O cinema brasileiro passou os últimos dois anos vivendo o que parecia ser uma virada definitiva. Em 2025, "Ainda Estou Aqui" ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Em 2026, "O Agente Secreto" chegou à cerimônia com quatro indicações — feito que nenhum filme do país alcançava desde "Cidade de Deus", em 2004. E, no entanto, os números da bilheteria contam uma história muito menos triunfal.
As salas estão indo bem. O problema é o que está sendo exibido nelas.
O mercado cresceu — puxado por Hollywood
Entre janeiro e junho, os cinemas brasileiros arrecadaram R$ 1,35 bilhão, alta de 9,4% sobre os R$ 1,24 bilhão do mesmo período de 2025. Foram 62,4 milhões de ingressos vendidos, avanço de 1,6% sobre os 61,4 milhões do primeiro semestre passado. A recuperação segue lenta em relação ao pré-pandemia, mas é consistente.
O motor foi a nostalgia. "Super Mario Galaxy", "Michael" e "O Diabo Veste Prada 2" apareceram simultaneamente entre as cinco maiores bilheterias do semestre no Brasil e no mundo — sequências de franquias consagradas e cinebiografias musicais, a fórmula que os estúdios têm repetido para atravessar gerações de público de uma vez só.
A participação nacional despencou
O contraste aparece quando se olha para a origem dos filmes. Nas primeiras 14 semanas do ano, das 27,8 milhões de entradas vendidas no país, apenas 1,97 milhão foram para produções brasileiras — 7,1% do total, segundo dados da Ancine e do Filme B. No mesmo período de 2025, o cinema nacional respondia por 26% do público, com 7,9 milhões de espectadores em um total de 30,5 milhões. Na prática, uma queda de cerca de 72% no público das produções brasileiras.
Há ainda um agravante de concentração: "O Agente Secreto" sozinho respondeu por 67% de toda a bilheteria do segmento nacional no período. Ou seja, tirando o filme de Kleber Mendonça Filho da conta, o que resta é um mercado quase invisível.
Parte do debate migrou para a exibição. Vieram a público denúncias de que grandes redes estariam se valendo de brechas na chamada Cota de Tela — a regra que obriga salas a exibir um número mínimo de filmes brasileiros por ano — para cumprir a exigência formalmente, sem dar visibilidade real aos títulos. A discussão sobre horários, número de sessões e permanência em cartaz voltou ao centro da pauta do setor.
O ponto de comparação ajuda a entender: em 2025, "O Auto da Compadecida 2" e "Ainda Estou Aqui" puxaram sozinhos boa parte daquele 26%. Sem um fenômeno popular de escala equivalente no calendário deste ano, a base de sustentação simplesmente sumiu.
O saldo da campanha do "Agente Secreto"
O filme perdeu as quatro estatuetas que disputava na cerimônia de 15 de março. Wagner Moura, primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator, foi superado por Michael B. Jordan, por "Pecadores". Em Melhor Filme Internacional, o vencedor foi o norueguês "Valor Sentimental", interrompendo a sequência aberta por "Ainda Estou Aqui" no ano anterior.
Ainda assim, o balanço da obra é positivo em quase todos os outros indicadores. Em Cannes, no ano passado, levou Melhor Direção e Melhor Ator, além do prêmio da crítica da Fipresci. Rodado com orçamento de R$ 27 milhões, acumulou cerca de US$ 22,5 milhões em bilheteria mundial e quebrou recordes de público em casa — em um thriller político de 161 minutos ambientado no Recife de 1977, sob a ditadura militar.
O cinema brasileiro também teve presença forte no Festival de Berlim deste ano, com dez produções e coproduções. "Rosebush Pruning", de Karim Aïnouz, rodado em inglês, disputou o Urso de Ouro, e "Feito Pipa", de Allan Deberton, levou um Urso de Cristal na mostra Generation Kplus.
O próximo capítulo começa em Gramado
De 12 a 22 de agosto acontece a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, o mais tradicional evento cinematográfico do país e da América Latina. O Palácio dos Festivais volta a ser o centro das atenções do setor — e, em um ano em que o cinema nacional busca reencontrar o público, a vitrine pesa mais do que o troféu.
Detalhe útil para quem quiser ir: as mostras de curtas e longas gaúchos em sessões vespertinas e as reprises matutinas dos longas brasileiros costumam ter entrada gratuita, com ingressos não numerados por ordem de chegada.
O que estreia em agosto
O mês chega cheio, com títulos nacionais e internacionais espalhados por todas as semanas.
Na primeira semana, entre os destaques estão o terror "Insaciável", o filme-concerto "ATEEZ: Light The Way in Cinemas", o drama "Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho" e o documentário "Os Ruminantes", que reconstrói, com entrevistas, imagens de arquivo e documentos do regime militar, a história de "A Hora dos Ruminantes" — um dos projetos mais ambiciosos do cinema brasileiro que nunca chegou às telas.
O dia 13 concentra o maior número de lançamentos do mês: "A Morte de Robin Hood", o live-action de "Blue Lock", "Patrulha Canina: Uma Aventura Dino", além dos nacionais "Honestino", "O Fim da Rua", "Rio de Clarice" e "Ópera – Canção para um Eclipse".
No dia 27 chegam "Coyote vs. Acme", "Minha Filha é um Zumbi", "O Sorveteiro" e "Willow e a Floresta Encantada", entre outros, além do retorno de "Akira" em versão remasterizada em 4K. E o mês fecha, em 30 de agosto, com o relançamento de "Harry Potter e a Pedra Filosofal" nas telonas.
Para o restante do ano, os grandes estúdios reservaram a artilharia pesada: "Homem-Aranha: Um Novo Dia", "Toy Story 5", "A Odisseia", "Duna: Parte Três" e "Vingadores: Doutor Destino" estão entre os títulos que devem sustentar a bilheteria até dezembro.
O que ainda está em aberto é se algum filme brasileiro vai conseguir disputar espaço nesse calendário. O prestígio internacional o país reconquistou — de Cannes a Berlim, de Hollywood às listas de crítica. A parte difícil, agora, é traduzir isso em ingresso vendido na sessão de sábado à noite.
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