'Crescimento do MP gerou desigualdades nos órgãos de execução', diz Tereza Exner

Política
Tipografia
  • Pequenina Pequena Media Grande Gigante
  • Padrão Helvetica Segoe Georgia Times
Ela é a única mulher em um grupo de cinco candidatos que concorrem ao posto máximo do Ministério Público de São Paulo, a cadeira de procurador-geral de Justiça.

Chama-se Tereza Cristina Maldonado Katurchi Exner, mas basta Tereza Exner, nome reverenciado no velho prédio da rua Riachuelo, monumento histórico do centro da capital paulista, endereço da Procuradoria-Geral de Justiça.

Tereza Exner está com 60 anos, dos quais 37 dedicou à sua Instituição.

Até recentemente ocupava cargo espinhoso, tão sensível que raros são os que aceitam o desafio - ela foi a 'xerife' do MP, por dois anos corregedora-geral.

A vasta experiência a fez conhecer como poucos a rotina das Promotorias e a levou a um veredicto. "A Instituição cresceu muito nas últimas décadas, especialmente pelas múltiplas atribuições que lhe foram conferidas pela Constituição. Esse crescimento gerou desigualdades na estrutura dos diferentes órgãos de execução."

Este é um encargo que espera superar, entre tantos que projeta ter pela frente, se eleita pelos colegas e se, afinal, escolhida for pelo governador Tarcísio de Freitas para dirigir o maior MP estadual do País. "Pretendo reverter esse panorama com a aplicação de critérios objetivos e transparentes na destinação de cargos, servidores para os diversos órgãos e dar ênfase a divisões de atribuições que possibilitem condições equânimes de trabalho para todos os membros", planeja.

Em entrevista ao Estadão ela discorre sobre seus planos e revela preocupação com a onda de violência que assola os grandes centros urbanos. "Não existe receita mágica para a solução da criminalidade", diz.

A eleição é sábado, 13. Ela rivaliza com quatro procuradores, dois da situação (José Carlos Cosenzo e Paulo Sérgio de Oliveira e Costa) e dois da oposição (José Carlos Bonilha e Antônio Da Ponte). Quadros de peso, cada qual com seu eleitorado cativo, nomes difíceis de serem batidos - mas isso não inibe Tereza.

Os promotores e procuradores, cerca de 2 mil, votam uma lista tríplice que irá às mãos de Tarcísio, a quem compete indicar o futuro número 1 do MP.

Quando não está mergulhada em feitos de sua atribuição, a procuradora aprecia uma boa leitura, música e cinema. "E, claro, a companhia de minha família e dos amigos."

LEIA A ENTREVISTA DE TEREZA EXNER

Qual o seu Ministério Público ideal?

O Ministério Público ideal é aquele que está sempre atento à defesa de todos os segmentos da sociedade, dado que dela somos o defensor. É o MP que trilha o caminho da democracia, guardião da ordem jurídica e dos direitos sociais.

Para que avancemos cada vez mais no cumprimento do nosso dever constitucional, também é preciso uma instituição bem estruturada e bem organizada, com recursos humanos e materiais suficientes e dotada de instrumental tecnológico mais avançado para possibilitar o adequado exercício das suas atribuições funcionais.

Que projetos a sra. tem para a Instituição?

Em primeiro lugar uma reestruturação da Procuradoria-Geral de Justiça, a fim de possibilitar melhor atendimento às demandas dos membros junto aos Centros de Apoio, para um suporte mais eficiente nas diversas áreas da atuação funcional. No mesmo plano de urgência, o aprimoramento do setor de tecnologia da informação com unificação dos sistemas hoje existentes a fim de conferir maior agilidade e eficiência ao serviço. Entendo de fundamental importância reforçar a atuação do Ministério Público nos debates e discussões junto ao Conselho Nacional do Ministério Público e Conselho Nacional de Justiça, redobrar a atenção no acompanhamento de projetos de lei com interesse institucional e reforçar a presença perante os Tribunais Superiores no julgamento de casos de repercussão e relevantes para a sociedade.

Por que quer ser procuradora-geral de Justiça de São Paulo?

