Algo curioso está acontecendo no carrinho de compras dos brasileiros. Ao mesmo tempo em que o país vive juros altos, inflação acima de 5% e crédito caro, o consumo não parou — ele apenas ficou mais estratégico, mais desconfiado e mais digital do que nunca. E os números que têm saído neste mês contam essa história de forma surpreendente.
O primeiro dado que chama atenção: 69% dos brasileiros já consideram marcas próprias de supermercados uma boa alternativa às marcas tradicionais, segundo pesquisa da NielsenIQ. E mais de metade — 53% — está comprando cada vez mais esses produtos. Ou seja, aquele tempo em que "marca própria" era sinônimo de segunda linha ficou para trás. Os consumidores perceberam que muitos desses itens são fabricados pelas mesmas indústrias das marcas famosas, só que por uma fração do preço. Redes como Carrefour, Pão de Açúcar e Atacadão estão investindo pesado nisso, e o resultado está aparecendo nos caixas.
Enquanto isso, as plataformas asiáticas seguem provocando uma revolução silenciosa. A Shopee acaba de lançar o "Mapa Shopee 2026", revelando que os produtos mais vendidos no país são surpreendentemente ligados ao cotidiano: retrovisores de moto e escapamentos dominam o Nordeste, enquanto itens de casa e pets lideram no Sudeste e no Sul. No caso da Shein, a grande virada é que a empresa caminha para ter 85% das suas vendas no Brasil realizadas por produtores brasileiros — praticamente se tornando uma plataforma nacional disfarçada de grife chinesa. E neste mês, o governo federal extinguiu a chamada "taxa das blusinhas", o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, o que deve turbinar ainda mais as compras nesses marketplaces.
Mas o dado que talvez mais revele o espírito do momento vem de outro lugar: quase metade dos consumidores brasileiros já faz compras baseadas em recomendações de inteligência artificial, segundo estudo da Capgemini. Não é mais o vendedor da loja que convence — é o algoritmo. Feeds de redes sociais, vídeos de influenciadores e sugestões automáticas nos aplicativos estão moldando o que vai parar na sacola.
Do outro lado, o varejo físico vive uma reinvenção. A loja não é mais só um lugar para comprar — virou espaço de experiência, de provar, tocar e sentir. Grandes redes estão integrando app, WhatsApp, loja física e marketplace num sistema só, onde o consumidor nem percebe quando transita de um canal para outro. É o chamado "omnichannel", que em 2026 deixou de ser tendência e virou questão de sobrevivência.
A projeção do setor para o ano é de crescimento próximo a 2%, segundo o indicador da FGV. Não é explosivo, mas é significativo num cenário de juros ainda em 14,5% e com um mercado de apostas online que movimentou R$ 37 bilhões em receita bruta em 2025 e que concorre diretamente pelo bolso do consumidor — especialmente das classes C e D.
Em resumo, o brasileiro de 2026 não compra menos — compra diferente. Mais pesquisa, mais comparação, mais desconfiança com marketing tradicional e mais confiança em algoritmos e avaliações de outros consumidores. Quem entendeu isso está crescendo. Quem não entendeu, está sentindo no caixa.
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