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Quem foi Toni Morrison, escritora nascida 95 anos atrás, e o que sua obra nos ensina ainda hoje

Celebrar o nascimento de Toni Morrison, neste 18 de fevereiro, é revisitar a obra de uma das vozes mais importantes da literatura do século 20 e perguntar o que ainda permanece vivo em seus livros. Autora de romances como Amada e O Olho Mais Azul, ela reescreveu a história americana a partir das margens, dando voz a personagens que por séculos foram silenciados.

Primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993, Toni Morrison colocou no centro da ficção experiências, memórias e silêncios da população negra dos Estados Unidos. Com isso, a autora construiu uma obra que atravessa temas como racismo, pertencimento, violência e afeto, sempre com uma linguagem poética e ao mesmo tempo simbólica.

A força de sua trajetória também ecoou no Brasil. Em 2006, Toni Morrison participou da 4ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde foi a principal convidada e atraiu grande atenção do público e da crítica. Sua presença marcou a história do evento e reforçou o alcance global de uma autora cuja literatura ultrapassou fronteiras culturais e geográficas.

História

Nascida em 1931, em Ohio, como Chloe Ardelia Wofford, Toni Morrison construiu uma trajetória que ultrapassou os limites da ficção. Formada em Letras pela Howard University e com mestrado pela Cornell University, atuou como editora na Random House, onde foi responsável por publicar e impulsionar vozes fundamentais da literatura negra americana. Em 1993, tornou-se a primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, reconhecimento a uma obra que redefiniu a narrativa dos EUA ao deslocar o centro da história para personagens até então marginalizados.

Toni Morrison morreu em 5 de agosto de 2019, aos 88 anos, em Nova York, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Sua morte foi amplamente lamentada no meio literário e político, com homenagens que ressaltaram não apenas sua importância como romancista, mas também como intelectual pública e editora que abriu caminhos para gerações de escritores negros.

Mesmo após sua partida, sua obra segue no centro do debate sobre memória, identidade e justiça racial. Ela ensinou a olhar para o passado sem simplificações e a reconhecer na memória coletiva uma forma de resistência.

Legado literário

Toni Morrison estreou na literatura em 1970 com O Olho Mais Azul, romance que já anunciava seu projeto estético e político ao retratar a infância de uma menina negra marcada pelo racismo e pela violência.

Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se como uma das grandes vozes da ficção contemporânea com obras como Sula (1973), A Canção de Solomon (1977) e, sobretudo, Amada (1987), romance inspirado em uma história real de escravidão que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer e se tornou seu livro mais conhecido.

Nas décadas seguintes, Toni Morrison seguiu explorando as feridas e complexidades da história americana em títulos como Jazz, Paraíso e Voltar para Casa, até publicar seu último romance, Deus Ajude Essa Criança, uma narrativa breve e contundente sobre trauma e identidade que reafirma a força e a atualidade de sua escrita.

Por aqui, suas obras são publicadas pela Companhia das Letras.

O que aprender com Toni Morrison?

Memória é política

A escritora mostrou que lembrar é um ato de resistência. Em Amada, o passado da escravidão não é pano de fundo - é personagem. Sua obra ensina que histórias silenciadas precisam ser contadas para que o presente seja compreendido.

A linguagem importa

Ela acreditava que as palavras podem libertar ou aprisionar. Sua prosa poética, cheia de ritmo e símbolos, revela que escrever não é apenas narrar fatos, mas construir significados. Em seus livros, forma e conteúdo caminham juntos.

Identidade não é simplificação

Seus personagens são complexos, contraditórios, humanos. Toni Morrison rejeitava estereótipos e recusava explicações fáceis sobre raça, gênero ou pertencimento. O aprendizado aqui é claro: pessoas não cabem em rótulos.

Encarando traumas

Seja em O Olho Mais Azul ou em Voltar para Casa, ela não suaviza a dor. Toni Morrison ensinou que olhar para feridas históricas e pessoais é doloroso e ao mesmo tempo necessário.

Contar histórias é um gesto de coragem

Ao colocar mulheres negras no centro de sua narrativa, ampliou o cânone literário. Seu legado lembra que a literatura pode reescrever o mundo.

Para conhecer Toni Morrison

O olho mais azul

Considerado um de seus livros mais impactantes. O primeiro romance da autora conta a história de Pecola Breedlove, uma menina negra que sonha com uma beleza diferente da sua. Negligenciada pelos adultos e maltratada por outras crianças por conta da pele muito escura e do cabelo muito crespo, ela deseja mais do que tudo ter olhos azuis como os das mulheres brancas - e a paz que isso lhe traria. Uma obra que expõe o racismo internalizado e a violência com uma escrita lírica e devastadora.

Sula

Um impactante relato sobre a amizade entre duas mulheres e a pressão que a sociedade exerce sobre o desejo feminino. Sula faz da amizade de duas crianças negras em Ohio a janela para uma reflexão profunda sobre o poder que o passado exerce no ser humano.

Amada

Baseado numa história real, Amada é ambientado em 1873, época em que os Estados Unidos começavam a lidar com as feridas da escravidão abolida havia menos de uma década. Com estilo sinuoso, Toni Morrison constrói uma narrativa complexa, que entrelaça com maestria brutalidade e lirismo. Obra vencedora do Pulitzer em 1988.

Deus Ajude Essa Criança

Um conto de fadas moderno no qual a escritora transforma em alta literatura a temática do racismo na infância e da influência de um trauma antigo na vida de um adulto. Uma leitura direta para quem quer começar pela fase mais recente da autora.

A fonte da autoestima

Neste livro, o leitor encontra uma instrutiva reunião de seus ensaios e discursos mais importantes, como um texto sincero sobre sua busca pelo verdadeiro Martin Luther King Jr. (1929-1968), um elogio ao escritor James Baldwin (1924-1987) e uma oração pelos mortos do 11 de setembro, entre outros.

Recitatif

Último livro da autora publicado no Brasil, Recitatif é um conto único que retrata a amizade de duas meninas na infância e os conflitos raciais que se impõem a elas quando se reencontram ao longo da vida. Twyla e Roberta se conhecem em um abrigo para crianças onde moram por quatro meses, enquanto esperam suas respectivas mães estarem prontas para cuidar delas novamente. Fora do abrigo e mais velhas, elas se reencontram por acaso em três situações distintas.

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