Governo provoca empresários espanhóis por investimentos: 'China pisa no calcanhar de vocês'

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O governo Luiz Inácio Lula da Silva usou a expansão econômica e financeira da China no Brasil para provocar empresários espanhóis a ampliarem investimentos em infraestrutura no País. A mensagem foi repassada de forma direta a executivos de grandes multinacionais espanholas, durante reunião com ministros de Lula, inclusive o vice-presidente Geraldo Alckmin, titular da pasta do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Os empresários, por sua vez, pediram previsibilidade ao governo, que planeja rever contratos do setor elétrico, e afirmaram que pretendem ampliar negócios no País.

O presidente Lula, seu vice e sete ministros receberam a comitiva empresarial da Espanha, durante a visita oficial do premiê Pedro Sánchez. Ele viajou a Brasília e a São Paulo nos dias 6 e 7 de março. A viagem foi marcada como forma de promover negócios e estreitar discussões políticas. O Estadão teve acesso a detalhes da reunião ampliada, ocorrida na quarta-feira passada, no Salão Oeste do Palácio do Planalto.

"Os chineses começam a pisar no calcanhar de vocês", disse o ministro da Casa Civil, Rui Costa, ao apresentar oportunidades de investimento do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), citando também o maior apetite de empresas da Itália. "É preciso manter o ritmo, para que vocês continuem mantendo a liderança nos investimentos de energia aqui no Brasil."

Rui Costa disse que a provocação era uma forma de "estimular" os empresários e autoridades governamentais espanholas presentes à reunião. A declaração ocorreu antes da chegada de Lula e Pedro Sánchez à mesa. Ele afirmou ver "caminho aberto" para maior atração dos espanhóis nas próximas concorrências, parcerias público-privadas e leilões.

De um lado, estava a delegação espanhola com 18 executivos de empresas, como Santander, CAF, Telefônica, Neoenergia, entre outras (veja a lista abaixo). Do outro, o primeiro escalão do governo brasileiro: Alexandre Silveira (Minas e Energia), Juscelino Filho (Comunicações), Renan Filho (Transportes), Carlos Fávaro (Agricultura), Nísia Trindade (Saúde) e Paulo Pimenta (Comunicação Social).

Javier Martínez Ojinaga, CEO da CAF, respondeu ao ministro da Casa Civil. Ele disse que as empresas representadas à mesa tinham, em geral, mais de 25 anos de atuação no Brasil e demonstravam "compromisso" com o País, por meio da qualidade do serviço prestado.

"É verdade, como dizia o ministro, que existem concorrentes que nos seguem de perto, mas creio que podemos provar a qualidade de nosso trabalho e o compromisso com o País, como prova a nossa presença histórica aqui e o conjunto de investimentos para os próximos anos", afirmou Ojinaga.

O executivo disse que existe um círculo virtuoso de crescimento no Brasil com o novo PAC, o plano de reindustrialização e as reformas estruturais. "Nós, como CAF, como fabricantes de produtos e soluções de mobilidade, nos sentimos plenamente capacitados para fazer frente a esses projetos e a esse gênero de mobilidade sustentável", disse Ojinaga.

"Estamos preparados para ganhar a Champions dos contratos no Brasil", rebateu Antonio Garamendi, presidente da Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE). Ele falou em nome dos empresários espanhóis presentes e fez a analogia futebolística com o mais prestigiado torneio de clubes de futebol do mundo, a Liga dos Campeões da UEFA. A Espanha é o país com mais títulos acumulados - são 19 conquistas, sendo 14 do Real Madrid e 5 do Barcelona.

As empresas chinesas State Grid, China Three Gorges (CTG) e State Power Investment Corporation (SPIC) lideram novos projetos no País, o que antes era tradicionalmente feito por espanhóis, segundo o governo federal. A State Grid arrematou em dezembro o principal lote do maior leilão de transmissão de energia já realizado na história do Brasil. O investimento esperado é de R$ 18 bilhões. A espanhola Celeo Redes ficou com o terceiro e menor lote ofertado na ocasião.