Desde que ingressei no Ministério Público, há trinta e sete anos, sempre estive envolvida nas lutas institucionais e tive atuação na atividade política. Atuei a maior parte do tempo em Promotorias e Procuradorias, mas sempre me interessei pelas outras áreas de atuação. Integrei por dois anos o Órgão Especial de Procuradores e por outros dois anos a Corregedoria-Geral. Isso me permitiu ter uma visão bastante ampla da carreira e levou-me a pleitear o posto máximo da Instituição. Considero possuir experiência e conhecimento necessários para ocupar esse cargo. Mas, sobretudo, tenho uma grande vontade de contribuir para o aperfeiçoamento do Ministério Público. É uma Instituição da qual muito me orgulho e tem uma função social relevantíssima na construção de uma sociedade mais justa.

O que pretende priorizar na reta final de campanha?

Realizei reuniões online com centenas de promotores e procuradores por todo o Estado e, com isso, tive oportunidade de expor minha visão da carreira e obter informações importantes para a elaboração do meu plano de gestão. Nestas últimas semanas continuo fazendo reuniões online e também visitas presenciais para fortalecer os laços com os colegas e continuar a ouvi-los sobre suas demandas e projetos.

Em suas visitas às Promotorias o que pôde constatar?

Os contatos feitos com os colegas reforçaram o que já havia constatado à frente da Corregedoria-Geral. A Instituição cresceu muito nas últimas décadas, especialmente pelas múltiplas atribuições que lhe foram conferidas pela Constituição Federal. Todavia, esse crescimento gerou desigualdades na estrutura dos diferentes órgãos de execução. Pretendo reverter esse panorama com a aplicação de critérios objetivos e transparentes na destinação de cargos, servidores para os diversos órgãos e dar ênfase a divisões de atribuições que possibilitem condições equânimes de trabalho para todos os membros.

O que é que os promotores mais almejam?

Sem dúvida, melhores condições de trabalho, de recursos humanos, além de ferramentas tecnológicas eficientes e suporte técnico adequado para a execução de suas atividades.

Promotor também deveria concorrer ao topo do MP? Por quê?

A possibilidade de promotores de primeira instância ocuparem o cargo de procurador-geral já é uma realidade em quase todos os Estados e não vejo impedimento de qualquer natureza para que isso ocorra em São Paulo. Registro, ainda, enxergar que outras funções de relevo, como ouvidor-geral e integrante da Comissão de Concurso de Ingresso à Carreira, hoje restritas aos procuradores de Justiça, poderiam também ser exercidas por promotores de Justiça. Há colegas preparadíssimos que em muito poderiam contribuir para o crescimento e aperfeiçoamento institucional.

O governador é bolsonarista. Ele vai escolher o futuro chefe da Instituição. Se a sra. assumir o comando do MP paulista, conseguirá agir com isenção em investigações sobre o ex-presidente?

Tenho o maior respeito pelo sr. governador, eleito democraticamente. Se for escolhida, pretendo cumprir de forma absolutamente republicana todas as minhas funções. Conduzirei toda e qualquer investigação afetas ao cargo de forma impessoal com estrito respeito à lei. Se não me sentisse apta para tanto, certamente não teria me candidatado, pois o Ministério Público não pode deixar de servir em primeiro lugar à sociedade da qual é o guardião.

Como vai proceder em episódios como a Operação Verão, à qual têm sido atribuídas até execuções por policiais militares na Baixada Santista?

Repito que qualquer fato delituoso que chegue ao conhecimento do Ministério Público deverá ser investigado de modo isento, técnico e com absoluto respeito aos ditames legais.

O Supremo Tribunal Federal tem sido criticado por sua atuação em casos emblemáticos como a investigação do 8 de Janeiro. Vê excessos?

Como integrante do Ministério Público estadual, tenho cautela ao apreciar decisões proferidas por Tribunais Superiores sem ter tido contato com os autos. Isso pode levar a conclusões equivocadas ou meros palpites.

Dezessete anos de prisão para invasores da Praça dos Três Poderes, acusados de atos antidemocráticos e abolição do estado de direito, é uma pena justa?

