'A minha preocupação é ser lido', diz Jeferson Tenório

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Jeferson Tenório aparenta tranquilidade surpreendente para alguém que teve o nome alçado ao debate público da forma como ocorreu com ele. O escritor de 47 anos já havia publicado dois romances bem recebidos antes de vencer o Prêmio Jabuti, em 2021, pelo livro O Avesso da Pele. No início deste ano, no entanto, o livro foi recolhido de escolas do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Goiás por supostas "expressões impróprias".

Depois de uma ação da editora Companhia das Letras, a Justiça ordenou a volta do livro às salas e bibliotecas. E um parecer do Ministério da Educação (MEC) considerou que o livro não faz "apologia ao uso de drogas, à violência contra a mulher, ao uso de expressões vulgares e sexuais".

Tenório lança este mês De Onde Eles Vêm, cujo personagem, Joaquim, é um dos primeiros negros a entrar na universidade pública pelo sistema de cotas raciais, em meados dos anos 2000, uma experiência vivida pelo próprio autor.

Como surgiu a ideia para o novo livro?

A partir da publicação de O Avesso da Pele, em 2020. A ideia era contar esse período que eu considero histórico: a entrada de pessoas negras na universidade. Foi uma revolução silenciosa na sociedade, de modo geral. Queria pegar o início da implantação das cotas para mostrar o avanço e, ao mesmo tempo, as dificuldades desses estudantes permanecerem na universidade. De Onde Eles Vêm é esse percurso da entrada, mas também da luta pela permanência na universidade.

Quanto de sua experiência está refletida no livro?

Acho que é impossível escrever um livro sem material biográfico, mas a minha trajetória foi diferente. Eu sou aluno cotista, mas já estava na universidade quando fiz o vestibular. Fiz o vestibular várias vezes, trocando de curso. E, no caso do Joaquim, ele é esse rapaz da periferia que entra na universidade. Ele já é um leitor. No meu caso, era diferente, eu não era um leitor ainda.

O Avesso da Pele fez seu nome ser reconhecido nacionalmente. Isso te afetou de alguma forma quando produziu este novo livro?

Como eu tenho um projeto literário bastante consciente do que eu quero fazer, não me senti pressionado. O meu compromisso é com o leitor, de oferecer o melhor que posso em termos de qualidade estética. A minha preocupação é ser lido. E ser lido justamente por pessoas que talvez nunca tenham lido um livro inteiro antes.

Qual você acha que vai ser a principal diferença que os leitores do novo livro vão sentir com relação aos seus trabalhos anteriores?

De Onde Eles Vêm, diferentemente dos meus outros, não é um livro que traz uma redenção final. É um livro agridoce. Talvez seja o livro mais realista que fiz nos últimos anos.

Os personagens são muito tridimensionais. Como é para você construir isso?

O curioso é isso: esses personagens são uma mistura das pessoas que eu conheço, com quem eu convivi, do que eu li, do que eu já observei e de histórias próximas do que eu já escrevi, mas quanto mais eu tentava escrever o real, mais inverossímil ficava. Então, nesse momento, eu precisava me afastar e aí de fato entrar com a criação. Imaginar de fato esses personagens. E aí eu conseguia esse efeito - eu tentei chegar a esse efeito de real, de realidade. Mas é sempre esse processo de olhar para a realidade e depois ficcionalizar em cima.

As vendas de O Avesso da Pele cresceram após os episódios de censura.

Sabemos que tudo aquilo que é censurado acaba causando curiosidade. Mas, veja, não foi só o aumento das vendas. Houve também uma defesa não só do meu livro, mas uma defesa do livro, uma defesa da cultura, do conhecimento.

Tudo isso te afetou do ponto de vista emocional?

Emocionalmente não. Me causou primeiro um espanto e depois uma certa preocupação de o livro ser, de fato, recolhido e de que não pudesse ser lido nas escolas. É uma certa angústia, mas não medo. Embora a gente sofra ataques, eu acho que as instituições democráticas estão funcionando bem.

Pensa em abordar a censura em um próximo livro?

Para mim, as coisas funcionam de maneira um pouco mais lenta. Por exemplo, saíram muitos livros sobre a pandemia. Já tem quase cinco anos e eu ainda não me sinto preparado para escrever sobre pandemia. Com a censura, é a mesma coisa. Eu acho que preciso de um tempo ainda para depois voltar, fazer uma análise e talvez escrever sobre isso.

De Onde Eles Vêm trata também do poder dos livros e da literatura. Isso é algo que aparece nos seus outros romances. É um reflexo do que a literatura fez por você?

A literatura fez muito por mim e continua fazendo. Tudo que eu me tornei foi graças aos livros e à literatura. Talvez todos os livros que eu escreverei ainda farão essa homenagem aos livros. No caso do De Onde Eles Vêm, obviamente, é um livro que está falando dessas pessoas que entraram na universidade, da origem dos professores, mas também, sobretudo, sobre a origem da criação. De Onde Eles Vêm é também de onde vêm a criação, a poesia, os versos. É o questionamento que o Joaquim faz quando ele está produzindo o primeiro poema dele: de onde vem a criação, como é que ela acontece. É um questionamento estético na verdade, não apenas um questionamento político.