Dados Conselho Empresarial Brasil-China indicam que o setor elétrico recebeu 50% dos investimentos chineses no Brasil em 2022, com 16 novos projetos. Desde 2012, o setor é o que mais atrai recursos chineses ao País. Entre 2007 e 2022, foram investidos R$ 32,5 bilhões. Os números não consideram investimentos em veículos elétricos, que estão na linha de frente da expansão da indústria chinesa, com a instalação de montadoras em território brasileiro.

Sánchez e a geopolítica 'para o bem'

A dimensão geopolítica dos investimentos e do comércio entre os países também apareceu no recado do próprio Sánchez aos empresários compatriotas e ministros brasileiros. Ao lado de Lula, ele afirmou que voltará a insistir na conclusão do Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia. A intensa oposição política da França barrou o avanço no ano passado, quando o petista e o socialista fracassaram na empreitada. As negociações se arrastam por 25 anos.

"Temos assuntos pendentes, mas estamos pressionando para que se transformem em realidade", afirmou o premiê espanhol na reunião fechada. "O acordo entre União Europeia e Mercosul seria uma notícia extraordinária do ponto de vista bilateral e também do ponto de vista político, porque estaríamos construindo a maior área de intercâmbio comercial do mundo, e assim mudaríamos a geopolítica global para o bem, porque estaríamos unindo regiões que compartilham valores, princípios, formas de entender o mundo e de enfrentar os desafios pela frente."

A declaração do premiê da Espanha ecoa uma preocupação crescente com o deslocamento do fluxo comercial e financeiro para a Ásia, puxado pela China, e a crescente influência de Pequim no mundo ocidental. Além disso, o Brasil foi um dos países que ampliou o comércio com a Rússia - aliada da China - em que pesem as sanções impostas a Moscou por causa da guerra na Ucrânia. No ano passado, o fluxo com os russos chegou a US$ 11,3 bilhões e superou a meta de US$10 bilhões pela primeira vez. Já com a China, o Brasil atingiu o recorde de US$ 104 bilhões.

O Itamaraty entende que a mudança do eixo para Ásia e a expansão chinesa na América Latina e África são o grande motor para os europeus se movimentarem, em linha com o discurso de Pedro Sánchez. A guerra na Ucrânia também forçou a busca pela diversificação.

Os governantes da Europa citam afinidades com a América Latina como apego à democracia, preocupação climática, respeito aos direitos humanos e pauta de gênero.

Responsável por negociar o acordo com o Mercosul, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou no ano passado em Brasília que o bloco pretende investir 10 bilhões de euros na América Latina e no Caribe.

No ano passado, a União Europeia reagiu e passou a anunciar investimentos bilionários da Global Gateway, plataforma interpretada como parte da estratégia de contenção da China, cuja ponta de lança é o projeto de conectividade de infraestrutura da nova Rota da Seda - Belt and Road Initiative (Cinturão e Rota). Ao completar dez anos, em 2023, o projeto chinês já engloba 21 países nas Américas. E os chineses avisaram em janeiro que desejam unir obras do PAC de Lula e com o projeto de Xi Jinping.

Casa Branca

Os Estados Unidos também reagiram diplomaticamente. Em fevereiro, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, prometeu no Rio por em marcha uma coalizão para canalizar investimentos em infraestrutura nas Américas, que não gere dívidas nos países e respeite o direito de trabalhadores. "Estamos agindo de uma forma que não sobrecarrega os países com dívidas", disse o americano. A declaração é uma crítica velada a Pequim, a quem os americanos acusam de criar "armadilhas de dívida" com financiamentos de obras gigantescas de infraestrutura, que depois os países não conseguem pagar, além de fustigar os padrões de direitos trabalhistas em empresas chinesas.

"Ao contrário da China, entendemos que a sociedade civil e a imprensa livre têm papel indispensável para a democracia", disse nesta quinta-feira, dia 7, o chefe da diplomacia dos Estados Unidos nas Américas, embaixador Brian A. Nichols. Ele mencionou esforços dos adversários para "minar democracia, segurança e a liderança dos EUA nas Américas".

