'A sociedade mais do que perdeu a paciência'

Política
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A sociedade civil perdeu a paciência com o governo de Jair Bolsonaro e se mobiliza por mudanças ao mesmo tempo que a elite econômica decidiu assumir o risco de pressionar o governo em um país em que 40% do Produto Interno Bruto passa pelo Estado. O cientista político Luiz Felipe D'Avila, de 57 anos, acredita que esse momento pode servir para impulsionar uma alternativa de centro aos populismos que se revezam no poder nos últimos 20 anos.

Qual o significado da carta de economistas, banqueiros e empresários pedindo mudanças nas ações contra a pandemia?

O primeiro significado importante é o chamamento de urgência. O Brasil precisa levar a sério a crise, tomar medidas concretas e desviar do caminho da irresponsabilidade de como a pandemia foi tratada. O segundo é a união em torno da questão fundamental, que é criar condições para a retomada do investimento, do emprego e da renda. Bolsonaro gosta de culpar o lockdown pela paralisação da atividade econômica, mas esse não é o único problema. Se a agenda da reforma estivesse andando - as reformas administrativa e tributária -, o País estaria em outra situação.

Pode-se dizer que a sociedade civil perdeu a paciência?

Com certeza. É um alerta de que a sociedade mais do que perdeu a paciência, está perdendo a confiança no governo. O que a sociedade civil está tentando fazer hoje é ocupar o vácuo da ausência do governo. Quando se une com prefeitos e governadores, há um novo arranjo político para enfrentar o desgoverno do País. E a essa equação se juntou o Congresso, com a declaração do Arthur Lira, mostrando que, se tiver de escolher entre ficar com o presidente ou com a sociedade civil, o Congresso vai ficar com a sociedade. O recado foi claro.

O "sinal amarelo" de Lira significa que a palavra impeachment voltou ao ar?

Acho que está um pouco cedo para a palavra impeachment. Depende de como as coisas vão acontecer. O processo de impeachment no meio da pandemia seria muito ruim, pois aumentaria a tensão quando precisamos de união em torno do combate à crise. Agora, o impeachment será inevitável se começarmos a ter grandes movimentações populares. Pode-se caminhar para esse ponto se, nessa fase crítica, Bolsonaro continuar na estrada do desgoverno. Enfim, é cedo para se falar, mas não se pode mais descartar.

O que mais a sociedade civil pode fazer neste momento para que o País enfrente essa crise?

Ela começou a trabalhar bem com o setor público. Não só para levantar recursos, mas também na logística, como na entrega de cestas básicas. Há uma mobilização cívica para ocupar o espaço deixado pelo governo federal. E Bolsonaro encara tudo isso como um complô. Critica governadores e prefeitos e todos, achando que estão criando um governo paralelo.

Em busca de pacificação, Bolsonaro encontrou os presidentes dos demais poderes. Mas ele é capaz de compreender que a paz não consiste na ausência da guerra, mas na união e na concórdia?

Infelizmente, não vejo isso como um traço da personalidade do presidente. Ele aposta na fidelização do seus 30% e - o que é triste dizer - colocar fogo no resto. Ele acha que, com esse contingente de 30%, chegará ao segundo turno. Na cabeça dele, o adversário é o Lula, sem chance de terceira via. E aí, todo mundo de mau humor com o governo acabaria votando nele, para evitar Lula. A lógica dele é essa. Toda ação dele é minar qualquer atividade de conciliação, de tolerância e de união. Na PEC Emergencial, para agradar aos PMs, ele cedeu aos funcionários públicos, mantendo as promoções, o que tirou quase R$ 50 bilhões da proposta original, sacrificando o auxílio emergencial em detrimento da defesa do interesse corporativista, principalmente, das PMs. Ele vai fazer isso o tempo todo. Ele coloca o País em risco para fidelizar os 30% que o seguem.

Bolsonaro fez um pronunciamento e tentou se pôr como o campeão da vacinação. Qual o impacto do pronunciamento?