Desconheço detalhes dos processos para avaliar se estaria de acordo com essas reprimendas, ou não. Diversos réus foram denunciados por vários crimes, em concurso material, quando as penas devem ser somadas e alguns dos crimes praticados são severamente apenados. Quero crer que. após a devida análise das provas, os eminentes ministros aplicaram as penas seguindo os critérios legais, de modo que elas fossem suficientes para prevenção e reprovação dos delitos. Cumpre registrar, ainda, ter o Ministério Público Federal, pelo sr. procurador-geral da República, se feito presente em todos os processos, tudo de forma a garantir a legalidade das decisões.

Qual a sua proposta para o drama da Cracolândia?

A Cracolândia é, de fato, um drama imenso para a cidade de São Paulo. É uma consequência da ausência de políticas públicas adequadas para os diversos problemas subjacentes, nas áreas de saúde pública, assistência social, segurança pública, habitação e urbanismo, inclusão social, infância e juventude. Não cabe ao Ministério Público desenvolver políticas necessárias nas diferentes áreas. Mas, como agente político, pode contribuir no levantamento de dados e dialogar com os entes governamentais responsáveis, a fim de encontrar soluções. Especificamente quanto ao Ministério Público entendo de rigor a adoção de uma política permanente e coordenada entre as nossas diversas áreas de atuação, dado que a situação da Cracolândia envolve questões relacionadas não só à segurança pública, mas também saúde, inclusão social, habitação, infância e juventude, entre outras.

Qual a sua sugestão para o futuro prefeito de São Paulo?

Estabelecer um plano de ação baseado em um estudo sério e propositivo da situação de nossa cidade e estabelecer metas factíveis, bem como estreitar o diálogo com os vários setores organizados da sociedade para elaboração de políticas públicas.

O PCC avança como um trator e se infiltra em setores do poder público. Como pretende enfrentar o crime organizado cada vez mais ousado e agressivo?

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, braço do MP) tem realizado um trabalho notável nas investigações sobre associações criminosas. Pretendo fortalecer ainda mais o grupo, melhorando a estrutura de todos os núcleos. Além disso, fazer convênios e parcerias com órgãos e instituições que possam colaborar com o aperfeiçoamento das ferramentas de investigação e garantir os recursos necessários ao bom desempenho do trabalho dos promotores. Por fim, acho imprescindível o acompanhamento dos processos nas instâncias superiores.

Qual a sua receita para redução da criminalidade nos grandes centros?

Não existe receita mágica para a solução da criminalidade. Apenas o trabalho diuturno, sério e competente dos órgãos da Segurança Pública, do Ministério Público e do Poder Judiciário pode trazer alguma melhora. Se todos os entes estatais cumprirem seu papel, isso certamente resultará na aplicação correta da lei e, em consequência, trará redução da criminalidade.

CONHEÇA OS CAMINHOS QUE TEREZA EXNER PERCORREU EM 37 ANOS DE MINISTÉRIO PÚBLICO

Tereza Cristina Maldonado Katurchi Exner cursou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco-USP, onde se formou em 1985. Ingressou no Ministério Público de São Paulo em 13 de março de 1987.

Foi promotora de Justiça Substituta de Santo André, depois titular em Vargem Grande do Sul, Taboão da Serra e Suzano.

Na Capital trabalhou na Promotoria Criminal da Lapa e, já como titular, na 6.ª Promotoria de Justiça Criminal.

Atua desde 2009 na Procuradoria de Justiça Criminal.

Foi eleita para integrar o Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça no biênio 2014/2015.

Nos biênios 2015/2016 e 2017/2018 eleita vice-corregedora do MP de São Paulo. Foi a primeira mulher eleita corregedora-geral do MP paulista para o biênio 2019/2020.

Em 2020 eleita presidente do Conselho Nacional dos corregedores-gerais do Ministério Público dos Estados e da União.

Também foi a primeira integrante do Ministério Público de São Paulo a participar de uma banca de concurso para ingresso na carreira da magistratura (Concurso 189).

Em outra categoria

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, declarou nesta sexta, 14, que negociará um cessar-fogo com a Ucrânia se Kiev retirar suas tropas das quatro províncias que Moscou reivindica e renunciar a uma adesão à Otan. Em uma reação imediata, a Ucrânia afirmou que Putin deu a ela um "ultimato à moda Hitler", dizendo que a proposta era equivalente a uma rendição. As declarações foram dadas na véspera do primeiro dia da Cúpula de Paz realizada na Suíça entre este sábado, 15, e domingo, 16, a pedido de Kiev, com a participação de diversos líderes mundiais, com exceção da Rússia.