"A República Popular da China segue avançando com uma visão alternativa de governança global que representa um afastamento dos princípios que estão no coração da comunidade internacional", disse o diplomata, segundo quem os EUA "competem com China" com alianças voltadas ao desenvolvimento social e econômico de países latino-americanos, com os programas Americas Partnership for Economic Prosperity e a Central America Forward.

Principal diplomata de Joe Biden na América Latina, o embaixador Nichols disse em entrevista exclusiva ao Estadão que os negócios de infraestrutura com chineses são "enganosos" - não trazem benefícios de longo prazo aos países parceiros e muitas vezes envolvem corrupção. Pequim negou as declarações.

Previsibilidade

A Espanha é o segundo maior investidor externo no Brasil, atrás somente dos EUA, com presença em setores de energia, infraestrutura, transportes, finanças, telecomunicações e seguros, entre outros. Segundo o Itamaraty, o estoque total de investimentos é estimado em US$ 59 bilhões, com fluxo anual de cerca de US$ 3,3 bilhões nos últimos anos.

O premiê da Espanha disse que as transformações e a estabilidade política, social, fiscal e regulatória no Brasil trouxeram mais "certeza" para novos investimentos no País. Segundo ele, as empresas podem investir em sistemas de transmissão de energia, construção de portos e ferrovias, de estradas e saneamento básico.

"Cabe ao governo criar condições objetivas para que a gente convença as pessoas que o Brasil é um bom lugar para investir e um bom paradeiro para empresas estrangeiras", disse o presidente Lula, assegurando estabilidade. "Com muita tensão política a gente tem menos chance de atrair investimento. Isso está garantido. O Brasil de 2024 é um Brasil diferente do que vocês conheceram em 2022 e 2020."

Lula citou a reforma tributária como grande feito de seu governo até agora e disse que já articula a regulamentação de regras pendentes. "Esperamos que até o meio do ano, se tudo der certo, a gente tenha a regulamentação e aí o Brasil vai estar preparado para dar os voos que precisa dar no século 21", projetou Lula.

Clima e Energia

Pedro Sánchez disse na reunião que reconhece a liderança brasileira em matéria de mudança climática, e Lula pediu apoio dos espanhóis no G-20 e na COP-30, cúpulas globais que debatem a matéria e serão sediadas no Rio de Janeiro e em Belém até o ano que vem.

O CEO do Santander, Héctor Grisi, afirmou que o banco procura ajudar empresas na transição para a economia verde e fomentar o mercado de créditos de carbono, o hidrogênio como energia renovável e concessões florestais. Ele avaliou que o momento do País é "muito favorável, com um ciclo virtuoso de baixa de taxa de juros, moeda estável e crescimento sustentado".

"Há muitos anos vocês são bem-vindos ao Brasil, mas nesse novo momento político vocês serão ainda mais bem-vindos, porque o Brasil espera merecer a confiança e a solidariedade de vocês para fazer a revolução climática que o Brasil pode liderar no mundo. Quem quiser falar em energia renovável nos próximos anos vai ter que levar em conta que o Brasil é o lugar com mais competência para produzir os mais variados tipos de energia renovável", disse Lula.

Revisão de contratos

O ministro da Casa civil disse que o foco do governo é o investimento em energia renovável e hidrogênio verde. Ele avisou que o Ministério de Minas e Energia apresentará a Lula nas próximas semanas uma reestruturação do setor de energia, para "elevar o padrão de serviço nas distribuidoras e desonerar o consumidor, especialmente de baixa renda". "Temos uma matriz limpa construída com forte subsídio do governo federal e parte substantiva do subsídio foi transferida ao consumidor. Estamos buscando reequilibrar o sistema", afirmou o titular da Casa Civil.

Eduardo Capelastegui, presidente da Neoenergia, distribuidora que atende cerca de 50 milhões de pessoas no Brasil, reconheceu que as empresas têm desafios a superar, como expandir e modernizar a rede de transmissão e melhorar a qualidade do serviço. "O cliente brasileiro hoje não é o cliente de 30 anos atrás. O cliente quer qualidade, quer uma experiência diferente", citou.

