O Brasil viveu, neste final de março e início de abril de 2026, uma semana especialmente significativa para a sua cultura. Dois eventos distintos, mas profundamente conectados pelo mesmo fio o reconhecimento e a valorização daquilo que faz o Brasil ser o Brasil marcaram o cenário cultural do país de formas que vão além do simbólico.
A primeira grande notícia chegou ainda em fevereiro, mas segue reverberando pelo país: Caetano Veloso e Maria Bethânia venceram o Grammy Awards 2026 na categoria Melhor Álbum de Música Global com o disco "Caetano e Bethânia Ao Vivo", registro da turnê conjunta que os dois irmãos baianos realizaram entre 2024 e 2025. O prêmio foi entregue em Los Angeles, na Crypto.com Arena, durante a 68ª edição da premiação. Como os artistas não estavam presentes, a estatueta foi recebida pela cantora e apresentadora Dee Dee Bridgewater em nome dos brasileiros.
A conquista tem peso histórico em dois níveis. Para Maria Bethânia, representou o primeiro Grammy de uma carreira que ultrapassa seis décadas um reconhecimento tardio, mas imensamente celebrado por fãs e pela crítica. Para Caetano Veloso, foi o terceiro troféu: ele já havia vencido em 2000, com o álbum Livro, e em 2001, como produtor de "João Voz e Violão", de João Gilberto. O álbum vencedor reúne interpretações conjuntas e individuais de canções que atravessam a trajetória dos dois artistas, com arranjos criados especialmente para o espetáculo, numa formação de 14 músicos e vocalistas que incluía instrumentos de cordas, sopros e percussão. Entre as músicas do disco estão clássicos como "Reconvexo", "Vaca Profana", "Alegria Alegria", "O Leãozinho" e "Explode Coração", além de uma versão inédita de "Fé", composição de Iza com nova leitura nas vozes dos irmãos, e a canção "Tudo de Novo", que Caetano havia composto para Bethânia quase 50 anos antes.
Ao comemorar a vitória nas redes sociais, os dois escreveram: "Que alegria em vencermos o Grammy de 'Melhor Álbum Internacional' juntos! Em especial, gostaríamos de agradecer aos músicos que ao nosso lado fizeram esse disco acontecer. O nosso muito obrigado a todos que ouviram o disco, foram aos shows e compartilharam desta história conosco!"
Poucos dias depois, no dia 27 de março, chegou outra notícia de enorme impacto para a cultura brasileira — desta vez, mais silenciosa, mas igualmente transformadora. O Governo Federal, por meio do Ministério do Trabalho e Emprego em articulação com o Ministério da Cultura, oficializou a inclusão de mestras e mestres das culturas tradicionais e populares na Classificação Brasileira de Ocupações, a CBO. A partir de agora, esses guardiões da memória e da identidade cultural do Brasil têm um código oficial: 33-31-20.
Quem são essas pessoas? São os mestres da Congada, da Folia de Reis, do Bumba Meu Boi, da Capoeira, do Maracatu, do Coco de Roda e de centenas de outras manifestações que constituem o tecido mais profundo da cultura brasileira. São homens e mulheres que, muitas vezes sem qualquer respaldo formal, dedicaram a vida a preservar e transmitir saberes que atravessam gerações e que agora, finalmente, ganham existência oficial no mercado de trabalho.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, destacou o alcance da medida: "Valorizar e reconhecer nossos mestres e mestras é fortalecer a cultura e a identidade do Brasil. A partir da inclusão, essa contribuição imensurável, que enriquece territórios e toda a nossa história, passa a ter lugar no campo profissional, com garantia de direitos." O diretor de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares, Tião Soares, foi ainda mais enfático ao definir o momento como uma reparação histórica: "É a colheita de décadas de luta e resistência. É um abraço carinhoso e respeitoso àqueles que, com suas mãos calejadas e corações fervorosos, moldaram a cultura brasileira."
A inclusão na CBO não regulamenta a profissão, mas serve como referência oficial, alimentando bases estatísticas, viabilizando registros no eSocial e na Carteira de Trabalho e criando base para novas políticas públicas de apoio ao setor. O processo foi construído ao longo de mais de um ano, envolvendo 18 ministérios, 14 associações e movimentos nacionais, sete pesquisadores e 54 mestras e mestres de todos os estados do Brasil e do Distrito Federal.
Dois fatos, uma mesma mensagem: o Brasil que celebra Caetano e Bethânia no palco mais importante do mundo e o Brasil que finalmente olha para dentro de si, para as comunidades, para os terreiros, para os quintais e os salões de festa, e diz que aquela cultura também importa, também merece reconhecimento, também tem direitos. Uma semana para a história da cultura nacional.
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