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Diário de Notícias

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O remédio que está mudando o que o Brasil come — e assustando supermercados, restaurantes e a indústria de alimentos

Uma pesquisa divulgada nos últimos dias pelo Instituto Locomotiva revelou algo que poucos esperavam: 95% dos lares brasileiros onde alguém usa as famosas "canetas emagrecedoras" já mudaram seus hábitos de consumo de forma concreta e mensurável. O fenômeno dos medicamentos GLP-1 — como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — deixou de ser apenas uma questão médica ou estética e se tornou uma das maiores forças de transformação do mercado de consumo no Brasil em 2026.


O que são os GLP-1 e por que isso importa para o mercado?

Os medicamentos análogos ao GLP-1 foram criados para tratar diabetes, mas viraram febre mundial como ferramenta de emagrecimento. Eles retardam a digestão, aumentam a sensação de saciedade e reduzem drasticamente o apetite. Em março de 2026, a patente da semaglutida — princípio ativo do Ozempic — expirou no Brasil, abrindo caminho para versões genéricas nacionais. O resultado: o acesso ao medicamento deve se expandir exponencialmente, e com ele, os efeitos sobre o consumo.


O que os dados mostram de concreto

A pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada com mais de mil famílias brasileiras em fevereiro de 2026, é reveladora. Em 8 de cada 10 domicílios com usuários das canetas, os moradores relataram redução do apetite após o início do uso. Mas o impacto vai muito além da balança:

56% dos lares com usuários de GLP-1 relataram redução nos pedidos de delivery e fast food. 47% diminuíram a frequência de ida a restaurantes. E uma pesquisa separada, citada pelo Itaú BBA e baseada em 150 mil famílias, mostrou que os domicílios com usuários desses medicamentos reduziram em 5,3% os gastos com supermercado nos primeiros seis meses de tratamento — com as maiores quedas em produtos com alto teor calórico, açúcar e gordura.


Quem está perdendo e quem está ganhando

A indústria de alimentos ultraprocessados está em alerta. O JPMorgan estima que o avanço global dos GLP-1 pode eliminar entre 30 e 55 bilhões de dólares em vendas anuais do setor de alimentos e bebidas até 2030. Levantamentos da consultoria Bernstein indicam que a frequência de visitas a restaurantes entre usuários pode cair até 45%, dependendo do tipo de refeição. O jantar em redes de fast-food é o mais impactado.

Em contrapartida, crescem os produtos com alta densidade proteica, fibras, iogurtes, frutas e barras nutricionais. Os supermercados já ampliam suas áreas de produtos frescos e orgânicos, enquanto grandes redes farmacêuticas como RD Saúde e Pague Menos devem ter os GLP-1 respondendo por até 20% de sua receita até 2030 — ante os 8% atuais.


O detalhe mais curioso: o Ozempic está mudando até o guarda-roupa

Uma pesquisa da PwC revelou que usuários de GLP-1 que perdem peso de forma consistente tendem a aumentar significativamente os gastos com roupas — especialmente em lojas físicas, onde precisam experimentar para reavaliar o tamanho. Isso está forçando varejistas de vestuário a repensarem suas projeções de demanda por tamanhos, já que a distribuição entre eles começa a mudar em velocidade inédita.


E o consumo de álcool?

Estudos indicam redução no consumo de bebidas alcoólicas entre os usuários — efeito relacionado tanto à menor liberação de dopamina quanto a efeitos colaterais como náusea. Cervejarias e produtoras de bebidas já monitoram o fenômeno com atenção.


💡 O dado que resume tudo: adultos que usam remédios GLP-1 consomem, em média, 21% menos calorias e gastam quase um terço a menos em compras de supermercado, segundo a KPMG. Um único medicamento está redesenhando, silenciosamente, o que o Brasil coloca no carrinho — e isso é apenas o começo, já que os genéricos nacionais devem chegar às farmácias ainda em 2026 a preços muito mais acessíveis.

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