O impacto pode ser demonstrado pela intensidade do panelaço na hora em que ele falava. Ninguém mais o escuta. Alguém que criou animosidade, polaridade durante tanto tempo, que enxerga seus adversários políticos como inimigos a serem abatidos, não tem espaço para diálogo. Nem ele dá espaço para um voto de confiança, pois logo foi ao Twitter criticar os governadores. Ele quer manter os que o apoiam mesmo que isso custe ao Brasil o drama da recessão, do desemprego. Tudo é sacrificado em nome da lealdade dos 30%. Essa é uma estratégia muito perigosa e vai exigir a união do centro e da sociedade civil para evitarmos uma crise institucional antes das eleições de 2022.

Como separar nessa situação a responsabilidade do presidente e a da pandemia pela crise?

A melhor forma de separar o joio do trigo nessa questão pode ser ilustrada pelo que aconteceu nos Estados Unidos, com a mudança do governo Trump para Biden. De repente, vem um governo que, com o mínimo de organização e coordenação, consegue fazer com que mais de 2 milhões de pessoas sejam vacinadas por dia. A curva começa a cair rapidamente. Quando se tem uma crise dessa magnitude, é preciso governo. Não adianta pensar que só o mercado resolve. É preciso coordenação do governo para fazer as coisas funcionarem. E isso não vai existir, pois Bolsonaro enxerga os governadores como inimigos mortais a serem derrotados.

O senador Rodrigo Pacheco pediu a saída do chanceler Ernesto Araújo. Essa reação contra a atual política externa é reflexo do movimento da sociedade?

Com certeza está ligada. Desde Rio Branco, a política externa brasileira sempre foi vista como política de Estado, e não partidária. Começou a ter intromissão ideológica com Lula, desandou com Dilma e, no governo Bolsonaro, virou o palanque favorito do radicalismo bolsonarista. No mundo globalizado essas falas desastrosas têm consequências gravíssimas. Isso afeta o que precisamos nessa crise: vacinas. Uma política externa errática e ideológica tem consequências na geração de empregos, na atração de investimentos e na retomada do crescimento. O Brasil está quebrado. Temos uma relação dívida/PIB de 90%, o maior endividamento entre os emergentes. A reação do Senado é importantíssima.

O ex-governador Ciro Gomes disse ao Estadão que Bolsonaro deve derreter e não estará no 2º turno em 2022. O sr. acredita que essa é uma possibilidade real?

As pesquisas mostram que o índice de rejeição de Bolsonaro dificulta muito a reeleição. Ele e Lula só conseguirão estar no segundo turno se o centro estiver inteiramente fragmentado. Mas Lula entra com uma bola de chumbo no pé, tendo de explicar o maior escândalo de corrupção do mundo. E Bolsonaro vai entrar como o coveiro da esperança no Brasil. Sepultou o maior número de cadáveres, sepultou o crescimento econômico, destruiu o emprego e a renda e colocou 20 milhões de brasileiros de volta na miséria. Não será o Bolsonaro de 2018.

Qual o impacto da anulação das condenações de Lula para que esses atores se mexessem, de Bolsonaro aos economistas?

Lula aumentou o senso de urgência. Se o centro não se unir, teremos uma polarização Lula e Bolsonaro. E essa é uma escolha desastrosa para o País. A decisão do Supremo ajudou a catapultar a mobilização da sociedade civil. Bateu desespero total. O Brasil não quer ter como opção voltar o pêndulo para a outra forma de populismo. A ação dos economistas pode se juntar agora à ação dos movimentos, como MBL e o Vem Pra Rua, para que o centro tenha força de mobilização política. Só a união do centro permitirá ao País ter uma escolha diferente daquela polarização.

Nos dois anos de Bolsonaro, a elite econômica foi vista como leniente e paciente até demais com o governo. Essa elite está descolando agora de Bolsonaro?

Está descolando e isso é um fato histórico interessante. Ela está preocupada. A elite econômica brasileira é adesista a governos, parece o Centrão. Veja: 40% do PIB passa pelo Estado, portanto, capturá-lo - manter contratos, obter benefícios e receber privilégios - é fundamental para os negócios. É uma elite que não quer se indispor com o governo ou brigar com o presidente. Ela elogiou Lula, foi condescendente com Dilma e com Bolsonaro. Mas, agora, a situação dos negócios está de tal sorte afetada pelo desgoverno que até essa elite começa a insuflar contra o governo. A situação está tão grave que é melhor se unir por um futuro melhor.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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A Casa Branca demitiu nesta quinta-feira, 3, diversos assessores do alto escalão do Conselho de Segurança Nacional, segundo fontes familiarizadas com o caso. A ação acontece um dia após o presidente Donald Trump se reunir com a ativista de extrema direita Laura Loomer, que teria apresentado uma lista com nomes de pessoas que ela acredita serem desleais a ele.

