Há poucos anos, Allison Posner mal se envolvia com política. Hoje, aos 42 anos, a mãe de dois filhos residente em Maplewood, Nova Jersey (EUA), distribui alimentos e fraldas para famílias de imigrantes em frente a um centro de detenção próximo.
Entre a busca dos filhos na escola e as consultas no ortodontista, ela agita cartazes em viadutos de rodovias. E, neste fim de semana, estará na marcha "No Kings" (Sem Reis), ao lado do marido, dos filhos e de milhares de outras pessoas convencidas de que o presidente Donald Trump representa uma ameaça direta à democracia americana.
"As pessoas nos subúrbios estão definitivamente se radicalizando", afirmou Posner, que trabalha como atriz freelancer.
Uma parte crescente de cidadãos preocupados que vivem em comunidades suburbanas pelos Estados Unidos - locais outrora conhecidos pela moderação política ou até pelo conservadorismo - está cada vez mais posicionada na linha de frente da resistência antiTrump.
Com o presidente republicano há mais de um ano em seu segundo mandato, as chamadas "soccer moms" (mães de classe média) estão se tornando ativistas de fato, ocupando suas ruas impecáveis para lutar contra Trump e seus aliados.
Impacto eleitoral e partidário
A guinada à esquerda pode custar aos republicanos o controle do Congresso nos dois últimos anos de mandato do presidente. O movimento também pode remodelar o Partido Democrata ao elevar uma nova safra de candidatos progressistas combativos, encorajados a enfrentar o governo Trump de forma mais agressiva do que a ala tradicional do partido preferiria.
A Indivisible, organização ativista que lidera a terceira rodada de protestos "No Kings" neste fim de semana, informou que cerca de dois terços das mais de três mil manifestações planejadas ocorrerão fora das áreas urbanas. No total, espera-se que mais de 9 milhões de pessoas participem em todo o país, no que os líderes preveem ser o maior dia de protestos na história dos Estados Unidos.
"Estaremos em todos os lugares", declarou Ezra Levin, cofundador da Indivisible.
Segundo os organizadores, as adesões têm sido especialmente entusiasmadas em áreas suburbanas com disputas acirradas pelo Congresso, como Scottsdale (Arizona), Langhorne (Pensilvânia), East Cobb (Geórgia) e aqui, no 11º Distrito do norte de Nova Jersey, que terá uma eleição especial em 16 de abril.
Os eleitores democratas escolheram, no mês passado, Analilia Mejia - ex-diretora política do senador independente Bernie Sanders - como candidata para substituir Mikie Sherrill, a democrata mais moderada que foi eleita recentemente como governadora de Nova Jersey.
Posner diz estar animada por ter uma "lutadora" representando seu distrito, alguém capaz de canalizar a indignação que ela testemunha diariamente. "Vejo pessoas da associação de pais ou da vizinhança que nunca participariam de um protesto no passado perguntando como podem se envolver", disse Posner. "Esta luta não é de outras pessoas. É a nossa luta."
'É como se nosso cabelo estivesse pegando fogo'
Por décadas, subúrbios ricos como os do norte de Nova Jersey ajudaram a eleger republicanos que se adequavam aos seus distritos: voltados para os negócios, culturalmente moderados e desinteressados em disputas ideológicas. Isso começou a mudar na era Trump.
Em todo o país, eleitores suburbanos com ensino superior recuaram diante do estilo político de Trump. Eles migraram bruscamente para os democratas nas eleições de meio de mandato de 2018 e nas presidenciais seguintes. Distritos como o 11º de Nova Jersey, outrora redutos republicanos, tornaram-se parte de uma nova coalizão liberal em lugares que eram, até pouco tempo, politicamente competitivos.
Mesmo em Summit, um dos subúrbios mais ricos do país, Jeff Naiman sente como se vivesse em um "pesadelo autoritário" criado por Trump. "É como se nosso cabelo estivesse pegando fogo", diz Naiman, radiologista de 59 anos que lidera o núcleo local da Indivisible. "Nosso país está sendo despedaçado."
Ele apoia Mejia e não tem dúvidas de que ela vencerá a eleição especial do próximo mês - e novamente a eleição geral em novembro. "Neste ambiente, acho que as chances de ela perder a eleição geral são basicamente zero."
O perfil da candidata
Mejia, progressista apoiada por Sanders e pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, emergiu de uma primária democrata lotada, vencendo candidatos mais moderados. Crítica da guerra de Israel em Gaza, ela defende a abolição do ICE (serviço de imigração dos EUA) e apoia o "Medicare for All" (saúde pública universal).
"Um código postal não protege ninguém do avanço do autoritarismo violento", disse ela. Mejia ainda se descreve como "soccer mom", embora críticos republicanos a acusem de tentar suavizar sua imagem de ativista.
Ela também se defendeu de acusações de antissemitismo por sua posição sobre Israel, a quem acusou de cometer genocídio em Gaza. "Dizer que os palestinos têm direitos, assim como os judeus e israelenses, não é antissemitismo, é humanismo", afirmou. "Sou uma afrolatina criando dois filhos negros na América. Eu sei que a 'outrização' mata."
O equilíbrio Republicano
Joe Hathaway, o indicado republicano para a eleição especial, espera convencer os eleitores de que Mejia é radical demais. No entanto, republicanos suburbanos enfrentam ventos contrários vindos do líder de seu próprio partido.
Hathaway, que admitiu ter votado em Trump três vezes, tentou se distanciar em alguns pontos, destacando que "o distrito vem primeiro que o presidente". Ele apoia as políticas econômicas de Trump, mas defende que o Congresso precisa reafirmar seu papel como freio ao Executivo, que, segundo ele, está "testando os limites" da Constituição.
A mudança demográfica
Conforme o instituto Gallup, os americanos suburbanos têm se afastado gradualmente dos republicanos nos últimos 15 anos. Em 2020, Joe Biden conquistou 54% dos eleitores suburbanos, contra 44% de Trump, segundo a AP VoteCast.
Os subúrbios também se tornaram mais diversos e escolarizados. Tanto nas últimas duas eleições presidenciais, dados mostram que eleitores suburbanos com ensino superior e não brancos foram muito mais propensos a apoiar candidatos democratas. (Associated Press)
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