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Diário de Notícias

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O Brasil entrou na era das três estrelas — e a boa mesa virou motivo de viagem

Até o ano passado, nenhum restaurante do país havia recebido a distinção máxima do Guia Michelin. Em 2026 isso mudou: o Tuju, do chef Ivan Ralston, e o Evvai, de Luiz Filipe Souza, ambos em São Paulo, conquistaram as três estrelas — feito inédito não só no Brasil, mas em toda a América Latina. É a senha para um movimento que já vinha acontecendo: comer deixou de ser um detalhe da viagem e virou o motivo dela.

Ao mesmo tempo, o brasileiro mudou de comportamento à mesa. Sai menos de casa, mas quando sai, quer que valha a pena. Essa equação está redesenhando desde a alta gastronomia até o boteco da esquina. Abaixo, o que visitar e o que esperar.

O topo: onde estão as estrelas

Além das duas casas de três estrelas, o Guia Michelin Rio de Janeiro & São Paulo 2026 manteve três restaurantes com duas estrelas: D.O.M., de Alex Atala, e Maní, ambos em São Paulo; Lasai, de Rafa Costa e Silva, e Oro, de Felipe Bronze, no Rio. Na faixa de uma estrela ficaram 19 endereços, com uma única estreia: o Madame Olympe, do chef Claude Troisgros, no Rio.

A Estrela Verde, que reconhece casas comprometidas com sustentabilidade, foi renovada para Tuju, A Casa do Porco e Corrutela — as três em São Paulo. E a edição trouxe uma novidade que diz muito sobre o momento: a criação de uma categoria dedicada à mixologia, premiando profissionais de bar. O prêmio de Jovem Chef ficou com Pedro Coronha, do Koral, no Rio.

O melhor custo-benefício: a lista que interessa ao bolso

Para quem quer comer bem sem gastar o mês, o selo a procurar é o Bib Gourmand, dado a casas com comida de qualidade a preço acessível. O guia já reúne mais de 40 endereços nessa categoria, a maioria em São Paulo. Entre os que entraram este ano estão Koral, Jiquitaia, Manioca JK, Ping Yang Thai Bar & Food, Tabôa Cozinha Artesanal e Tanit.

Há ainda a lista de Selecionados, com 81 restaurantes aprovados pelos inspetores mas sem estrela — na prática, um catálogo de boas mesas com qualidade consistente e menos pressão sobre a reserva e sobre a conta.

Fora do eixo Rio-São Paulo: Salvador manda bem

O nome que melhor traduz a descentralização da alta cozinha brasileira é o Origem, de Salvador, dos chefs Fabrício Lemos e Lisiane Arouca. A casa aparece em 4º lugar no ranking dos 100 melhores restaurantes do Brasil de 2026 e celebra uma década com o Menu Recôncavo 2.0, que revisita memórias de infância e clássicos baianos. No Latin America's 50 Best Restaurants, o Origem foi o brasileiro mais bem colocado da lista ampliada. Salvador emplaca seis casas entre as cem melhores do país, duas delas no top 10, e o Manga, dos chefs Dante e Kafe Bassi, também figura no ranking latino-americano.

Curitiba tem no Manu, da chef Manu Buffara — eleita melhor chef da América Latina em 2022 —, um menu degustação de base vegetal e foco em sustentabilidade. E São Paulo segue como a cidade com mais representantes no continente, com Kotori, Metzi, Maní, Cepa, D.O.M. e Notiê na lista ampliada, além de A Casa do Porco entre as 50 melhores da América Latina. No Rio, o Oseille estreou no ranking.

Rotas para viajar comendo

Se a ideia é montar uma viagem em torno da comida, algumas rotas se destacam neste ano:

Serra Gaúcha (RS) — É difícil voltar de lá sem uns quilos a mais. Gramado, Canela e Nova Petrópolis representam o lado germânico, com fondues e o café colonial, banquete em que dezenas de iguarias doces e salgadas chegam à mesa de uma vez. Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi puxam o lado italiano, com galetos e polentas. É também o principal polo de enoturismo do país, a única região com selo de Denominação de Origem para seus vinhos, com acesso pelos aeroportos de Caxias do Sul ou Porto Alegre. Em Pinto Bandeira, vinícolas como Cave Geisse e Don Giovanni fizeram a fama dos espumantes brasileiros.

Serra da Canastra (MG) — Apontada como destino tendência de 2026 justamente pelo roteiro de queijarias artesanais, onde dá para acompanhar a produção de perto.

Espírito Santo do Pinhal (SP) — Destaque em previsões de viagem para 2026 como refúgio para quem gosta de vinho e de café, com a vantagem de estar a poucas horas da capital paulista.

Belém e Manaus (PA e AM) — O Norte é a fronteira mais interessante da cozinha brasileira hoje, com tacacá, pato no tucupi, maniçoba e pirarucu servidos tanto em restaurantes premiados quanto em mercados e feiras.

Salvador e Recife (BA e PE) — Acarajé e moqueca de um lado, bolo de rolo e tapioca do outro, com a vantagem de a experiência mais marcante costumar acontecer na banca de rua, não no restaurante caro.

Maceió e João Pessoa (AL e PB) — Citadas como destaques de culinária regional em plataformas de hospedagem, e com a vantagem extra de estarem em baixa temporada de agosto a novembro.

O que mudou no jeito de comer fora

Entender as tendências ajuda a escolher onde ir. O faturamento do food service brasileiro saltou de R$ 455 bilhões em 2024 para R$ 495 bilhões em 2025, mas o crescimento não veio de mais gente saindo: 90% dos consumidores declararam ter reduzido gastos com refeições. O setor cresce porque cada saída virou um evento — o consumidor vai menos vezes e gasta mais por ocasião.

Isso explica quatro movimentos visíveis no salão:

A experiência virou parte do prato. Cerca de 58% dos clientes consideram importante que o restaurante renda uma boa foto, e 54% dizem estar dispostos a pagar mais por uma atmosfera única. A apresentação e o ambiente pesam quase tanto quanto a cozinha.

Sustentabilidade deixou de ser diferencial. Uma pesquisa do setor mostra que 72% dos consumidores são influenciados positivamente ao saber que a casa adota práticas sustentáveis — ingredientes locais, redução de desperdício e embalagens recicláveis viraram expectativa, não bônus. Não à toa a Estrela Verde ganhou peso no guia.

A comida saudável mudou de tom. As fibras despontam como a tendência número um do ano, com 60% da geração Z declarando interesse em alimentos ricos em fibra. A busca é por equilíbrio e ingredientes funcionais, sem extremismos.

Bar sem álcool virou negócio sério. Bebidas não alcoólicas e coquetelaria autoral crescem no cardápio — movimento reconhecido pelo próprio Michelin ao criar sua categoria de mixologia.

O setor sentiu esse ajuste no último balanço: bares e restaurantes cresceram 4,2% no segundo trimestre de 2026, com nove meses consecutivos de alta na comparação anual, ainda que junho tenha ficado abaixo do esperado para um mês com Copa do Mundo e Semana dos Namorados no calendário.

A leitura final é animadora para quem viaja atrás de comida: o Brasil nunca teve tantas boas mesas mapeadas, em tantas cidades diferentes, em tantas faixas de preço. A parte difícil agora é escolher por onde começar.

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