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Diário de Notícias

DN.

O queijo mais brasileiro do Brasil não pode ser vendido em Portugal e os portugueses já criaram a própria versão

Uma reportagem publicada ontem, 5 de maio de 2026, revelou uma situação curiosa e até um tanto irônica: com quase 500 mil brasileiros regularizados em Portugal, a oferta de produtos e ingredientes originários do Brasil é crescente, seja nas gôndolas dos supermercados, seja em mercados exclusivamente dedicados ao público brasileiro. Mas nem tudo que é consumido em território brasileiro pode cruzar o oceano Atlântico. Há um produto, em especial, que ainda não chega a Portugal por esbarrar na legislação de produtos lácteos: o queijo Catupiry.

A origem surpreendente do queijo mais brasileiro do Brasil

Antes de falar do impasse europeu, vale saber de onde vem essa iguaria — e a história surpreende. O queijo cremoso foi criado em 1911 pelos irmãos italianos Mário e Rosa Silvestrini, imigrantes que se instalaram em Lambari, no interior de Minas Gerais, e em 1949 abriram uma fábrica em São Paulo. Ou seja, o queijo símbolo da culinária brasileira nasceu das mãos de italianos, numa cidade mineira de águas termais.

E o nome? A palavra tem origem indígena, tupi-guarani, e significa "excelente". Um nome italiano criado em Minas com alma indígena — e que virou sinônimo de um produto inteiro, como "gilette" virou sinônimo de qualquer lâmina de barbear.

Por que não chega à Europa?

A entrada na União Europeia ainda apresenta desafios regulatórios relevantes, especialmente no segmento de lácteos, incluindo a necessidade de habilitação específica de plantas produtivas junto ao bloco. A própria marca admite que monitora o cenário de perto, mas que ainda não há uma mudança prática no horizonte próximo.

A solução criativa dos portugueses

Sem o produto original, o mercado se virou. A marca Continente tem investido fortemente no consumidor brasileiro, que busca produtos de sua terra natal em Portugal, e buscou uma alternativa que já chegou às prateleiras. Em outros supermercados, como os da rede Aldi e Auchan, também é possível encontrar este queijo em versão alternativa, indicado especialmente para restaurantes. O produto é fabricado em Portugal pela marca Ipanema — Sabores do Brasil, cuja fábrica fica na aldeia de Trancoso, na região da Beira Alta.

Ou seja: um queijo criado por italianos no Brasil, com nome indígena, agora é reproduzido por portugueses numa aldeia medieval — para matar a saudade de meio milhão de brasileiros que moram na Europa.

E o futuro?

A expectativa é de que, num futuro próximo, especialmente com a entrada em vigor do acordo entre o Mercosul e União Europeia, o cenário mude. Há dez anos, o queijo já está presente no exigente mercado dos Estados Unidos.


O Catupiry é, talvez, o maior exemplo de como a gastronomia brasileira é, em si mesma, uma fusão. Nasceu europeia, ganhou alma indígena no nome, conquistou o Brasil e agora tenta, ainda sem sucesso total, reconquistar a Europa de onde veio. A coxinha agradece — e espera ansiosa.

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