O número exato de demitidos é desconhecido. O jornal americano The New York Times afirma que seis funcionários foram cortados. O The Washington Post diz que foram ao menos três.

Um dos porta-vozes da Casa Branca, Brian Hughes, disse que o Conselho não comenta sobre o assunto.

As demissões também ocorrem uma semana após o escândalo que envolveu a inclusão por engano de um jornalista em um grupo de autoridades no aplicativo de mensagens Signal que discutia planos de guerra dos EUA. O jornalista, Jeffrey Goldberg, editor-chefe da revista The Atlantic, teria sido convidado a entrar no grupo pelo conselheiro de segurança nacional, Michael Waltz.

Os demitidos incluiriam Brian Walsh, diretor de inteligência e ex-diretor de equipe do Comitê de Inteligência do Senado; Thomas Boodry, diretor de assuntos legislativos; e David Feith, diretor de tecnologia e segurança nacional que atuou no Departamento de Estado.

Segundo fontes ouvidas pelo NYT, Waltz teria se juntado a reunião entre Trump e Loomer para defender parte de seus funcionários, mas não foi suficiente. O vice-presidente J.D. Vance e outros funcionários do alto escalão do governo também teriam participado do encontro, ocorrido no Salão Oval da Casa Branca.

EUA proíbem funcionários do governo de ter relações íntimas com chineses

Medida visa evitar que espiões obtenham informações sensíveis através da aproximação com diplomatas; método foi comum na Guerra Fria

Os Estados Unidos proibiram os funcionários do governo e pessoas ligadas a estes de manterem relações românticas ou sexuais com cidadãos chineses, segundo informou a agência de notícias Associated Press nesta quinta-feira, 4.

De acordo com quatro fontes familiarizadas com o assunto e ouvidas pela AP, a política foi implementada pelo ex-embaixador dos EUA na China Nicholas Burns, em janeiro, seu último mês no cargo.

Embora algumas agências americanas já tivessem regras estritas sobre relações íntimas, não se sabia de uma política geral de "não confraternização", como é conhecida, desde a Guerra Fria. Não é incomum que diplomatas americanos em outros países namorem com cidadãos locais e até se casem com eles.

Uma versão mais limitada dessa política foi implementada no ano passado, quando os funcionários da Embaixada dos EUA na China foram proibidos de manter relações com cidadãos chineses que trabalhavam em funções de apoio, como guarda, na embaixada e nos consulados. Em janeiro, dias antes de Donald Trump assumir a presidência, Burns expandiu a proibição para qualquer cidadão chinês.

Segundo duas das fontes ouvidas, a nova política foi sugerida pela primeira vez no ano passado, depois que membros do Congresso expressaram a Burns preocupação com as relações íntimas dos funcionários do governo, que não eram consideradas rigorosas. A Comissão da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês não respondeu ao comentário.

A nova política abrange os diplomatas dos Estados Unidos na China continental, como a embaixada em Pequim e os consulados em Guangzhou, Xangai, Shenyang e Wuhan, e o consulado americano na ilha de Hong Kong. Não se aplica aos americanos fora da China.

A única exceção é para os funcionários americanos que já tinham relações com cidadãos chineses. Eles devem solicitar isenções e, se a isenção for negada, precisam terminar a relação ou deixar o cargo, informaram as fontes. Qualquer funcionário que viole a política receberá ordem de deixar a China imediatamente.

A política foi comunicada verbalmente e eletronicamente ao pessoal americano na China em janeiro, mas não foi anunciada publicamente.

O Departamento de Estado disse que não comenta sobre assuntos internos. O Conselho de Segurança Nacional encaminhou as perguntas para o Departamento de Estado. Burns, o ex-embaixador, não respondeu a um pedido da AP enviado ao seu endereço de e-mail.