O anúncio de Putin estipula que a Ucrânia entregue efetivamente enormes extensões de terra que Moscou controla parcialmente: as regiões de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia. A Rússia já anexou a região da Crimeia, em 2014. Foi o conjunto mais concreto de condições territoriais de Putin para encerrar a guerra até agora.

Kiev, por sua vez, disse que a Rússia deve retirar suas tropas de todo o território ucraniano internacionalmente reconhecido. "O objetivo (da declaração de Putin) é enganar a comunidade internacional, minar os esforços diplomáticos destinados a alcançar uma paz justa e dividir a unidade do mundo em relação aos princípios da Carta das Nações Unidas", afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano.

Ausências

A cúpula na Suíça reunirá representantes de mais de 90 países e tentará apresentar pontos de convergência entre nações do Ocidente e do Sul Global, apesar de ausências de peso como a própria Rússia e a China.

Não convidado para o evento, Moscou disse se tratar de uma "perda de tempo". A China, por sua vez, não comparecerá por considerar que Rússia e Ucrânia precisam estar juntas em negociações de paz.

Outros países importantes como Arábia Saudita e Paquistão também não enviaram delegações e Brasil e Índia mandariam representantes de menor peso diplomático.

A Suíça afirmou que a conferência é um primeiro passo para tratar de possíveis soluções para a paz e a Rússia deverá participar de uma segunda cúpula, ainda sem data.

A conferência focará três pontos que compõem uma fórmula de paz proposta pelo presidente ucraniano, Volodmir Zelenski: segurança nuclear, segurança alimentar e libertação de prisioneiros de guerra e crianças sequestradas.

"As questões são importantes para os participantes. Todos querem a livre circulação porque se abastecem dos grãos que vêm da região. A segurança nuclear também é uma preocupação mundial e a libertação de crianças é uma questão humanitária", avalia Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade de Harvard.

Segundo um comunicado do governo suíço, são problemas civis e relevantes para países geograficamente distantes da Ucrânia, mas também afetados pela guerra, "particularmente, o Sul Global". A Ucrânia é uma grande produtora de grãos.

"Kiev vai tentar mostrar que os países de Ásia, África e América do Sul ficarão menos seguros se estes tópicos não forem resolvidos", avalia Simon Schlegel, analista para Ucrânia do centro de estudos International Crisis Group. Kiev quer ressaltar que essas são questões globais, não apenas ucranianas.

Reveses

Segurança alimentar e libertação de crianças deportadas para a Rússia estão entre os raros tópicos que Moscou e Kiev já conseguiram chegar a algum entendimento desde que o conflito começou, em fevereiro de 2022. As negociações, porém, sofreram reveses. "As propostas (novamente em discussão) não envolvem territórios e por isso é possível acreditar que seria mais fácil para a Rússia negociar", disse Brustolin.

O chanceler da Suíça, Ignazio Cassis, afirmou em entrevista coletiva que o país sabe que não é possível discutir o processo de paz sem a presença da Rússia. "A questão não é se a Rússia participará das negociações, mas quando", disse.

O governo suíço enviou convites para 160 líderes. Até ontem, 90 países tinham confirmado. O presidente dos EUA, Joe Biden, que estava na Itália para a cúpula do G-7, optou por retornar ao seu país para participar de um comício de campanha e será representado pela vice-presidente americana, Kamala Harris. Todos os outros líderes do G-7 confirmaram presença.

Documento final

Para o analista do International Crisis Group, é importante que Kiev consiga angariar um grande número de países. "É uma questão simbólica, o peso da cúpula será medido pelo número de países que participarão, pelo peso desses países e também pelo nível de autoridades importantes que estarão lá."

Mesmo assim, para o professor de relações internacionais da ESPM-SP, Gunther Rudzit, será difícil fazer com que os países do Sul Global apoiem um documento final no evento. "Muitas das nações que devem ir ao evento dependem financeiramente da China e Pequim não quer deixar a Rússia isolada", disse. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

A Suprema Corte dos Estados Unidos anulou nesta sexta-feira, 14, a norma que proibia os bump stocks, dispositivos que aumentam a capacidade de disparo de fuzis, equiparando-os a metralhadoras automáticas. A proibição havia sido implementada durante o governo Donald Trump depois do massacre de Las Vegas, o mais letal da história moderna americana.

