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Tendências de consumo 2026: conveniência e recorrência ditam o ritmo do ano

O comportamento do consumidor brasileiro em 2026 não está apenas mudando ele está se reconfigurando de forma estrutural. Os dados que chegam do mercado são claros: o brasileiro compra mais vezes, mas leva menos itens por visita, planeja com mais cuidado cada centavo gasto e valoriza acima de tudo a conveniência e a previsibilidade. Não é um fenômeno passageiro. É uma nova lógica de consumo que chegou para ficar.

Segundo levantamento do IBEVAR em parceria com a FIA Business School, o varejo de bens registrou recuo de 0,48% no primeiro trimestre de 2026, enquanto o setor de serviços avançou 2,8% no mesmo período. A divergência não é acidental. Ela traduz uma escolha consciente das famílias brasileiras: adiar a compra de bens físicos especialmente os duráveis, como eletrodomésticos e eletrônicos e priorizar o que oferece utilidade contínua, experiência imediata e menor comprometimento financeiro de longo prazo. "As famílias priorizam conveniência, experiência, proteção e recorrência, enquanto reduzem ou adiam a aquisição de bens físicos", resume Claudio Felisoni, presidente do Ibevar.

O destaque absoluto do período vai para os aplicativos de delivery, que registraram crescimento de 21,2%, seguidos pelos seguros residenciais, com alta de 20,6%, e os aplicativos de transporte, com avanço de 15,9%. Esses números revelam a consolidação do modelo sob demanda no cotidiano brasileiro: o consumidor quer o que precisa, quando precisa, sem atrito e sem surpresas. A conveniência deixou de ser um diferencial para se tornar o padrão mínimo exigido.

Outro movimento que ganha força é o da recorrência e ela vai muito além das assinaturas de streaming. O autocuidado se incorporou à rotina diária em rituais como skincare, suplementação, aromaterapia e prática de esportes, criando oportunidades para modelos de assinatura e ecossistemas de produto. A lógica que norteia esse movimento é: como minha marca acompanha o consumidor ao longo do tempo? Recorrência não nasce do desconto, mas da integração genuína na rotina de quem compra.

No varejo alimentar, essa lógica também se manifesta com força. Perecíveis passaram de 29% para 34% das ofertas entre 2021 e 2025, enquanto a mercearia alcançou 38%, consolidando-se como principal bloco promocional. Além disso, 70% das ofertas com mecânica promocional em 2025 trouxeram preços diferenciados para clientes de programas de fidelidade, reforçando retenção e frequência. O atacarejo é o grande protagonista desse movimento, com sua participação nas ofertas saltando de 14% em 2021 para 33% em 2025.

O perfil do que se consome também mudou. Bebidas proteicas tiveram sua penetração ampliada de 5% em 2023 para 13% em 2025, e cervejas zero álcool foram de 10% para 15%, evidenciando a demanda por conveniência, prazer sem culpa e funcionalidade. Surge o que os especialistas chamam de "indulgência consciente": consumir algo prazeroso que também entrega um benefício tangível seja proteína, menos açúcar, ingredientes naturais ou redução do álcool. Enquanto isso, 46% dos consumidores brasileiros já declaram buscar reduzir o açúcar na dieta, e o uso crescente das chamadas "canetas emagrecedoras" (medicamentos GLP-1) está alterando o tamanho das porções e pressionando a indústria alimentícia a reformular portfólios inteiros.

Do ponto de vista do varejo digital, o consumidor de 2026 também ficou mais maduro e menos impulsivo. O grande desafio para o e-commerce não será vender por volume, mas criar relações de valor, confiança e recorrência. Entrega confiável, prazo claro, rastreamento eficiente e política de troca transparente deixaram de ser diferenciais e viraram pré-requisitos básicos para conquistar esse consumidor mais exigente e seletivo.

O cenário geral para 2026 é, portanto, de um mercado em transformação profunda não pela crise, mas pela maturidade. O retrato do ano é o de um consumidor menos impulsivo e mais condicionado por planejamento, percepção de risco e busca por previsibilidade. O ano não aponta para uma retração generalizada, mas para um padrão de consumo mais seletivo, no qual preço, disponibilidade e clareza de valor serão determinantes. Para as marcas, a mensagem é direta: quem não conseguir se integrar à rotina do consumidor com conveniência real, recorrência genuína e proposta de valor clara ficará para trás.

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