Você também sentia essa 'angústia' quando começou a escrever?

Não. Acho que eu acabei criando um personagem que eu gostaria de ter sido, porque o Joaquim é muito consciente já de muitas coisas. Quando eu comecei a escrever, eu não era nada consciente, tanto politicamente, racialmente e esteticamente. Eu só queria escrever.

O que você mais aprendeu de lá para cá?

Aprendi a ter mais paciência, consegui gostar mais da lentidão da escrita. Aprendi a não ter tanta pressa para terminar e entender o tempo do livro, o tempo da literatura, o tempo que ela demora. O que as pessoas chamam de bloqueio criativo, costumo pensar que é o tempo que o texto está pedindo. Se você não está conseguindo criar, é porque precisa fazer outra coisa.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Ataques de peixes a banhistas levaram o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) a interditar parcialmente um dos mais procurados balneários de Bonito. A cidade é considerada a "capital nacional do ecoturismo". Só este ano, ao menos 30 pessoas procuraram a rede de saúde da cidade relatando mordeduras pelos peixes. Em um dos casos, uma banhista perdeu parte do dedo.

Os incidentes aconteceram no balneário Praia da Figueira, um empreendimento privado com alto fluxo de turistas. Inicialmente, o Imasul havia interditado todo o complexo, que inclui trilhas e áreas de lazer em terra. A administração da Praia entrou com pedido de reconsideração e a parte seca do complexo foi liberada. "A lagoa artificial permanecerá interditada, sendo exigida a instalação de barreiras físicas e educativas para impedir o acesso dos visitantes à água", diz nota do Imasul.

O Estadão entrou em contato com o Grupo Praia Parque e com a gerência da Praia da Figueira e aguarda retorno.

A lagoa fica próxima do Rio Formoso e nela foi construída uma praia artificial. É nesse local que estão os quiosques dentro da água onde os turistas são servidos com bebidas e alimentação. Também fica na lagoa o mirante que permite uma observação das belezas do rio. Por ser um local mais raso, é onde os turistas boiam para fazer a observação dos peixes - um dos principais atrativos do lugar. Espécies como pacu, dourado, matrinxã e tambaqui foram introduzidas no lago.

O alerta ao Imasul sobre os ataques foi feito pela prefeitura de Bonito após a chegada dos casos de mordeduras por peixes ao hospital da cidade. Segundo o município, mais de 80% dos ataques aconteceram na Praia da Figueira. Uma parte deles teria sido feita pelo peixe tambaqui, uma espécie amazônica que se caracteriza pelos dentes fortes.

Um dos casos envolveu uma professora aposentada de Bonito que teve uma parte do dedo da mão arrancada por mordida de um peixe, quando estava em um dos quiosques molhados do balneário. O ataque aconteceu no dia 17 de março e a mulher foi atendida no Hospital Darci João Bigaton.

Estudo do pesquisador Diogo Hashimoto, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) apontou o tambaqui como o segundo peixe mais criado em cativeiro no País, depois da tilápia, devido à sua fácil adaptação. A espécie não tem hábito de atacar pessoas ou animais, tendo como base de sua alimentação produtos vegetais, principalmente sementes e pequenos frutos.

A prefeitura de Bonito informou que a Fundação de Turismo acompanha a situação e entende a necessidade de adequação do atrativo às normas ambientais e de segurança dos turistas. Considera, ainda, que Bonito é o melhor destino de ecoturismo do País e todos devem se preocupar em entregar a melhor experiência possível.

O Imasul reforçou que, mesmo tendo sido revogada parcialmente a suspensão da Licença de Operação do empreendimento Praia da Figueira, permanecem suspensas todas as atividades na lagoa artificial, sendo autorizada a retomada das demais atividades previstas na licença, desde que não envolvam contato com o lago.

A Polícia Civil de São Paulo prendeu um terceiro policial suspeito de envolvimento no sequestro do empresário espanhol, de 25 anos, mantido refém em um cativeiro em Mogi das Cruzes, na Grande SP. O caso aconteceu no início da semana passada, na segunda-feira, 24.

A vítima, Rodrigo Perez Aristizabal, relatou às autoridades que ficou sob o domínio dos sequestradores por cinco dias, até sábado, 29, quando conseguiu escapar. Ele disse que chegou a ter cerca de US$ 50 milhões de dólares desviados das suas contas bancárias - cerca de R$ 280,3 milhões na cotação atual.

A identidade do agente detido não foi informada e, por isso, não foi possível localizar a sua defesa. Dois outros policiais, um militar da reserva e um civil, já tinham sido detidos. A Divisão Antissequestro do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope) investiga o caso.

O terceiro agente, também policial civil, estava foragido. Ele foi capturado na noite da última quarta, 2, e preso temporariamente, segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP-SP).

Ainda conforme a pasta, a Corregedoria da Polícia Civil apontou a participação de sete suspeitos ao todo no caso, incluindo a namorada da vítima, Luana Bektas Lopez, do Paraguai. A defesa dela não foi localizada. A SSP-SP disse, em manifestações anteriores, que não tolera desvios de conduta.