A decisão por um placar de seis votos a três reverte uma das poucas medidas para conter a violência armada no país e reflete as divisões ideológicas da Suprema Corte americana, de maioria conservadora. No parecer, o juiz Clarence Thomas escreveu que a Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF da sigla em inglês) excedeu os seus poderes ao proibir o dispositivo.

Os bump stocks aumentam a capacidade de disparo dos fuzis semiautomáticos para até 800 tiros por minuto, comparável às metralhadoras, que são proibidas para uso de civis nos Estados Unidos por uma lei de 1986. Foi nessa regra que o governo se baseou, em 2018, para proibir o dispositivo, usado no ataque a tiros a um festival de música country que matou 60 pessoas e deixou mais de 500 feridos.

"Consideramos que um fuzil semiautomático equipado com um bump stock não é uma 'metralhadora' porque não pode disparar mais de um tiro 'por uma única função do gatilho'", escreveu Thomas, referindo-se à definição para metralhadora que consta na lei de 1986.

O juiz focou em aspectos técnicos da lei e do dispositivo - incluindo diagramas do seu funcionamento - para justificar a decisão. "Com ou sem bump stock, o atirador deve soltar e reiniciar o gatilho entre cada tiro", argumentou.

O massacre de Las Vegas "demonstrou que um fuzil semiautomático equipado com um bump stock pode ter o mesmo efeito letal que uma metralhadora e, portanto, reforçou os argumentos a favor de uma revisão desta lei", reconheceu o conservador Samuel Alito. "Mas um acontecimento que destaca a necessidade de modificar a lei não altera por si só o significado da lei", acrescentou, sugerindo que o Congresso deveria agir.

A juíza Sonia Sotomayor, da minoria liberal, apresentou sua discordância acompanhada pelas juízas Elena Kagan e Ketanji Brown Jackson, também da ala progressista do tribunal.

Ela criticou os conservadores por não aceitarem a definição comum de metralhadora e alertou que a decisão terá consequências mortais ao dificultar os esforços do governo para impedir que atiradores, como o de Las Vegas, tenham acesso aos bump stocks. "A maioria coloca metralhadoras de volta nas mãos de civis", disse ela.

Poder letal

O poder letal do dispositivo ficou evidente em outubro de 2017, quando Stephen Paddock, 64 anos, abriu fogo no festival de música country que ocorria em um hotel em Las Vegas. Durante cerca de 11 minutos, ele disparou mais de mil cartuchos de munição no que continua sendo o ataque mais mortal da história moderna dos EUA. Em seu arsenal, havia uma dúzia de fuzis AR-15 equipados com bump stocks.

"A decisão é, na verdade, apenas outra forma de convidar as pessoas para outro tiroteio em massa", disse Danette Meyers, amiga e porta-voz da família de Christiana Duarte, vítima do massacre em Las Vegas.

Após a tragédia de Las Vegas e do ataque de Parkland na Flórida, que deixou 17 mortos em uma escola, em fevereiro de 2018, o governo Donald Trump se comprometeu a proibir os bump stocks. Em dezembro, a agência responsável pelas armas de fogo passou a considerar o dispositivo equivalente à metralhadoras e ordenou a quem possuísse que os destruísse ou entregasse às autoridades em um prazo de 90 dias.

Enquanto tenta voltar à Casa Branca, Donald Trump pareceu minimizar a ação do seu próprio governo, quando disse a representantes da Associação Nacional de Rifles (NRA da sigla em inglês) que nada aconteceu em relação às armas enquanto esteve na presidência apesar da grande pressão. Na ocasião, ele disse ao grupo se for eleito novamente, "ninguém colocará um dedo nas suas armas de fogo".

Decisão criticada por democratas

Nesta sexta, a equipe de campanha à reeleição do presidente Joe Biden, que defende mais restrições para armas, criticou a decisão do tribunal, que acusou de priorizar o lobby das armas em detrimento da segurança.

"As armas de guerra não têm lugar nas ruas dos Estados Unidos, mas os juízes da Suprema Corte de Trump decidiram que o lobby das armas é mais importante do que a segurança das nossas crianças e comunidades", disse o porta-voz da campanha, Michael Tyler, em nota.

