Coreia do Norte descarta reconciliação e declara Seul como 'inimigo primário', diz Kim Jong-un

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O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, disse que seu país não buscaria mais reconciliação com a Coreia do Sul, e pediu para que a Constituição do Norte fosse reescrita, para eliminar a ideia de um Estado compartilhado entre os países divididos pela guerra, informou a mídia estatal nesta terça-feira, 16.

O passo histórico para descartar uma busca antiga pela unificação pacífica, que era baseada em um senso de homogeneidade nacional compartilhado pelas duas Coreias, chega em meio a altas tensões, ao passo que o desenvolvimento de armas pelo Norte e a realização de exercícios militares pelo Sul com os Estados Unidos intensificam uma atmosfera de "olho por olho".

Alguns especialistas dizem que Kim poderia estar tentando diminuir a voz da Coreia do Sul em questões de segurança regional e comunicar mais claramente que quer negociar diretamente com os Estados Unidos sobre o impasse nuclear, que se aprofundou em meio a divergências sobre as rigorosas sanções lideradas pelos EUA sobre o seu crescente programa de armamento nuclear.

Declarando o Sul como um permanente adversário, não como um potencial parceiro de reconciliação, poderia também ser parte de esforços para aumentar a credibilidade da doutrina nuclear de Kim, que autorizou o exército a lançar ataques nucleares preventivos contra adversários se perceberem a liderança em Pyongyang sob ameaça.

A medida do Norte chega no momento em que Kim tem ativamente impulsionado suas parcerias com Rússia e China, enquanto ele tenta quebrar seu isolamento diplomático e aumentar sua influência, juntando-se a uma frente unida contra Washington.

A Coreia do Norte também aboliu as principais agências governamentais encarregadas de cuidar das relações com a Coreia do Sul, durante uma reunião do parlamento do país na segunda-feira, 15, disse a KCNA, a agência oficial de notícias de Pyongyang.

A Assembleia Popular Suprema disse que as duas Coreias estão presas em um "confronto agudo" e que seria um grave erro o Norte considerar o Sul como um parceiro na diplomacia. "O Comitê para a Reunificação Pacífica do País, o Gabinete Nacional de Cooperação Econômica e a Administração Internacional de Turismo (Diamond Mountain), ferramentas que existiam para o diálogo entre Norte e Sul, para negociações e cooperação, são abolidos", disse a assembleia em comunicado.

Durante seu discurso, Kim culpou o Sul e os Estados Unidos pelo aumento de tensões na região, citando seus amplos exercícios militares conjuntos, o envio de recursos militares estratégicos estadunidenses e sua cooperação de segurança trilateral com o Japão, tornando a Península Coreana em uma perigosa zona de risco de guerra, disse a KCNA.

Kim disse que se tornou impossível para o Norte tentar a reconciliação e uma reunificação pacífica com o Sul, que ele descreveu como "fantoches de primeira classe" de potências externas que são obcecadas por manobras de confronto. Ele pediu à assembleia para reescrever a Constituição do Norte para definir o Sul como "inimigo primário e invariavelmente principal inimigo" do Norte. A nova constituição deveria especificar que a Coreia do Norte buscaria "ocupar, subjugar e recuperar" a Coreia do Sul como parte do território do Norte se outra guerra eclodir na Península Coreana, disse Kim.

Ele também ordenou a remoção de símbolos do passado da reconciliação entre as Coreias, para "eliminar completamente conceitos como 'reunificação', 'reconciliação' e 'compatriotas' da história nacional da nossa república". O ditador especificamente ordenou cortar trechos ferroviários transfronteiriços e a demolição de um monumento em Pyongyang em homenagem à busca pela reunificação, que Kim descreveu como "monstruoso".

"É a conclusão final tirada da amarga história das relações intercoreanas de que não podemos seguir juntos o caminho da restauração nacional e da reunificação", disse ele.

'Derrota inimaginável para os EUA'

O presidente sul-coreano, Yoon Suk Yeol, durante uma reunião de gabinete em Seul, disse que os comentários de Kim mostram a natureza "antinacional e anti-histórica" do governo em Pyongyang. Yoon disse que o Sul está mantendo uma firme prontidão de defesa e punirá o Norte "múltiplas vezes" se o provocar. "A tática falsa de paz (do Norte) que nos ameaçava a escolher entre 'guerra' e 'paz' não funciona mais", disse Yoon.

Em seu discurso na assembleia, Kim reiterou que o Norte não tinha intenção de começar uma guerra unilateralmente, mas também não tinha intenções de evitá-la. Citando seu crescente programa nuclear, ele disse que um conflito nuclear na Península Coreana iria acabar com a existência do Sul e trazer "desastre e derrota inimagináveis para os Estados Unidos".

Kim já fez declarações similares durante uma reunião de fim de ano de seu partido, dizendo que laços entre as Coreias se tornaram "fixados nas relações entre dois Estados que hostilizam um ao outro". Em uma conferência política na semana passada, ele definiu a Coreia do Sul como o "principal inimigo" do Norte e ameaçou aniquilá-la se fosse provocado.

Agências eliminadas

A assembleia disse que o governo da Coreia do Norte tomaria "medidas práticas" para implementar a decisão de abolir as agências que cuidam do diálogo e da cooperação com o Sul.

O Comitê Nacional para a Reunificação Pacífica tem sido a principal agência da Coreia do Norte que trata dos assuntos intercoreanos desde a sua criação em 1961. Já o Gabinete Nacional de Cooperação Econômica e a Administração Internacional de Turismo de Diamond Mountain foram criados para cuidar de projetos econômicos e turísticos conjuntos entre as Coreias durante um breve período de reconciliação na década de 2000.

Tais projetos, incluindo um parque fabril operado em conjunto na cidade fronteiriça norte-coreana de Kaesong e viagens sul-coreanas ao resort Diamond Mountain, no Norte, foram sendo interrompidos ao longo do tempo, à medida que as relações entre os rivais se agravavam devido às ambições nucleares da Coreia do Norte.

Essas atividades estão atualmente proibidas pelas resoluções do Conselho de Segurança da ONU contra o Norte, que se tornaram mais rigorosas desde 2016, quando Kim acelerou os seus testes nucleares e de mísseis.

Kim prometeu ainda expandir o seu arsenal nuclear e cortou praticamente toda a cooperação com o Sul. Ele aumentou as suas demonstrações de armamento a uma velocidade recorde desde o início de 2022, aproveitando a distração criada pela guerra da Rússia contra a Ucrânia para expandir as suas capacidades militares.

Há também uma crescente preocupação internacional sobre um suposto acordo de cooperação armamentista entre a Coreia do Norte e a Rússia . Os Estados Unidos e a Coreia do Sul afirmam que a Coreia do Norte forneceu armas à Rússia, incluindo artilharia e mísseis, para ajudar na sua luta na Ucrânia.

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