos políticos. "A violência política de gênero acontece quando partidos captam mulheres para uma agenda feminina e não feminista. São mulheres que estão lá apenas porque os partidos são obrigados a ter uma cota mínima para mulheres. Elas acabam defendendo a agenda do partido e não a agenda das mulheres", afirma.
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