A Baía de Guanabara, uma das mais poluídas do Brasil, está escondendo um segredo que deixou pesquisadores de queixo caído: tartarugas marinhas ameaçadas de extinção estão voltando para lá — e ninguém sabe exatamente por quê.
O reaparecimento de tartarugas-cabeçudas na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, tem chamado a atenção de pesquisadores e pescadores artesanais e pode revelar novas informações sobre o comportamento da espécie ameaçada de extinção. Registros mais frequentes desses animais no interior da baía passaram a ser documentados desde 2024 pelo Projeto Aruanã, iniciativa voltada à conservação de tartarugas marinhas no litoral fluminense.
O que torna o caso ainda mais curioso é o perfil do animal. A tartaruga-cabeçuda costuma viver em áreas oceânicas e se alimenta principalmente de crustáceos como camarões e lagostas — ou seja, não é uma espécie de águas internas como a Baía de Guanabara. Por isso, encontrá-las ali é considerado um fato inédito do ponto de vista científico.
E tem um personagem especial no meio dessa história. O tema ganhou repercussão em 2025 com o caso de Jorge, uma tartaruga-cabeçuda macho que viveu cerca de 40 anos em cativeiro na Argentina e foi devolvida ao mar após processo de reabilitação. Monitorado por satélite, o animal surpreendeu pesquisadores ao entrar na Baía de Guanabara poucos meses depois da soltura. Uma tartaruga que passou quase quatro décadas presa escolheu justamente a baía mais famosa do Rio como destino.
Os cientistas ainda estão tentando entender o fenômeno. A coordenadora do Projeto Aruanã, bióloga Suzana Guimarães, afirma que não é possível ainda relacionar diretamente o reaparecimento a uma melhora ambiental da baía, mas considera que os registros revelam a capacidade de recuperação da região: "A Baía de Guanabara, apesar da grande poluição ainda presente, é resiliente e permanece abrigando uma enorme biodiversidade."
Os riscos, porém, são reais. A bióloga Larissa Araujo alerta que os animais enfrentam contato constante com águas poluídas, risco de colisões com embarcações, ingestão de resíduos sólidos e captura acidental em redes de pesca.
Para tentar decifrar o mistério, o Projeto Aruanã prepara uma nova etapa de monitoramento com transmissores via satélite, com o objetivo de identificar as rotas, o tempo de permanência e as áreas preferenciais das tartarugas dentro da baía.
Uma baía poluída, uma tartaruga que cruzou o Atlântico depois de 40 anos presa e um fenômeno que a ciência ainda não consegue explicar. A natureza, como sempre, surpreende.
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