Um retorno à Guerra Fria

Os serviços de espionagem de todo o mundo usam há muito tempo homens e mulheres atraentes para obter informações sensíveis, em uma prática comum durante a Guerra Fria.

O Departamento de Estado e outras agências americanas com escritórios na China têm há muito tempo requisitos estritos para relações íntimas dos funcionários, assim como há regras em outros países considerados rivais dos EUA, como Rússia e Cuba.

Segundo documentos desclassificados do Departamento de Estado, em 1987 o governo americano proibiu funcionários que estavam na União Soviética e na China de manter amizade, namorar ou ter relações sexuais com cidadãos locais depois que um fuzileiro naval americano em Moscou foi seduzido por uma espiã soviética. Essas restrições foram relaxadas após o colapso da União Soviética em 1991, segundo reportagens da época.

Na China, nenhuma medida semelhante foi aplicada durante muitos anos. Até a nova proibição em janeiro, os funcionários americanos na China eram obrigados a relatar qualquer contato íntimo com cidadãos chineses a seus supervisores, mas não eram proibidos de ter relações sexuais ou românticas.

Diplomatas e especialistas em inteligência dos Estados Unidos dizem que Pequim usa a espionagem através de seduções. Antes de serem enviados, os funcionários participam de uma apresentação que exibe exemplos de espionagem chinesa através de sedução e são advertidos que dezenas de espiões chineses podem ser designados para seguir os diplomatas.

Pouco se sabe sobre as políticas de não confraternização do governo dos Estados Unidos em outros lugares, já que são consideradas classificadas. Não se sabe o quão restritivas são tais políticas em outros países.

Aumento das tensões, controles mais estritos

Nos últimos anos, as tensões entre Washington e Pequim escalaram por causa da competição comercial, tecnológica e geopolítica.

Segundo Peter Mattis, ex-analista da CIA e presidente da The Jamestown Foundation, um grupo de especialistas com sede em Washington, houve pelo menos dois casos em que agentes de Pequim seduziram diplomatas americanos na China. Ele ressaltou, no entanto, que não lembra de casos semelhantes nos últimos anos.

Mattis acrescentou que outro problema é que a segurança estatal chinesa não coleta inteligência apenas através de espiões, mas também pressionando cidadãos chineses comuns para obter informações, muitas vezes através de ameaças ou intimidação. Isso, disse Mattis, significa que qualquer cidadão chinês que namore um diplomata americano pode ser vulnerável à coerção.

"O MSS está disposto a aproveitar qualquer conexão humana que tenha um alvo para coletar inteligência", disse Mattis, usando um acrônimo para o Ministério da Segurança do Estado chinês. "Esta mudança de regra sugere que o MSS se tornou muito mais agressivo em tentar acessar a embaixada e o governo dos Estados Unidos".

O Ministério das Relações Exteriores da China não comentou sobre a proibição. "(É) mais apropriado perguntar aos Estados Unidos sobre esta questão", disse em um comunicado.

A China também tem endurecido os controles sobre o pessoal no exterior, de acordo com regulamentos chineses, notícias e fontes familiarizadas com a burocracia da China.

Pequim começou a aplicar rigorosamente regulamentos que proíbem promoções para funcionários públicos chineses com cônjuges que adquiriram cidadania estrangeira e impedem que diplomatas passem um período prolongado de tempo em um país, o que força o retorno de alguns à China.

O Ministério das Relações Exteriores da China e muitos outros órgãos governamentais proíbem seus funcionários e pessoal de terem relações sexuais ou românticas com cidadãos estrangeiros. Membros do exército ou da polícia chinesa geralmente são proibidos de sair da China completamente sem a aprovação expressa de seus supervisores.

A União Europeia (UE) e o Japão vão realizar seu segundo encontro para Diálogo Estratégico para discutir fortalecimento das relações bilaterais nas áreas de segurança e defesa, além de endereçar desafios globais como a guerra na Ucrânia e a situação no Oriente Médio. A reunião acontecerá na sexta-feira, 4, em Bruxelas, às 9h45 (de Brasília).

A reunião será liderada pela chefe de Relações Exteriores da UE e vice-presidente da Comissão Europeia, Kaja Kallas, e pelo ministro de Relações Exteriores do Japão, Takeshi Iwaya.