Para Capelastegui, o plano de crescimento projetado pelo governo federal vai demandar mais energia elétrica: "É um setor que vai crescer e estamos aí para seguir investindo. Mas gostaria de colocar para os senhores: os investimentos são de muito longo prazo, de 30 a 40 anos, e um assunto importante é a previsibilidade. O governo está discutindo a renovação da concessões de distribuição. É importante avançar com essa pauta, porque é um foco de oportunidade, vai permitir que empresas de qualquer país continuem considerando o setor atrativo. O Brasil vai precisar de mais do que o que foi investido historicamente".

O ministro Alexandre Silveira argumentou que o governo respeita contratos e reconhece a importância da estabilidade do investimento. "Estamos avançando é necessário aperfeiçoar os contratos existentes de distribuição. Teremos R$ 170 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos para avançar nas renovações das distribuidoras apontando que quer a boa prestação de serviços e a contrapartida é a estabilidade do investimento", disse Silveira.

Pedro Duque, da Hispasat, uma operadora espanhola de satélites de telecomunicação, sugeriu investimentos em escolas e em telemedicina entre Forças Armadas. "Não pedimos nada, somente políticas públicas de longo prazo para podermos fazer investimentos", disse o empresário.

EMPRESAS ESPANHOLAS PRESENTES:

- Ignacio Rivera, presidente da Estrella Galicia

- Pedro Duque, presidente da Hispasat

- Guilhermo Lorenzo, CEO da COMSA

- Javier Martínez Ojinaga, CEO da CAF

- Alberto Gutiérrez, presidente da Airbus Espanha

- Marcos Madureira, presidente da Câmara Oficial da Espanha e do Brasil

- Antonio Garamendi, presidente da CEOE

- José Luis Bonet, Câmara de Comércio da Espanha

- Héctor Grisi, CEO global do Santander

- Eduardo Navarro de Carvalho, presidente do Conselho de Administração da Telefônica Brasil

- Carlos Fernández, CEO da NIMGenetics

- Eduardo Capelastegui, CEO da Neoenergia (Iberdrola)

- Breno Machado, diretor de desenvolvimento de negócios da Acciona

- Pedro Rodríguez, diretor Internacional Indra-Minsait

- Teresa Madariaga, presidente da Ingeteam

- Jesús Alonso Escuris, presidente da Jealsa-Rianxeira

- Katia Repsold, gerente da Naturgy Brasil

- Pedro Gómez, CEO Iberoamérica da TYPSA

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Ao demitir Nísia Trindade do Ministério da Saúde nesta terça-feira, 25, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou a sucessão da pasta em ato contínuo: o ministro de Relações Institucionais Alexandre Padilha será realocado e voltará a comandar a pasta que chefiou entre 2011 e 2014, durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff (PT).

A demissão de Nísia deflagra a reforma ministerial no governo Lula. De olho nas eleições de 2026, Lula quer um primeiro escalão que possa imprimir marcas à gestão federal. Enquanto ministro da Saúde, Padilha esteve à frente da criação do Mais Médicos, uma das marcas do primeiro mandato de Dilma.

Formado em Medicina e doutor em Saúde Coletiva, Alexandre Padilha, de 53 anos, é deputado federal licenciado. Desde janeiro de 2023, chefiava a Secretaria de Relações Institucionais, pasta com status de ministério cuja atribuição é a articulação política entre Congresso e Palácio do Planalto.

Apesar do êxito na aprovação de projetos de lei caros ao governo, a gestão de Padilha na Secretaria foi marcada por um relacionamento conturbado com o então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que chegou a descrever o secretário como "desafeto pessoal" e "incompetente", apelando para sua exoneração do cargo.

Ao realocá-lo na Esplanada dos Ministérios, Lula retira Padilha da função de articulação do governo, mas sem ceder à pressão de Arthur Lira, que já deixou o comando da Câmara dos Deputados - a Casa, agora, é presidida por Hugo Motta (Republicanos-PB). A nomeação de Padilha também impede que o Centrão ocupe a pasta de Saúde, cobiçada pelo orçamento robusto e pela alta taxa de execução de emendas parlamentares.