A mesma Suprema Corte de maioria conservadora, em 2022, ampliou o direito de carregar armas em público nos EUA ao derrubar a lei do Estado de Nova York que estabelecia limites para o porte.

Para as próximas semanas, é esperado que o tribunal arbitre sobre a tentativa do governo Joe Biden de proibir o acesso a armas para pessoas sob ordens de restrição por violência doméstica. A medida foi declarada inconstitucional pela Justiça com base na Segunda Emenda da Constituição, que garante o direito de manter e portar armas nos EUA. A Casa Branca recorreu na Suprema Corte. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu apoiar a entrada da Turquia como novo membro do Brics, bloco informal de coordenação política e econômica de países em desenvolvimento. Lula recebeu pedido do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, durante uma conversa à margem da reunião de líderes do G7, na Itália. Ele já havia sinalizado o interesse à Rússia e também recebeu sinal verde.

"Lula disse quer vai apoiar a demanda turca e afirmou que pretende fazer uma visita ao país localizado na região que conecta a Europa ao Oriente Médio", informou o Palácio do Planalto, agregando que o líder turco, por sua vez, confirmou presença na Cúpula do G-20, no Rio, em 18 e 19 de novembro.

A Turquia é considerada candidata a entrar na União Europeia desde 1999 e iniciou as negociações em 2005. O país vive um impasse desde ao menos 2018, por retrocessos democráticos, embora seja considerada uma nação parceira do bloco. Erdogan já sinalizou que poderia desistir do processo.

Após uma ampliação no ano passado, o Brics passou a receber ainda mais pedidos de países candidatos a se tornarem membros. A decisão deve ser tomada sempre por consenso e diversos líderes globais esperam que a Cúpula de Líderes de 2024 possa ter uma nova rodada de crescimento, embora o processo costume demorar e ser debatido por anos até se concretizar.

O processo de ampliação vem sendo patrocinado principalmente pela China, que busca fortalecer novos blocos internacionais como forma de contestar e enfrentar o poder econômico e geopolítico do G7, influenciado principalmente pelos Estados Unidos.

Embora diplomatas tentem minimizar a oposição e rivalidade, o ex-chanceler Celso Amorim, assessor especial de Lula e defensor do fortalecimento do chamado Sul Global, liderado pela China, já disse que o crescimento e o interesse pelo Brics mostra que o mundo não é mais "ditado" pelo G7.

Entre os países que já pediram adesão formal ou informalmente, além da Turquia, estão Colômbia, Venezuela, Cuba, Argélia, Paquistão, Tailândia e Indonésia. Mais de 40 países demonstraram interesse desde o ano passado, como a Nigéria.

Recentemente Lula prometeu patrocinar o ingresso da Colômbia no grupo, depois que a Argentina declinou do convite por decisão do presidente Javier Milei.

O Brics passou por uma ampla expansão no ano passado, o que não ocorria desde a entrada da África do Sul em 2011, e terá dez membros na cúpula de Kazan, na Rússia, entre 22 e 24 de outubro: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e os novos Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Reuniões bilaterais

Ainda na Itália, o presidente se reuniu reservadamente com o papa Francisco, com o presidente da França, Emmanuel Macron, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.

O governo disse que Lula e Ursula trataram do Acordo Mercosul-União Europeia, travado desde o fim do ano passado por razões políticas, e do empoderamento feminino na política.

Com Macron, Lula tratou do combate ao garimpo ilegal e crimes transfronteiriços entre Brasil e Guiana Francesa, que são alvo de cooperação policial. Eles também trataram das celebrações do Ano do Brasil na França e do Ano da França no Brasil, para promoção de intercâmbio cultural.

"Juntos, continuaremos a enfrentar os grandes desafios do nosso tempo e a defender os valores universais que são a base das nossas democracias", registrou Macron.

Modi confirmou presença na Cúpula de Líderes do G20, a ser realizada no Brasil em novembro, segundo o governo brasileiro. No ano passado, Lula recebeu do premiê indiano, em Nova Délhi, a presidência do grupo que reúne as principais economias do mundo. O petista afirmou que pretende realizar nova visita à Índia.