"Uma ex-namorada da vítima também é alvo das investigações, que prosseguem sob responsabilidade da Divisão Antissequestro do Dope e das Corregedorias das Polícias Civil e Militar para o completo esclarecimento dos fatos", informou a secretaria, em nota.

Empresário espanhol foi mantido refém por cinco dias

O crime aconteceu no início da semana passada. O empresário Rodrigo Perez Aristizabal relatou à polícia, sem conseguir precisar o dia, que voltava de uma padaria para o seu apartamento, no Ipiranga, zona sul da cidade, quando foi abordado por dois homens que estavam em uma camionete preta com a logomarca da Polícia Civil.

Ele foi chamado pelo nome. Ao responder, os supostos agentes teriam dito que eram da polícia internacional, e o colocaram à força no veículo. Os suspeitos estavam usando uniforme da Polícia Civil, segundo o boletim de ocorrência. O caso teria acontecido entre na segunda, 24, ou terça-feira, 25, conforme o relato do empresário.

Aristizabal foi levado para um cativeiro, em uma área de mata em Mogi das Cruzes. Ele relata que teve de tomar remédio para dormir e que passou a ser extorquido pelos sequestradores. De acordo com a vítima, os suspeitos teriam desviado uma quantia de US$ 50 milhões da sua conta - cerca de R$ 280 milhões na conversão atual.

Conforme o registro policial, no sábado, ele conseguiu escapar do cativeiro depois de colocar, escondido, o remédio tranquilizante em uma bebida que estaria tomando acompanhado de um dos sequestradores, de quem teria conseguido a confiança.

O espanhol conseguiu se libertar das algemas, escapar do cativeiro, e acessar um restaurante, onde acionou a PM. Os agentes foram ao lugar onde o empresário era mantido como refém e encontraram um dos sequestradores no local do crime. Aos policiais, o agente confessou a participação no crime e foi preso em flagrante.

Participação da namorada

A Corregedoria da Polícia Civil investiga a participação da namorada de Rodrigo Aristizabal no crime. O espanhol relatou à polícia que Luana Bektas teria aparecido no local do cativeiro em um dos dias em que esteve sob o domínio dos bandidos.

Ainda conforme o registro policial, o empresário teria percebido, no dia do sequestro, que a companheira estava trocando mensagens no celular com um contato identificado como "Thor", com quem ela já teria conversado em outras oportunidades, escondida do empresário.

Uma abordagem da Polícia Rodoviária Federal no Paraná culminou na apreensão de duas BMWs pela Polícia Civil de Santa Catarina. No dia 5 de fevereiro, câmeras de videomonitoramento da concessionária Arteris registraram dois motoristas de BMWs executando manobras perigosas na praça de pedágio da BR-101, em Garuva, Santa Catarina. O condutor do primeiro veículo, uma M3 sedan azul de 2017, após efetuar o pagamento do pedágio, executou manobras como arrastamento de pneus, cavalos-de-pau e movimentos circulares em meio ao tráfego, incluindo caminhões.

O segundo, a bordo de uma M3 Competition verde de 2021, fugiu sem pagar o pedágio. Ele filmou as ações arriscadas do primeiro motorista enquanto dirigia.

Informada pela concessionária e de posse das imagens gravadas na praça do pedágio, a PRF abordou os veículos na unidade de Tijucas do Sul, na BR-376. Durante a fiscalização, os policiais constataram que ambos os veículos circulavam sem as placas dianteiras.

A BMW verde, avaliada em R$ 560 mil, estava sem nenhuma placa - elas foram encontradas no porta-luvas do veículo, porém em tamanho reduzido, em desacordo com a legislação. O motorista usava o celular para filmar as manobras do colega enquanto dirigia ao lado de uma mulher e uma criança de três anos. As infrações resultaram em multas totalizando R$ 912,33.

O influencer da BMW azul, avaliada em R$ 380 mil, que realizou as manobras perigosas, estava com a CNH vencida e o para-brisa trincado, acumulando multas no valor de R$ 3.716,87. A infração por manobras perigosas, especificamente, implica multa de R$ 2.934,70 e suspensão do direito de dirigir.

As investigações revelaram que os motoristas envolvidos são influenciadores digitais que utilizavam veículos de luxo para infrações de trânsito, registrando e divulgando as ações nas redes sociais com o objetivo de monetizar o conteúdo e atrair seguidores. Essa prática levou a Polícia Civil de Santa Catarina a deflagrar, no começo de março, a Operação Bayerische, 'visando reprimir tais condutas e desestimular a glorificação de infrações de trânsito nas mídias sociais'.

Durante a operação, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em Balneário Camboriú e Itapema, resultando na apreensão de mais dois veículos de luxo: um Chevrolet Camaro 1SS e uma Land Rover Discovery. Os policiais também encontraram adesivos relacionados ao perfil do influenciador e placas de veículos com mecanismos de rápido acoplamento, possivelmente usados para dificultar a identificação. A Justiça determinou o bloqueio das redes sociais utilizadas para a divulgação das infrações e a suspensão das CNHs dos influencers.