Antes de chefiar o ministério da Saúde no primeiro governo de Dilma, Padilha havia sido diretor interino da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em 2004, e titular da Secretaria de Relações Institucionais entre 2009 e 2010. Após a gestão Dilma, foi secretário municipal de Saúde da cidade de São Paulo, entre 2015 e 2016.

Padilha é filiado ao PT desde 1988. Além das nomeações para cargos, secretarias e ministérios de gestões petistas, já concorreu pelo partido ao governo do Estado de São Paulo, em 2014. Obteve o terceiro lugar naquela eleição, com 18,2% dos votos válidos. A chapa de Geraldo Alckmin, na época no PSDB, e Márcio França, pelo PSB, foi eleita em primeiro turno, com 57,31% dos votos válidos. Hoje, Alckmin, França e Padilha integram a mesma gestão no governo federal.

Em 2018, elegeu-se deputado federal por São Paulo com 87.576 votos. Não ocupou cargos de destaque nas comissões permanentes da Casa durante a legislatura, mas reelegeu-se no pleito seguinte, em 2022, com 140.037 votos. Licenciou-se para assumir a Secretaria de Relações Institucionais.

Enquanto deputado federal, Padilha é autor de 19 projetos transformados em lei. Desses, três possuem o novo ministro da Saúde como único autor do texto. Tratam-se das leis que instituem a campanha do "Julho Amarelo", de conscientização aos direitos humanos, e o "Dia Nacional do Funk", celebrado em 12 de julho. Também é autor da norma que regulamenta a profissão de sanitarista.

O deputado federal Gilberto Nascimento (PSD-SP) foi eleito presidente da bancada evangélica no Congresso nesta terça-feira, 25. Por 117 votos a 61, Nascimento derrotou Otoni de Paula (MDB-RJ) e venceu a eleição para o comando do grupo. É a primeira vez que a liderança do bloco é definida por meio de votação dos membros.

Nascimento representa a ala da bancada evangélica com menos diálogo com o Palácio do Planalto e mais próxima do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A proporção dos votos evidencia um racha no grupo, que se dividiu entre setores mais ligados ao bolsonarismo ou mais próximos da articulação com o governo Lula.

A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) reúne 219 deputados e 26 senadores e tem papel fundamental na votação de projetos da pauta de costumes.

Gilberto Nascimento, de 68 anos, foi delegado da Polícia Civil de São Paulo e exerce cargos públicos há quatro décadas. Antes de assumir o mandato na Câmara dos Deputados, registrou passagens na Câmara Municipal de São Paulo e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) pelo PMDB (hoje, MDB).

Foi vereador de São Paulo por mais de uma década, de 1983 a 1994. Em 1994, elegeu-se deputado estadual, exercendo dois mandatos consecutivos. Em 2002, elegeu-se à Câmara dos Deputados pelo PSB.

Em janeiro de 2007, Gilberto Nascimento foi indiciado pela Polícia Federal (PF) por envolvimento no caso conhecido como "máfia dos sanguessugas", que consistiu em desvio de dinheiro público por meio do superfaturamento de compras de ambulâncias.

A operadora do esquema foi a empresa Planam, de propriedade do empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin. Durante as investigações, a funcionária da Planam Maria da Penha Lino delatou o envolvimento de 81 parlamentares no esquema, entre os quais Gilberto Nascimento.

O Congresso apurou o caso por meio de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Convocado à CPI, Vedoin afirmou que iniciou conversas com Gilberto Nascimento, mas não fechou negócio, pois o deputado federal preferiu destinar emendas parlamentares a uma concorrente da Planam.

Gilberto Nascimento não foi incluído na relação dos pedidos de indiciamento da CPI, mas, por solicitação do Supremo Tribunal Federal (STF), seguiu investigado pela PF. Segundo as diligências, o deputado federal negociava um porcentual de propina em relação aos valores que seriam repassados com emendas parlamentares. Em depoimento à PF, Nascimento negou as acusações.

Os 22 parlamentares indiciados pela PF, incluindo Nascimento, foram acusados de formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em agosto de 2007, o Ministério Público Federal em Mato Grosso (MPF-MT) denunciou Nascimento e um ex-assessor do parlamentar à Justiça, mas a acusação não foi adiante.

