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Diário de Notícias

DN.

Oposição a Lula planeja viagem à Venezuela para abrir diálogo com governo Delcy

A oposição ao governo Lula conseguiu aprovar na Câmara dos Deputados uma viagem parlamentar a Caracas, na Venezuela. O objetivo da visita é estabelecer canais com o governo interino de Delcy Rodríguez e abrir espaço para empresas brasileiras voltarem ao mercado do país vizinho.

A viagem ocorre em meio à abertura econômica e política promovida pela sucessora do ditador Nicolás Maduro, capturado em uma operação especial do Exército americano em janeiro. Sob tutela de Donald Trump, a então vice-presidente chavista, agora no poder, iniciou uma onda de reformas.

Delcy promoveu a libertação parcial de presos políticos e uma lei de anistia ainda criticada pela sociedade civil, propôs a liberalização do setor do petróleo e recente reforma da mineração.

O objetivo de Delcy é atrair capital estrangeiro e dinamizar a economia, bem como promover uma acomodação política do grupo chavista que compôs com Washington e permaneceu no poder. Segundo observadores diplomáticos em Caracas, no entanto, há discordâncias entre os herdeiros do espólio chavista sobre como se dará a transição.

O deputado Eduardo Pazuello (PL-RJ), general da reserva do Exército e ex-ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro, lidera a organização da viagem. Ele afirmou na Câmara que pretende buscar interlocução de alto nível. O deputado citou como exemplo que, em março, Delcy Rodríguez recebeu um comissão de senadores dos EUA.

"Não tem como deixar o Brasil de fora da reconstrução da Venezuela. É um absurdo a gente não estar falando institucionalmente disso. Resolve a situação econômica do nosso País se a gente entrar de cabeça na reconstrução", disse o deputado, segundo quem ainda não está definido se empresários nacionais vão ou não acompanhar a viagem. "É abrir os canais oficialmente. Por que o governo não faz?"

Interesses econômicos

Um dos principais grupos empresariais brasileiros com interesses na Venezuela é o J&F, liderado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Joesley, principal rosto do grupo, já estive em Caracas e conversou com Delcy em janeiro. Joesley também fez um apelo a Maduro no fim de 2025, antes de o ditador ser preso.

Empresas do grupo estão presentes na Venezuela e prospectam oportunidades de negócios nos setores de petróleo, gás e energia, além de alimentos. A Fluxus, comprada pelo grupo, teria interesse na exploração de poços de petróleo.

A Âmbar Energia foi autorizada a fazer a importação de energia elétrica de Guri. A JBS já conduziu negócios no setor de alimentos.

Desde a queda de Maduro, a capital venezuelana tem sido destino de diversas visitas empresariais, políticas e diplomáticas, de americanos e europeus, assim como de colombianos. Para eles, uma missão brasileira é oportuna pelo momento de abertura. Houve um afluxo nas últimas semanas, com uma espécie de normalização e retomada das conexões aéreas e sinalizações positivas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

Energia hidrelétrica

Pazuello é ex-comandante da Operação Acolhida, em Roraima, Estado fronteiriço que tem vínculos diretos com a Venezuela e depende da energia gerada no país vizinho. No ano passado, o Brasil voltou a comprar energia gerada pela hidrelétrica de Guri, após seis anos, para abastecer a demanda da região Norte. A operação recebe no Brasil desde 2018 imigrantes venezuelanos.

O deputado diz que a agenda vai ser construída em parceria com as chancelarias e que deseja encontrar uma data para a missão ainda no primeiro semestre, antes das eleições.

"A Venezuela é um parceiro que nós não podemos abrir mão. Principalmente para o Estado de Roraima, para o Amazonas e o Norte de nosso País. Isso não pode ficar por conta de interlocutores sei lá de que nível. A ida da Comissão de Minas e Energia e da Comissão de Relações Exteriores para tratar em alto nível com a Venezuela, levando nossas possibilidades e o que temos de bom em setores produtivos, principalmente de petróleo, com nossa expertise, é uma oportunidade de trabalhar", afirmou o ex-ministro.

No requerimento para que a Câmara custeie a missão oficial, o deputado disse que pretende manter contatos com o Palácio Miraflores e com a Assembleia Nacional. Ele citou que a visita deve ter três eixos:

- Comércio Bilateral: Identificar oportunidades de expansão das exportações brasileiras e a normalização de fluxos comerciais que beneficiem o setor produtivo nacional.

- Integração Energética (Hidroelétrica de Guri): Acompanhar os protocolos de retomada da importação de energia elétrica de Guri para o estado de Roraima, visando garantir segurança energética e redução de custos para a região Norte.

- Cooperação Regional na Amazônia: Discutir mecanismos de preservação ambiental, segurança fronteiriça e desenvolvimento sustentável no bioma amazônico compartilhado.

Ele criticou a falta de atuação da diplomacia de Lula. O Itamaraty ainda não foi acionado para prestar apoio à missão. A reportagem apurou que o setor comercial e a embaixada em Caracas monitoram oportunidades de fomentar a inserção de empresas no país.

Pazuello disse que a missão é aberta a todos os espectros políticos. Ainda não houve, porém, formalização de deputados interessados em integrar a comitiva, segundo a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (Creden). Tampouco definição de data. O requerimento foi aprovado no dia 8 de abril prevê a participação de deputados também da Comissão de Minas e Energia.

Conforme a Câmara, outro integrante da viagem seria o deputado Fausto Pinato (PP-SP), de perfil independente. Além dele e do próprio Pazuello, a proposta de constituir a missão parlamentar a Caracas foi subscrita por um grupo de bolsonaristas: Carla Dickson (União-RN), General Girão (PL-RN), Gustavo Gayer (PL-GO) e Sargento Fahur (PL-PR).

Desde a reabertura da embaixada brasileira, em 2023, nenhuma delegação da Câmara ou do Senado fez visitas a Caracas, exceto viagens pontuais de parlamentares sozinhos. Em 2019, congressistas do grupo bolsonarista visitaram a fronteira entre Pacaraima (RR) e Santa Elena de Uairén.

O senador Chico Rodrigues (PSB-RR), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Venezuela, esteve no país em 2022 e em 2024. Na última visita, atuou como observador internacional por ocasião da eleição fraudada por Maduro.

Viagem frustrada em 2015

Se confirmada, a missão da oposição será a primeira desde que uma comitiva de senadores opositores brasileiros viajou a Caracas, em junho de 2015, e passou por momentos de tensão com autoridades chavistas e militantes.

Eles foram recebidos, na ocasião, pela líder oposicionista María Corina Machado. Os aliados de Maduro hostilizaram os senadores, que passaram poucas horas em Caracas. A van que os transportava foi apedrejada e bloqueada no trânsito, tendo que retornar ao aeroporto.

Naquela ocasião, a missão tinha por objetivo também a visita a presos políticos, o que foi interpretado como ingerência pelo chavismo. A delegação era encabeçada, entre outros, pelos senadores tucanos Aécio Neves (MG) e Aloysio Nunes Ferreira (SP), que viria a ser chanceler no govenro Michel Temer, além do atual pré-candidato a presidente pelo PSD Ronaldo Caiado, então senador goiano no Democratas.

Eles tiveram que pedir socorro ao ministro Mauro Vieira, também chanceler à época, no governo Dilma Rousseff. Dias depois, senadores da base do governo Dilma fizeram outra viagem a Caracas, a bordo de uma aeronave da Força Aérea Brasileira.

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