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Lázaro Ramos diz que papel em 'A Nobreza do Amor' é catártico: 'É ótimo poder dizer desaforos'

Lázaro Ramos não sofre para dar vida a seu primeiro vilão em telenovelas. Lazinho está, na verdade, se divertindo gravando as cenas de Jendal em A Nobreza do Amor, a nova novela das seis da TV Globo. "É ótimo poder dizer uns desaforos para as pessoas que eu não diria na vida real", brinca.

Na trama criada e escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. que estreou na segunda-feira, 16, Ramos será um sujeito manipulador que conquista o reino de Batanga, na África, por meio de um golpe. Passada nos anos 1920, a história fictícia vai unir o continente africano ao brasileiro por meio da ancestralidade.

No personagem, é a perspectiva do novo que encanta Ramos. "O que me surpreendeu foi eu nunca ter desejado fazer vilão. Sempre preferi heróis e anti-heróis", afirma. Renovada também está a paixão do ator pela profissão ao alinhá-la às suas ambições como ator e diretor. Um processo que ocorreu depois de ele superar o burnout.

Autor de 11 livros, como os mais recentes Na Nossa Pele e A Rainha da Rua Paissandu - este último, sobre e assinado com a atriz Ruth de Souza (1921-2019) -, Ramos sabe muito bem como colocar suas palavras - ditas ou escritas sempre com clareza e ritmo, sem desvios.

Espelho para a nova geração de atores, assim como Ruth foi para a dele, sabe que, inevitavelmente, terá que falar sobre racismo, sobretudo nas artes. A opção é por ser compreendido, e não usado. "Fico incomodado quando tentam reduzir algo tão complexo em frases clichês. Minha tentativa é sempre a de ampliar o assunto. Não vou dizer a 'frasezinha' que vai caber em um tuíte", diz.

Confira a entrevista, feita por telefone, às vésperas da estreia da novela e da viagem de Lázaro a Los Angeles para prestigiar o amigo Wagner Moura no Oscar.

A literatura teve papel fundamental no movimento do povo negro em retomar sua própria narrativa nos últimos anos. Em termos de Brasil, por exemplo, redescobriu-se Carolina Maria de Jesus, valorizou-se Conceição Evaristo, Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, furou bolhas, Angela Davis se tornou popular. Como esse movimento o afetou?

Admiro esses escritores não apenas nas páginas nos livros, mas também o posicionamento público deles. Esse movimento é o resultado de uma luta antiga que se fortalece com o uso dos novos meios de comunicação. A presença desses nomes nas redes sociais é algo exemplar. Ao mesmo tempo, há um público novo, formado nas universidades, que chega ao meio literário. Uma nova geração que compreende que sua voz precisa ser escutada e que é importante celebrar quem veio antes. Como artista, me sinto beneficiado. Me inspira e me tira a sensação de solidão.

Foi esse sentimento que o levou para a literatura?

A literatura sempre fez parte da minha vida. Em um primeiro momento, na Bahia, ligada ao teatro. Eu escrevia, mas não tinha muita coragem de mostrar. Quando eu voltei para Salvador, depois da primeira temporada de [a peça] A Máquina, e estava desempregado, tive coragem de mostrar um texto para um grupo de amigos. Pelo olhar de valorização deles, comecei a escrever. De lá para cá, os tempos mudaram, meus livros começaram a ser bem recebidos. Nas primeiras críticas, os títulos eram sempre assim: "Um ator que escreve". Depois, entenderam que ser ator e escritor são carreiras paralelas para mim, o que me deixou muito feliz.

A proposta de A Nobreza do Amor, segundo os autores, é mostrar a realeza africana, sua beleza e cores. Ou seja, também contar a história sob outro ponto de vista. Como você entende essa trama?

É uma fábula que faltava na televisão brasileira. Fala sobre um reino que conecta o continente africano ao brasileiro. A diversidade de personagens é um dos maiores valores da novela. Tem princesa, rei, rainha, trabalhador rural, sábio, guerreiro. Isso contempla imensamente. Durante muito tempo, os arquétipos oferecidos aos atores negros eram bastante limitados. Além disso tudo, há todo um cuidado com a pesquisa, de tudo o que será mostrado, seja nos cabelos, nos símbolos, nas tintas. Essa novela abre uma porta para uma estética que vai voltar outras vezes à TV.

Jendal é um grande vilão. Foi uma decisão difícil aceitar fazê-lo?

Zero dificuldade. Quero atuar com texto bom, contar história boa. O que me surpreendeu foi eu nunca ter desejado fazer vilão. Sempre preferi heróis e anti-heróis para, talvez, ocupar um espaço. Jendal veio em um bom momento.

Há alguma delícia em ser um vilão?

É maravilhoso! É ótimo poder dizer uns desaforos para as pessoas que eu não diria na vida real. Só tenho que tomar cuidado para não levar para casa, dizer coisas horrorosas para as pessoas no trânsito. Mas, acho que não vai acontecer porque está sendo catártico fazer isso em cena.

Você disse que para interpretar Jendal precisa se desapegar de características suas como ator. O que isso significa exatamente?

Significa que não é um personagem de muitos sorrisos. O tipo de humor que aparece nele não é o que costumo fazer, mais lúdico. É outra energia, outra maneira de falar. Com ele, entro em outro lugar da profissão que gosto bastante: o novo. A novela me dá essa oportunidade. Um processo artesanal, cena após cena, capítulo após capítulo e virada após virada.

É possível trabalhar de forma mais artesanal em um processo tão industrial como o de uma novela?

