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Diário de Notícias

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O peixe mais bonito do mar está devorando a costa brasileira por dentro e ninguém consegue pará-lo

Ele é espetacular de se olhar: listras vermelhas, marrons e brancas, nadadeiras que se abrem como leques plumosos, uma presença que parece saída de um aquário de luxo. Mas por trás dessa beleza deslumbrante, o peixe-leão está se revelando um dos maiores pesadelos ambientais que o litoral brasileiro já enfrentou — e sua marcha silenciosa rumo ao sul está acelerando.

O alarme voltou a soar esta semana. O avanço do peixe-leão pela costa brasileira ganhou destaque em reportagens e estudos que mostram que a situação é mais grave do que se imaginava. A espécie, conhecida cientificamente como Pterois volitans, é originária do Indo-Pacífico — ou seja, não tem absolutamente nada a ver com as águas do Atlântico. Ela chegou aqui por ação humana, provavelmente liberada de aquários, e foi escalando pelo Caribe até conseguir algo que os cientistas consideravam improvável: ultrapassar a barreira natural da foz do Rio Amazonas e invadir a costa norte do Brasil.

O primeiro registro oficial aconteceu em 2020, em Fernando de Noronha. De lá para cá, a invasão foi implacável. O peixe nadou contra a corrente marítima, chegando ao Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Quando "virou a esquina" do continente, encontrou correntes que fluem para o sul — e aí o avanço ficou ainda mais rápido. Hoje, já está na fronteira entre Pernambuco e Alagoas, e pesquisadores acreditam que é questão de tempo até alcançar toda a costa brasileira, chegando ao Uruguai.

Um estudo recente da Universidade Federal do Ceará revelou um dado assustador: entre 2020 e 2024, o peixe-leão invadiu pelo menos 18 áreas marinhas protegidas, incluindo parques marinhos, reservas biológicas e regiões de pesca artesanal. O ICMBio classificou oficialmente a espécie como uma grande ameaça à biodiversidade marinha brasileira.

O que torna o peixe-leão tão devastador é uma combinação de superpoderes biológicos que parece injusta. Ele é capaz de comer 30 peixes juvenis em apenas meia hora. Não tem nenhum predador natural no Atlântico — nada o caça. Se reproduz com velocidade absurda. Come tudo que cabe na boca — de peixes a crustáceos. É venenoso, com espinhos que causam dor intensa em humanos. E, para completar, é territorial e não foge quando vê gente, o que multiplica o risco de acidentes com banhistas e mergulhadores.

Uma pesquisadora do Projeto Conservação Recifal conta que já encontrou um peixe-leão de apenas 15 centímetros — ainda muito pequeno — com três outros peixinhos dentro do estômago. Há até registros de peixe-leão morrendo sufocado por tentar engolir presas maiores do que ele.

O impacto vai além da ecologia. A invasão ameaça diretamente o turismo de mergulho no Nordeste — um dos grandes atrativos da região. Como resumiu um pesquisador: "quem faz mergulho quer ver vida, né?" Se o peixe-leão dizimar as espécies nativas dos recifes, os mergulhadores vão encontrar um cenário cada vez mais vazio.

E a parte mais frustrante? Não existe solução fácil. No Caribe, onde o peixe-leão invadiu décadas antes, diversas estratégias foram tentadas com pouco sucesso. A esperança no Brasil está em projetos de ciência cidadã, que treinam pescadores e mergulhadores para identificar, capturar e registrar ocorrências da espécie. Quem avistar um peixe-leão não deve devolvê-lo ao mar — a orientação é refrigerá-lo e contatar o ICMBio mais próximo.

A ironia final? O peixe-leão, apesar de venenoso nos espinhos, é perfeitamente comestível — e considerado saboroso. Em países do Caribe, já existem campanhas gastronômicas incentivando o consumo da espécie como forma de controle populacional. Talvez a solução para a maior ameaça marinha do Brasil acabe passando pela cozinha.

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