Na eleição seguinte de 2006, não conquistou a reeleição, constando como suplente. Em 2010, desistiu da candidatura como segundo suplente na chapa ao Senado de Aloysio Nunes, do PSDB.

Candidatou-se a deputado federal novamente em 2014, retornando à Casa. Em fevereiro de 2015, candidatou-se à suplência da Mesa Diretora. Durante a campanha ao cargo, sua assessoria projetou um "holograma" do parlamentar nos corredores da Casa. Foi eleito à função para o biênio 2015-2017 com 382 votos.

Nascimento foi reeleito sucessivamente em 2018 e em 2022. Na última eleição ao cargo, teve as contas eleitorais rejeitadas na primeira instância da Justiça Eleitoral, revertendo a decisão no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP).

É pai de Gilberto Nascimento Júnior (PL), vereador de São Paulo desde 2017 e com quatro passagens no secretariado do Estado de São Paulo.

Em busca de um perfil mais político e pressionado pela queda de popularidade do governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demitiu nesta terça-feira, 25, a pesquisadora Nísia Trindade do Ministério da Saúde. Nísia é a terceira ministra a cair no governo Lula 3, que agora tem nove mulheres na Esplanada. Ela será sucedida pelo ministro Alexandre Padilha, que deixa o comando da Secretaria de Relações Institucionais.

A marca de nove ministras é inferior aos números dos dois primeiros mandatos de Lula e também do governo de Dilma Rousseff (PT). O terceiro mandato começou com 11 mulheres, batendo o recorde de Dilma na largada da gestão.

A primeira a ser substituída foi a então ministra do Turismo, a deputada Daniela Carneiro (União-RJ), em julho de 2023. A articulação política do Planalto queria realizar a troca para melhorar a votação de projetos na Câmara, fazendo o União Brasil entregar mais votos para pautas de interesse do Executivo - principalmente no campo econômico.

Apesar de integrar o partido, a ministra era considerada uma "escolha pessoal" de Lula. Daniela foi substituída por Celso Sabino (União-PA).

A ex-atleta Ana Moser, que estava à frente do Esporte, deixou o cargo em setembro de 2023 para que o governo pudesse dar espaço a um parlamentar do PP, partido do então presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lira (AL). O escolhido foi André Fufuca (PP-MA), que foi vice-líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara.

A troca gerou certo mal-estar entre grupos de sustentação do governo e, um dia após a demissão, durante desfile de 7 de Setembro, Lula se cercou das demais ministras do governo na tribuna de honra do evento.

Ana Moser deixou o cargo sem agradecer publicamente e disse ao Estadão que "as decisões, mesmo com a participação de mulheres, ainda são tomadas por homens". "Mesmo com número recorde que se colocou no início do governo, não é algo simplesmente posto, é construído", afirmou.

Pouco depois, em outubro, outra troca foi realizada entre cargos da cúpula do governo, dessa vez na presidência da Caixa Econômica Federal. Rita Serrano, servidora de carreira nomeada por Lula, foi substituída pelo economista Carlos Antonio Vieira Fernandes, indicado por Arthur Lira.

Deputados e senadores reclamavam de seu perfil técnico e diziam que ela não atendia aos pedidos feitos por parlamentares. Na época, Rita Serrano curtiu uma publicação no X (antigo Twitter) com críticas à sua demissão.

Nesta terça-feira, 25, Daniela Carneiro postou uma mensagem de apoio a Nísia Trindade. "Sua atuação foi fundamental para fortalecer o SUS, ampliar o acesso à saúde e garantir avanços importantes para a população brasileira", escreveu a deputada.

Saiba quem são as nove ministras do governo:

- Anielle Franco, Ministério da Igualdade Racial;

- Cida Gonçalves, Ministério das Mulheres;

- Esther Dweck, Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos;

- Luciana Santos, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação;

- Macaé Evaristo, Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania;

- Margareth Menezes, Ministério da Cultura;

- Marina Silva, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima;

- Simone Tebet, Ministério do Planejamento e Orçamento;

- Sônia Guajajara, Ministério dos Povos Indígenas.