Com uso de gás e cassetetes, a Polícia Militar retirou no domingo, 10, alunos que ocupavam a Reitoria da Universidade de São Paulo (USP) desde quinta-feira. De acordo com o Diretório Central dos Estudantes (DCE), dezenas de universitários ficaram feridos e quatro foram detidos por dano ao patrimônio - e liberados posteriormente. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) negou o registro de feridos.
Policiais seguiam no local no domingo durante o dia e os manifestantes planejavam se reunir para decidir as próximas ações.
Em nota, a USP lamentou o episódio e informou que a ação da PM não foi informada previamente.
Como foi
Segundo registros de estudantes nas redes sociais, a ação policial aconteceu por volta das 4h15. "Com escudos, cassetetes, bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, a polícia deixou dezenas de estudantes feridos", disse o DCE, que apontou ainda a formação de um "corredor polonês" pelos PMs para espancar alunos.
Imagens do confronto foram colocadas nas redes sociais.
A SSP confirmou a ação de cerca de 50 policiais, mas rejeitou uso de violência incompatível com a situação. "A Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas."
A reportagem do Estadão esteve na USP na manhã do domingo. Os cartazes e barracas permaneciam no local, sob vigilância policial, pois podem passar por perícia.
A SSP indicou que uma vistoria inicial do espaço "constatou os danos ao patrimônio público, entre eles a derrubada do portão de acesso, portas de vidro quebradas, carteiras escolares danificadas, mesas avariadas e danos à catraca de entrada". "No local, também foram apreendidos entorpecentes, armas brancas e objetos contundentes, como facas, canivetes, estiletes, bastões e porretes", acrescentou.
Quatro estudantes dos cursos de Biologia, Filosofia e Artes Cênicas foram detidos e levados para o 7.° DP, mas já foram liberados. Cinco alunos foram encaminhados ao hospital após a ação - um deles teve o ombro deslocado e outra estudante teve o braço quebrado, além de um aluno que teve escoriações leves, de acordo com o DCE.
Outros dois universitários passavam por exames em hospitais. O Diretório também disse que os estudantes se renderam e disseram aos PMs que iriam sair do saguão da Reitoria, mas a polícia avançou mesmo assim.
"A ação, de responsabilidade do reitor Aluísio Segurado e de seu chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas, deve ser profundamente repudiada por toda a comunidade universitária. Escolheram ignorar as reivindicações e reprimir alunos e alunas que sustentam cotidianamente o ensino, a pesquisa e a extensão dentro da universidade, tudo isso em pleno Dia das Mães", diz um segundo pronunciamento do DCE.
Para entender
Até o momento, 104 cursos aderiram à greve. Liderado pelo DCE, o movimento começou inicialmente em apoio a uma mobilização de servidores, que pediam extensão de uma gratificação dada aos professores. A Reitoria aceitou a pauta dos servidores e ocorreu o fim da paralisação, mas os estudantes decidiram manter a greve e passaram a concentrar esforços nas próprias reivindicações.
A principal demanda é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), que atualmente oferece benefícios entre R$ 335 para estudantes residentes em moradia estudantil e R$ 885 para auxílio integral.
A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Dessa forma, o auxílio integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial para estudantes com moradia subiria para R$ 340.
A proposta, no entanto, é considerada insuficiente pelos estudantes, que defendem um reajuste para R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista.
A Reitoria abriu três rodadas de negociação com os estudantes, mas, diante da rejeição da proposta apresentada, decidiu encerrar unilateralmente as conversas, causando insatisfação entre os grevistas. "A Reitoria segue aberta a um novo ciclo de diálogo com a finalidade de consolidar o que já foi encaminhado nas reuniões com a representação estudantil", disse a USP no domingo.
Reações
A invasão, como forma de negociar, já havia sido alvo de repúdio de diversos grupos, incluindo a diretoria do Direito e 67 professores da Medicina. No domingo, o Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da USP divulgou nota em que repudiou a ação policial, chamando-a de "atentado ao estado de direito" e indagou as razões da intervenção sem ordem judicial.
Outros institutos como a Faculdade de Saúde Pública, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o Instituto de Psicologia e a Associação de Docentes também manifestaram apoio aos estudantes e repúdio à ação policial.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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