0

Diário de Notícias

DN.

'Treta' retorna mais insana e existencialista na 2ª temporada

Quando criou a primeira temporada de Treta, Sonny Lee partiu de uma leve altercação de trânsito vivida por ele mesmo para dar vida à história protagonizada por Ali Wong e Steven Yeun - e viu sua criação se tornar um fenômeno global. Oito prêmios Emmy e três Globos de Ouro depois, o diretor e roteirista se inspira em algo um pouco mais íntimo para trabalhar a aguardada segunda temporada: uma discussão acalorada que ouviu vindo da casa de vizinhos.

Foi observando as múltiplas reações que o episódio despertou nas pessoas que ouviram a discussão que Sonny teve a ideia de incluir uma briga semelhante como o motor de sua nova temporada. Ele mudou o cenário para um local de trabalho e chegou ao dilema no centro da história: o conflito de gerações entre os Millennials e a geração Z.

Desta vez, a série da Netflix retorna acompanhando dois casais com idades e condições de vida diferentes para debater assuntos que começam no choque geracional e chegam ao potencial de corrosão do poder e do dinheiro.

Em oito episódios, a nova temporada mantém o ritmo frenético que conquistou o público no ano anterior, mas aprofunda os temas e as reflexões que provoca sobre amor, companheirismo, identidade e o quanto tudo isso pode ser manipulado pelas ferramentas do capitalismo.

"Eu amei a primeira temporada, e isso já despertou meu interesse", conta Oscar Isaac, em entrevista ao Estadão. "Conversando com Sonny, tivemos longas chamadas por Zoom em que conseguimos nos conhecer melhor e entender o que nos interessava dentro do que ele queria explorar com essas tretas entre gerações e na forma como o amor meio que se modifica e se transforma."

De fato, a grande comoção da segunda temporada parte não só da diferença de idade entre os dois casais protagonistas, mas também das diferentes compreensões sobre o amor vindas em momentos diferentes da vida.

De um lado desta história estão os "velhos millennials" Joshua (Isaac) e Lindsay (Carey Mulligan), o gerente geral de um country clube de elite e sua esposa, uma designer de interiores. Do outro estão os "gen z" Austin (Charles Melton) e Ashley (Cailee Spaeny), ela uma funcionária que trabalha no carrinho de bebidas e ele um personal trainer freelancer que faz bicos para o clube. Apaixonados e passando por dificuldades financeiras, os dois pombinhos testemunham um bate-boca intenso entre o primeiro casal e veem nisso uma oportunidade para mudar de vida.

"A primeira temporada se transformou em um fenômeno cultural, e nós queríamos estar envolvidos na segunda porque era muito empolgante pensar no quanto Sonny era capaz de compreender o momento em que vivemos, e em qual seria sua nova ideia", conta Mulligan, refletindo sobre a pressão de estrelar a segunda temporada de uma série tão premiada na primeira.

"Quando pensamos em premiações, tudo tem uma certa expectativa. Então, qualquer projeto em que você se envolver terá essa ideia do que as pessoas vão esperar. Como atores, a provável ruína está em se preocupar demais com isso. Tivemos muito apoio de Ali Wong e Steven Yeun, e parecia que eles estavam passando o bastão para nós de uma forma muito doce. Isso ajudou a dissipar a preocupação."

Casal fascinante perto da autodestruição

Para Isaac e Mulligan, no entanto, interpretar um casal passa longe de ser uma novidade. Esta é a terceira vez que os dois dividem cena nestas condições, após Drive (2011) e Inside Llewyn Davis (2013). Mas há um grande diferencial em Treta. Ao contrário do clima de lua de mel vivido por Austin e Ashley - ao menos nos primeiros episódios -, Joshua e Lindsay estão em um momento conturbado do casamento.

Os dois interpretam, numa espécie de dança bem coreografada, um casal fascinante perto da autodestruição. Com os sentimentos em xeque, vai se comprometendo também a confiança que depositavam no outro, desgastada por conflitos diários, problemas monetários e datas esquecidas.

São essas rusgas, pequenas no início, que vão formando um rombo cada vez maior à medida que as tensões se acumulam, e fazem o casamento de Joshua e Lindsay se transformar em uma espécie de espelho para o outro casal. Quando Austin e Ashley decidem usar o flagra comprometedor como uma vantagem para resolver seus próprios problemas e, basicamente, conseguir ter um plano de saúde, a ambição faz com que vejam novos lados não tão agradáveis um do outro.

Neste sentido, Melton acredita que seu personagem guarda a complexidade de alguém preso entre fazer o certo e fazer o que é bom - um pêndulo moral constante que o persegue durante todos os oito episódios.

"O que era empolgante para mim na série era a voz singular do Sonny, e o quanto ele trata de temas universais, como a complexidade do que é ser humano, identidade em classes sociais e tantas outras coisas", reflete o ator de 35 anos, destaque do filme Segredos de um Escândalo (2023).