Todas as vezes que fiz novela, me enchia de outros projetos. Nessa, felizmente, só estou com ela. Meu tempo está dividido entre família e estudar. Tem outro fator: muitas vezes, em algumas produções, você chega em determinado cenário e ensaia quatro ou cinco cenas e, só depois, grava todas. Estamos ensaiando uma e já gravando. Dessa forma, há a possibilidade de se concentrar mais e colocar mais energia na cena.

Já foi ruim estar em uma novela?

Não, sempre tive muito prazer. Na primeira que fiz, Cobras & Lagartos [2006], eu tinha muita insegurança. Lembro da primeira vez em que entrei no estúdio e vi quatro câmeras - no cinema, usamos uma só - e me apavorei. Comecei a suar, não conversava com as pessoas, olhava para a câmera. Após essa primeira tensão, e foi importante a trama dar certo, veio o prazer. É um desafio. Tem uma carga grande de texto para decorar. No meio da novela, já estamos exaustos.

Ao mesmo tempo, em meio a esse susto, com Foguinho de Cobras & Lagartos você viveu seu primeiro sucesso popular.

Até aquele momento, meu desejo era o de fazer filmes para lançar em festivais. Pensava que meu caminho era teatro e determinado tipo de cinema. O Foguinho me ensinou que era possível circular por todos os universos. Comecei a escolher projetos para que o mercado não entendesse que tipo de ator eu era. Fazia uma comédia popular, depois um filme conceitual. Isso foi positivo, pois os convites começaram a chegar bastante variados. Sou extremamente responsável por isso.

Essa percepção de que tipo de ator você é muda ao longo do tempo?

Sim. Agora, por exemplo, está muito mudada. Os projetos que estou apresentando são frutos de eu me apaixonar novamente pela profissão. Até pouco tempo, eu estava só dirigindo e achando que o lugar de ator ia demorar muito para voltar. Não estavam aparecendo projetos desafiadores. Estou me sentindo reestreando. É aquela sensação de quando você faz sua primeira peça de teatro. É legal sentir tudo de novo.

Há uma relação com a cura do burnout, doença que você declarou ter enfrentado?

Sim, no processo terapêutico de cura eu entendi que precisava aprender a dizer não para algumas coisas. Eu precisava encher o pote novamente. Me sentia meio ignorante em determinados assuntos, incapaz de fazer certas coisas. Talvez eu estivesse querendo imitar alguém ou algo que não era onde eu me sentia melhor. Agora, consigo manter todas as ambições, mas entendo que há nessa profissão uma função maior que eu tenho que seguir.

Esse 'não' vale em todos os aspectos da vida? Já é algo consolidado em você?

Com 47 anos já está na hora. Os 'nãos' estão por aí. Valem, por exemplo, para pessoas que queremos tirar de nossas vidas.

No livro que você escreveu com Ruth de Souza, você diz que ela contava algo triste e, logo em seguida, sorria. Esse é o caminho?

De forma nenhuma. O caminho é o autoconhecimento. Chorar é bom. Desabafar é bom. Posicionar-se é bom. Quando você tem a necessidade de sorrir após uma dor, muitas vezes, é para camuflá-la. E há dores que não devem ser mais camufladas. Como sociedade, temos que ter a capacidade de conversar sobre assuntos incômodos. Já que estamos falando sobre saúde mental, maturidade e convivência coletiva, é importante saber disso.

Estamos falando também sobre racismo. Te incomoda ter que responder sempre sobre esse tema?

Eu já entendi como eu gosto de falar sobre racismo. Se eu não quiser falar com você sobre isso, não vou te responder. Às vezes, no jornalismo, querem frases feitas e, então, há tentativas de indução. Eu não me levo por ela. Porque o tema evoluiu. Há pontos que eu aprendi e mudei de ideia, tanto que escrevi a continuação do [livro] A Minha Pele. Fico incomodado quando tentam reduzir algo tão complexo em frases clichês. Minha tentativa é a de sempre ampliar o assunto. Não vou dizer a 'frasezinha' que vai caber em um tuíte. Vou falar o que realmente acho. Isso também faz parte dos 'nãos'.

No longa Feito Pipa, ainda inédito no Brasil, você interpreta o pai homofóbico de um menino queer. O que pode nos adiantar sobre esse longa?

Há relação do neto com a avó, que tem Alzheimer. Os dois personagens gritam por liberdade, pelo direito de ser quem eles são. É um filme que vai comover e encantar as pessoas. Vi isso em Berlim: todas as sessões lotadas. O público ficou para os debates e fez perguntas incríveis. O filme representa muito esse momento que o Brasil está vivendo internacionalmente, com histórias essencialmente brasileiras, com identidade. Estamos viajando o mundo sendo que nós somos. Não estamos tentando obedecer regras de algoritmos ou imitar ninguém.

As crianças acolheram o filme em Berlim, elegendo-o como o melhor do festival. A nova geração está mais aberta e atenta a esses temas?

Não sei avaliar. Para mim é mais fácil e mais importante olhar para como o Allan [Deberton, diretor] fez o filme, as cenas, os diálogos, onde ele colocou a câmera. Ou seja, debater esses temas passa pelos criadores. Falo isso por uma questão de mercado. O streaming, que tem regras específicas, deixa as obras muito engessadas. Você assiste aos filmes e, quando acaba, não lembra bem o nome dos personagens ou da primeira cena. São profissionais não brasileiros que comandam esses processos. Temos que valorizar nossos roteiristas que são desrespeitados nesse mercado.

Você também está na comédia Velhos Bandidos, com Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e Tony Tornado, que estreia em breve. Comédias, sim, têm sempre uma mensagem por trás do riso. Qual é a desse filme?

Esse time de atores de 90 anos roubando um banco? A mensagem é viva a vida! Posso dizer? Uma das melhores comédias nacionais dos últimos tempos. Não tenho a menor dúvida. Filme 'bonzão' para ver na sala de cinema.

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