Em 20 de agosto de 1977, uma sonda de pouco mais de 700 quilos deixou Cabo Canaveral rumo aos planetas exteriores. Quase meio século depois, a Voyager 2 continua funcionando — e continua conversando com a Terra. A missão completa 49 anos nesta quinta-feira como um dos artefatos humanos em operação contínua há mais tempo, ao lado de sua gêmea Voyager 1, lançada duas semanas depois e que acabou ultrapassando-a por seguir uma trajetória mais direta.
O currículo científico da Voyager 2 é único. Aproveitando um alinhamento planetário que só se repete a cada 176 anos, ela sobrevoou Júpiter em 1979, Saturno em 1981, Urano em 1986 e Netuno em 1989. Segue sendo a única espaçonave a ter visitado os dois gigantes gelados, e boa parte do que se sabe sobre as luas, os anéis e os campos magnéticos de Urano e Netuno ainda vem daquelas passagens rápidas. Em 5 de novembro de 2018, a sonda cruzou a heliopausa — a fronteira onde o vento solar cede lugar ao meio interestelar — e entrou oficialmente no espaço entre as estrelas.
Hoje a sonda está a mais de 20 bilhões de quilômetros da Terra. A distância é tão grande que um sinal de rádio, viajando à velocidade da luz, leva cerca de 20 horas para completar o percurso em um único sentido: uma pergunta enviada de manhã só recebe resposta quase dois dias depois. A comunicação é mantida pelas antenas da Rede de Espaço Profundo da NASA, e o sinal que chega tem potência ínfima, na ordem de bilionésimos de watt.
A conta que a NASA precisa fechar, porém, é de energia. Os geradores termoelétricos de radioisótopos que alimentam a nave perdem cerca de 4 watts de potência por ano, o que obriga a equipe a desligar instrumentos progressivamente. Em março de 2025, foi a vez do detector de partículas carregadas de baixa energia da Voyager 2; no mês anterior, a Voyager 1 havia perdido seu subsistema de raios cósmicos. Restam três instrumentos científicos ativos em cada sonda. Com esse plano de racionamento, os engenheiros calculam que ambas possam manter ao menos um instrumento em funcionamento até a década de 2030 — depois disso, seguirão viagem em silêncio, levando consigo o Disco de Ouro com sons e imagens da Terra.
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