"Com o Austin, foi empolgante ver alguém navegar pela escolha de fazer algo certo em oposição a fazer a coisa boa", analisa. "Na maioria das vezes, era um forte contraste entre esses dois lados para ele, por causa da sinceridade do Austin e do fato de ele se sentir, internamente, uma pessoa inútil."

Equilibrando a balança

Nascido na Coreia do Sul e criado entre países - seus pais se mudaram para os Estados Unidos quando ele tinha nove meses, e depois voltaram ao país asiático quando ele estava entre o terceiro e o quinto anos da escola -, Lee Sung Jin, ou Sonny Lee, confessa que foi questionado pelo público quando saíram as primeiras informações a respeito da segunda temporada de Treta por uma suposta ausência de discussões de identidade racial asiática.

Do elenco principal, apenas Melton é americano-asiático, uma diferença notável em relação à primeira temporada. Mas o que os primeiros materiais promocionais escondiam é que há todo um arco do segundo ano que envolve diretamente personagens asiáticos. Sem revelar spoiler, é seguro dizer que é deles que depende o fio condutor que transforma a luta de egos entre dois casais em uma briga de cobras.

Isso porque, em meio a muitos favores e coerção, os dois casais competem pela aprovação da dona bilionária desse clube elitista, a Senhora Park (Youn Yuh-jung), uma mulher controladora que também precisa lidar com um escândalo envolvendo seu segundo marido, o Dr. Kim (Song Kang-ho).

Sonny também tirou a ideia de situar a história no clube de experiências que teve na vida, mas admite que o processo para transformar esses momentos da realidade em roteiro não existiria se ele trabalhasse só.

"São muitas conversas com os roteiristas, os atores, outros diretores e assistentes. Eles são essenciais ao que acontece na temporada", diz, sem preciosismo ao compartilhar os créditos. "São conversas constantes e um processo de perseguir uma sensação. Depois de ter feito duas temporadas, eu acho que estou começando a compreender melhor o que é essa voz intuitiva na minha cabeça."

O criador compreende que parte do mérito da série é sua capacidade de navegar entre muitos tons sem perder o ritmo. Ao mesmo tempo em que há algo de absurdo e sombrio nos níveis subterrâneos que esses personagens atingem em busca de um lugar ao sol, também existem momentos de humor, drama e romance. Muitas vezes, tudo isso pode ser percebido em uma única cena - e depende de que muitas coisas deem certo para que nada soe brusco ou exagerado.

"É tentativa e erro", admite Sonny, explicando que tudo vai se desenhando aos poucos. "Às vezes o primeiro rascunho é engraçado ou bobo demais, e então ensaiamos e chegamos a um toque mais realista. Mas aí vamos filmar e deixamos um pouco dramático demais, e então precisamos pensar em algo engraçado", recorda. "Muitas vezes nem percebemos o que está acontecendo até a pós-produção, que é quando contamos com Finneas [O'Connell, compositor] para uma trilha sonora que possa reforçar algumas coisas que deixamos passar."

Para o autor, o único motivo de "ter algo para mostrar" é o fato de haver um prazo. Caso contrário, ele poderia ficar eternamente modificando o que já escreveu. "Essa busca pelo tom perfeito é algo que poderia ser um processo eterno se me deixassem ficar sozinho em um quarto", brinca.

Série expõe a fragilidade das narrativas que cada geração constrói para justificar suas escolhas

No fim das contas, a segunda temporada de Treta evolui o que a primeira elaborou muito bem, e está mais interessada nas consequências silenciosas que as brigas deixam para trás. Ao deslocar o conflito para um ambiente em que afeto, dinheiro e status se entrelaçam, a série expõe a fragilidade das narrativas que cada geração constrói para justificar suas escolhas.

Entre ressentimentos acumulados e desejos mal resolvidos, o que emerge não é um retrato revelador de personagens que, à sua maneira, tentam sobreviver às pressões de um mundo que cobra desempenho a todo custo.

Talvez isso seja particularmente perceptível na jornada das duas personagens femininas, que buscam, dentro de suas próprias condições, um ideal de perfeição que parece cada vez mais inatingível. "Parte do que move Lindsay é o fato de ela ver o casamento ir chegando ao fim, e o medo que ela sente de potencialmente ter que começar tudo de novo", confidencia Mulligan.

"Ela procura por rotas alternativas, mas todas parecem exigir que ela se reinvente e faça o relógio voltar. Esse é um grande tema para nós. Tudo o que é necessário é um pouco de autoaceitação, mas, em vez disso, é como se fosse mais fácil consertar alguma coisa externa do que encarar os conflitos internos."

É nesse desconforto (muito mais do que nas explosões) que Treta encontra sua permanência.

Onde assistir

Todos os episódios de Treta já estão disponíveis na Netflix.

0 Comentário(s)

Faça login para comentar.